Marcelo Terçanada
Marcelo Terçanada

POEMAS DE DICIONÁRIO MÍNIMO,

DE FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO

(São Paulo/Juiz de Fora : Nankin/Funalfa, 2003)

 

anágua

A Graça

A madureza me surpreende com a palavra anágua.

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O dicionário diz do étimo taino, ainda recendendo a Antilhas; diz da travessia do Atlântico, quando as tormentas do espanhol ? enaguas ? para o português exigiram reparos na proa e o lançar ao mar o lastro do plural.
A moda diz de uma peça obsoleta ante o império da transparência, do corpo-vitrine, sem vincos, menos fusco que fátuo fulgor. Desvendado, desventrado, dissipado.

*

Na infância se escondia sob as saias que jamais levantei. Ou acenava do varal, com rendas e aromas. Cet clair objet du désir nunca estava no rol de roupas sujas. Não se misturava com panos de prato, fronhas e toalhas.

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Na madureza, restou apenas a prosódia líquida da palavra. Um mundo animado de anas e águas, de avas e vagas. Vocábulo de tanque, de cisterna.

 

cadeira*

Fonética da cadeira — Quando não seja muda, trata-se de uma consoante ora oclusiva, ora fricativa.

Morfologia da cadeira — Os autores divergem quanto a classificá-la como artigo ou numeral (nas lojas e show-rooms), adjetivo ou pronome (nas empresas e repartições públicas), preposição ou interjeição (nos apartamentos de subúrbio). Sem embargo, predominam os que a consideram apenas conjunção.

Sintaxe da cadeira — Em geral sem sujeito, oculta o homem-nádegas. Pode-se atribuir-lhe incontáveis predicados, embora permaneça assento, braços e espaldar.

Estilística da cadeira — Se há estilo, declina para o não ser cadeira.

As leituras da cadeira — Manuais de instruções, bulas de antipiréticos, anais de congressos de lingüística, relatórios de guarda-chaves, resenhas do último livro do último filósofo francês.

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Cadeira é oração para excomungar cama, porta e caminho.

 

galo

Do galo não me agrada nem o bico nem as esporas. Ainda menos a crista. Rubra, rija, eriçada. Quase fálica. Espada ou glande manchada de sangue?

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Dos galos, apenas o carijó. Parcimonioso nas cores. Discreto — o que é raro num galo. Quando parado, uma tela tachista à procura do zero da expressão. Em movimento, múltiplos dados lançados ao acaso, cintilações num lago turvo, camuflagem precisa para um mundo preto-e-branco.

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No meu reduzido repertório de galos, o carijó tem no garnisé o seu antípoda. Reencenam no quintal o que Nietzsche, "dentro de suas sete solidões", denominou a moral do senhor e a moral do escravo.

 

janeiro

Janeiro é quintal onde esperam corgo e pinguela, onde caderno se torna estrepe e o muro ajoelha aos meninos. Às vezes tem mar, e uma inteira odisséia. À diferença que voltamos a Tróia.

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Janeiro destelha tempo e lugar. Cumula de verbos mesmo um livro doente.

 

martelo

A Roberto Corrêa dos Santos

 

Martelo é idéia fixa. Não minha, que não tenho pregos nem punho. Quem dele é o outro desenha um destino sem curvas.

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Há uma família — marreta, serrote, alicate — e o álbum dos desastres. Mas, como suas obras, martelo nunca está em casa. Está em rota para o mundo manual.

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Martelo acena em cada palavra. E deixa ao mar a gesta. 

 

sombra*

Está ali desde sempre. Quando convida é para soletrar fantasmas.

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Sem ela não existia árvore, pássaro, casa, nuvem, verão. Sem ela, a musa mirrava.

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Aprecia o espelho, o palrar dos signos, os hóspedes sem pressa; confabula com a febre, com a fuga e o açúcar; acompanha os gestos daquela moça depois de nua.

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Pode-se tornar portátil e atravessar a tarde nas mãos de uma dama antiga.

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De todas, prefira a física.

 

umbigo*

 

Imbigo litiga. Faz falar a indestra língua, o invés do vernáculo, o incipit do poema.

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Em antes, de seu acaso imbigo destinava quem índigo quem sombra, quem ínsula quem étimo, quem de Ítaca quem de Argo. Imbigo homem fazia.

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De hoje, o oco permeia, graça de gramático, obra de obstetra. O mais é berruga.

 

Fóssil da infância, velocípede existe em fuga para o vermelho.

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De miniatura viagem, velocípede açula um Ulisses dentro.

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Com sua frágil lição da queda, velocípede ensina o silêncio da festa.

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Deus ex-machina do menino, velocípede está em fazer do verbo bicicleta.

xadrez

 

Em pátio demora.

Sabe o cílio antes do sismo. O sigma e o século.

Admite o muro por princípio e um corredor onde os passos precedem.

Desmerece o chiste, embora um arlequim por fora.

 

 

 

FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO nasceu em Pirapetinga, Zona da Mata Mineira, no dia 21 de março de 1963. Residindo em Juiz de Fora (MG) desde 1972, participou do grupo de poetas, escritores, artistas plásticos e fotógrafos que, durante os anos 80, editou o folheto de poesia Abre Alas e a revista d’lira. Poeta e contista, tem três livros de poesia publicados, e ainda o ensaio "Trem e cinema: Buster Keaton on the railroad" (1998), além de contos e poemas em coletâneas, antologias e periódicos do Brasil, Itália, Portugal, Argentina, Espanha e Estados Unidos. Doutor em Semiologia pela Faculdade de Letras da UFJF e professor da Faculdade de Comunicação e do Mestrado em Letras da UFJF, desenvolve pesquisas nas áreas de Imagem e Literatura, com publicações regulares em coletâneas de ensaios e revistas especializadas. Em co-autoria com Iacyr Anderson Freitas e Edimilson de Almeida Pereira, publicou em 2000 a antologia poética bilíngüe (português/castelhano) "Dançar o nome", acompanhada de um CD com a leitura dos poemas pelos autores. Publicou ainda "Corpo portátil e poesia anterior", que reúne os seus livros de poesia escritos entre 1986 e 2000
e "Dicionário Mínimo", de que fazem os textos acima.
fiorese@acessa.com

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