sandra moreira






 

Robogótica

Sem palavras não vou
aos batizados
casamentos
aniversários

Sem palavras não vou
aos comícios
eleições
solenidades

Sem palavras não vou
aos espetáculos
lançamentos
exposições

Sem palavras nunca fui
não sou
nunca serei
atitude não tomei
gestos não fiz

Sem palavras não têm nome
o sábado
o domingo
as testemunhas
as certidões
Como tomei a palavra
tomem versos


Rap

Neve give up
nunca dar fora
não chutar o balde
o pau da barraca

Arcar consequências
do balde
da barraca

pulo fora
não dá
amasing

Sin a song
em Cingapura
purifica

Uma língua
nem sempre dá
tudo que pode
qui que quod


Cores

Azuis me olham
e eu verde
olhos azuis

Verde
imatura
verde
nova
verde
fora de época

Épica.


MARIA ESPERANÇA DO
PERPÉTUO SOCORRO

VI
Maria Esperança do Perpétuo Socorro,
conhecida por Mansa,
no retrato da primeira comunhão,
aparece lambuzada de Deus.

No primeiro baile,
alguém beijou sua lambuzança.

Nas primeiras coisas,
Mansa se estrepava.

Nas segundas, sentia cansaço
e pensava.

Sem querer,
pensava em andorinhas,
o horóscopo
as pessoas sem querer.

Mansa, de tanto sem querer,
esquecia seus pensamentos.

Voava de
um pensamento
a outro
sem pensar.

No primeiro encontro
com os pensamentos se estrepou
no segundo se cansou
ao terceiro se entregou...

IX
Por sentir beleza
por insistir
por existir

Mansa novamente
se estrepou
se cansou
se entregou.

Apreciando as Artes,
descobriu
sua natureza de mulher,

Deu à luz filhos
filhos de sua própria natureza.

XI
Na primeira vez
esbanjou carinho
na segunda
esbanjou mulher
na terceira sonhou com a eternidade.

Estabelecida,
Mansa criou raiz,
fundou residência
se agarrou
ao dia
bordejando a noite.

Admirada,
Mansa viu desafios:
jornal democrático
movimento estudantil
feminismo
cinema
poesia

ganhar dinheiro
casar-se
democratizar a vida
"carnavalizar a vida"
sublervar...

XIV
Foi quando quis
saber da felicidade.

É uma casa pequenina?
procurar sempre?
felicidade foi embora?
Embora haja
eu não quero?
Quero, mesmo que não haja?

Mansa 'garrou inventar
jeito de ser mulher.

No primeiro jeito...

Deu pra pensar que não tinha jeito
a cada defeito que via

Num itinerário estonteante,
Mansa,
apaziguada entre defeitos
e os amores perfeitos
viveu.

XVIII

Maria Esperança do Perpétuo Socorro,
adquirindo nome, sobrenome e
cidadania, danou-se.

Foi quando o mundo acabou e
Maria Esperança do Perpétuo Socorro,
começou sua plantação de ervas.

Primeiro vieram as rosas
segundo as hortelãs
terceiro
as inúmeras possiblidades...

Terra, planeta
oferece
para os que vão à lua um banquete
para os que ficam
as terráqueas novidades
para os indecisos

esperança
para os que esperam
socorro
para os infinitos seres
a perpétua maria.


Flausina Márcia nasceu em Cataguases, Minas
Gerais, em 1947. Formada em Economia pela Universidade Católica de Minas Gerais. Já publicou Vaga-Lume, 2002 e Sua Casa minha Casa, 2003.