FABRÍCIO MARQUES

NOTURNO

 

pensando que a vida é um mergulho
atravesso a chuva e vou andando

andando quase de brincadeira
pensando que a vida é um mergulho

na chuva e vou, como quem se molha
e deixa na calçada a alma umedecida

vou de alto a baixo, pelo centro, pela beira
no céu às vezes lua nova, às vezes cheia

atravesso a chuva e vou andando
às vezes duchamp, às vezes padre vieira

atravesso a chuva, a alma umedecida
passa pelos olhos a vida inteira

enquanto do oitavo andar de um tédio
um homem se joga num pulo suicida

e cai diante de mim, osso puro
no chão todo vermelho

e diz, olho no olho, antes do suspiro:
"vai e escreve o que digo, filho

quando você cair (de qualquer maneira)
-isto não falha- faça muito barulho"

 

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