Elefante

O ar de tua carne, ar escuro
anoitece pedra e vento.
Corre o enorme dentro de teu corpo
o ar externo
de céus atropelados. O firmamento,
incêndio de pilastras,
não está fora – rui por dentro.
Reverbera no escudo o brilho baço
do túrgido aríete
com que distância e tempo enfureces.
Teu pisar macio, dançarino,
enobrece os ventos frios,
femininos.
A tua volta tudo canta.
Tudo desconhece.
 

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Frio

Pedra na fonte –
água que tudo esconde:
fronte

Névoa no rosto –
vazios de ouro:
frio
Esquece o esquecido –
amadurece o estio:
veste

 

Céu

Um céu, que não existe
ou talvez exista na França de Poussin
refratado nos interiores de Chardin
talvez em Turner
talvez em Guignard
certamente em Dante
ao chegar à praia do Purgatório
A felicidade que a luz traz
solta, nua neste céu
ou pensada
 

 

 

 

 

 

 

Guapuruvu

Linha oceânica da testa
repensar das ventanias
lenho sem sombra
funesto
pilar de toda a alegria
Horizonte que pulsa
vertigem
Serpente que retesa as manhãs
Razão inconclusa
tormento
adorno do Estige – manhã
 

Canto

Ária branca – aderência
em muro branco
neste dia tão solar –
dia dos mortos
dia do antes
É como se o olhar tornado
inumano
por força do branco
soasse
livre do longe e do perto
de si mesmo referto
na desmesura do ar
Longe ficaram as montanhas
Perto o lago não está

Planície

Uma girafa baba toda a lua
búfalos comem o horizonte
pássaros tombam sob a neve
da montanha perto longe
Binóculos para achar
o leão mais altivo
que inexiste na sombra baobá
Ouço dentro um brusco mar
arremeter rinoceronte 

"Elefante", Francisco Alvim

Companhia das Letras, São Paulo, 2000