Tanto
                     Que Crítica?
            Carlos Fernando  &  Frederico Barbosa
           
     
                                  “O homem que realmente sabe pode revelar tudo o
                                   que há a transmitir em pouquíssimas palavras.”
                                                                               Ezra Pound
     

            Nenhum traço parece marcar a fisionomia da vida cultural brasileira tão insistentemente quanto o
    personalismo. Discute-se, na política, “personalidade” e não ideologia, na arte, “motivações interiores” e
    não resultados: “ideologismo” e não literatura, “literatice” e não artes plásticas, operações plásticas e não
    música. Comportamento, ego e “fofoca esclarecida” imperam absolutos.
            Na eterna disputa entre artistas e críticos não se dá outra coisa. Generaliza-se a convicção de que toda
    apreciação de uma obra é guiada por motivos escusos, pessoais e mesquinhos. O crítico  seria
    necessariamente um artista frustrado buscando notoriedade e realização parasitária.  Por outro lado, os
    artistas são vistos como crianças voláteis, cheias de melindre, romanticamente iluminados, irracionais e
    irresponsáveis. Por mais caricatural que a visão possa parecer, é nesses termos que se têm exercido
    discussões sobre a validade da crítica. No campo da batalha pessoal, os tiros voam e não atingem qualquer
    alvo.
            Não parece haver resistência alguma à noção de que a crítica só tem razão de ser se proporcionar um
    juízo de valor sobre a conveniência ou relevância social da “postura” pessoal do artista, ou ainda sobre os
    efeitos de sua obra no comportamento e nos costumes. Artistas e público esperam do crítico endosso e
    encorajamento irrestritos ou veneno e escárnio. Permite-se que vista a toga de juiz do bem e do mal e
    aguarda-se a sentença sobre a validade do “conteúdo” da obra e o merecimento do artista. O que está em
    jogo é sempre a recompensa pessoal, o aval paternalista ao artista e, quem sabe, à sua obra, travestida de
    “mensagem”. A crítica dita positiva nunca é considerada frustrante mesmo que passe ao largo da análise. O
    elogio é satisfatório mesmo que nada entenda dos mecanismos geradores da obra, mesmo que apenas a
    enquadre e classifique segundo um padrão qualquer.
            No Brasil não há crítica de arte, só de artistas. Não há análise, desmontagem e apreciação reveladora
    de obras, só “sacação” de significados muitas vezes envolta na enganosa roupagem do exibicionismo
    enciclopédico, dos dados biográficos. A breve história do indivíduo é sempre posta acima da longa história
    da linguagem. Os soluços, acima das soluções.
            O chamado jornalismo cultural se resume a bulas ávidas de interpretação reducionista, conteudismo,
    “explicação”. Costuma-se dizer que o jornal não é lugar para discussões estéticas “mais elaboradas”, que
    nele não cabe apreciar obras de arte naquilo que têm de especificamente artístico, naquilo que distingue as
    opções criativas, na sua estrutura sintática. Esse seria um assunto por demais árido para o público geral.
    Algo como dizer que não cabe aos jornalistas esportivos analisar a tática de jogo de um time de futebol e
    seu desempenho numa partida, mas apenas diagnosticar a postura de cada jogador isolado, comentar seu
    carisma, sua “raça” , sua conduta moral. O jornalista teria, assim, sua incapacidade de avaliar estratégias
    escamoteada sob a alegação de poupar o público da aridez suposta.
            É curioso notar que, no que se refere à “interpretação” semântica, “sociológica”  ou “filosófica”, não
    há limites para o que é considerado cabível e interessante num jornal. Ou mesmo exeqüível. O cotidiano
    das redações, dos horários apertados, dos fechamentos de pauta não são desculpa para privilegiar enfoques
    deste tipo como sendo mais “viáveis” em termos práticos. Muitas vezes chegam a ser rebuscadíssimos. O
    trabalho maior que um crítico deve ter, para exercer o seu ofício, antecede suas tarefas diárias e deve
    conviver com elas. Chama-se estudo. Abrangente, que seja, mas sempre balizado pelo objetivo final do
    compromisso com o leitor e o artista, que devem esperar dele o comentário da maneira, do engenho, da
    criação, do mecanismo, e não aprovação e promoção.
            A humildade implícita no ato de instrumentalizar-se corretamente colocaria em proporções mais
    “saudáveis” a tendência crescente ao texto narcisista, pseudoliterário, crônica-trampolim, no qual a janela
    torna-se espelho e o comentarista, assunto. Do modo como tem ocorrido, o jornalismo cultural substitui a
    tarefa crítica da descoberta pela tentação frívola da invenção auto-indulgente, a demonstração pela
    persuasão.
            São inúmeros, é claro, os exemplos de críticos-artistas e não é necessário levantar a questão óbvia de
    que a boa crítica pode perfeitamente criar vida própria como obra extrafuncional, como queria Herbert
    Read ao idealizá-la inspirada pelos sussurros de uma “décima Musa”. Esta qualidade, no entanto, em
    nenhum caso bem sucedido obliterou ou tentou substituir sua função primordial de Crítica. Uma boa crítica
    pode até ser arte, assim como um artista pode até ser um bom crítico, mas nem um nem outro estão, a
    princípio, obrigados a cumprir tais metas.
            Se o artista é incapaz de falar sobre sua obra mas a executa de modo satisfatório, seu trabalho está
    feito. A escolha crítica que deu forma a sua obra já está feita. É papel de outros perceber sua maior ou
    menor importância como proposição de recursos de montagem e articulação, mostrando como e porque. É
    função do crítico localizar a obra no universo das idéias, detectar influências, filiações, estilo; apontar-lhe o
    que apresentar de redundância e inovação. Colocar-se na pele do autor e desvendar seu método. Só então
    poderá propor uma avaliação subsidiada e consciente, depois de fazer o teor da obra falar por si mesmo,
    mostrar a si mesmo.
            A arte do artista deve educar a crítica do crítico. A arte do crítico deve educar a crítica do artista.
    Cabe ao crítico revelar ao artista seu próprio modo de trabalho. Como disse Paul Valéry, “o objetivo da
    obra é surpreender o autor.” O espectador, enquanto isso, aprende, amadurece afinal.
            Minada por seu desvirtuamento e pelo descrédito, estará a crítica de arte fadada a desaparecer dos
    grandes jornais, limitando-se a aguardar o surgimento de revistas ditas “especializadas”, destinadas a um
    suposto público de “experts”?  A devastação a que está submetida a sociedade brasileira,
    “progressivamente” privada das condições mais básicas  impede que se espere do público o rompimento do
    círculo vicioso da miséria cultural. A demanda pela qualidade da arte e pelo acesso à informação nascerá da
    exposição a discussões relevantes. Extra-pessoais. Extra-mercadológicas.
            O grande público deve e pode perfeitamente tornar-se espectador ativo da busca por fatos culturais,
    se lhe for permitido enxergar as entranhas dos processos de produção artística. Se atraído para tal por uma
    crítica lúcida, translúcida, precisa, clara, criteriosa, demonstrativa.
            Pode-se ensinar qualquer coisa a qualquer pessoa. Contanto que se conheçam e se possam expor os
    princípios e as formas, que se saiba, realmente, aquilo de que se fala. E se queira abrir a discussão.
     
     
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