Tanto Nenhum traço parece
marcar a fisionomia da vida cultural brasileira tão insistentemente
quanto o
personalismo. Discute-se, na política, “personalidade” e não
ideologia, na arte, “motivações interiores” e
não resultados: “ideologismo” e não literatura, “literatice”
e não artes plásticas, operações plásticas
e não
música. Comportamento, ego e “fofoca esclarecida” imperam absolutos.
Na eterna disputa entre
artistas e críticos não se dá outra coisa. Generaliza-se
a convicção de que toda
apreciação de uma obra é guiada por motivos escusos,
pessoais e mesquinhos. O crítico seria
necessariamente um artista frustrado buscando notoriedade e realização
parasitária. Por outro lado, os
artistas são vistos como crianças voláteis, cheias
de melindre, romanticamente iluminados, irracionais e
irresponsáveis. Por mais caricatural que a visão possa
parecer, é nesses termos que se têm exercido
discussões sobre a validade da crítica. No campo da batalha
pessoal, os tiros voam e não atingem qualquer
alvo.
Não parece haver
resistência alguma à noção de que a crítica
só tem razão de ser se proporcionar um
juízo de valor sobre a conveniência ou relevância
social da “postura” pessoal do artista, ou ainda sobre os
efeitos de sua obra no comportamento e nos costumes. Artistas e público
esperam do crítico endosso e
encorajamento irrestritos ou veneno e escárnio. Permite-se que
vista a toga de juiz do bem e do mal e
aguarda-se a sentença sobre a validade do “conteúdo”
da obra e o merecimento do artista. O que está em
jogo é sempre a recompensa pessoal, o aval paternalista ao artista
e, quem sabe, à sua obra, travestida de
“mensagem”. A crítica dita positiva nunca é considerada
frustrante mesmo que passe ao largo da análise. O
elogio é satisfatório mesmo que nada entenda dos mecanismos
geradores da obra, mesmo que apenas a
enquadre e classifique segundo um padrão qualquer.
No Brasil não há
crítica de arte, só de artistas. Não há análise,
desmontagem e apreciação reveladora
de obras, só “sacação” de significados muitas
vezes envolta na enganosa roupagem do exibicionismo
enciclopédico, dos dados biográficos. A breve história
do indivíduo é sempre posta acima da longa história
da linguagem. Os soluços, acima das soluções.
O chamado jornalismo cultural
se resume a bulas ávidas de interpretação reducionista,
conteudismo,
“explicação”. Costuma-se dizer que o jornal não
é lugar para discussões estéticas “mais elaboradas”,
que
nele não cabe apreciar obras de arte naquilo que têm de
especificamente artístico, naquilo que distingue as
opções criativas, na sua estrutura sintática.
Esse seria um assunto por demais árido para o público geral.
Algo como dizer que não cabe aos jornalistas esportivos analisar
a tática de jogo de um time de futebol e
seu desempenho numa partida, mas apenas diagnosticar a postura de cada
jogador isolado, comentar seu
carisma, sua “raça” , sua conduta moral. O jornalista teria,
assim, sua incapacidade de avaliar estratégias
escamoteada sob a alegação de poupar o público
da aridez suposta.
É curioso notar que,
no que se refere à “interpretação” semântica,
“sociológica” ou “filosófica”, não
há limites para o que é considerado cabível e
interessante num jornal. Ou mesmo exeqüível. O cotidiano
das redações, dos horários apertados, dos fechamentos
de pauta não são desculpa para privilegiar enfoques
deste tipo como sendo mais “viáveis” em termos práticos.
Muitas vezes chegam a ser rebuscadíssimos. O
trabalho maior que um crítico deve ter, para exercer o seu ofício,
antecede suas tarefas diárias e deve
conviver com elas. Chama-se estudo. Abrangente, que seja, mas sempre
balizado pelo objetivo final do
compromisso com o leitor e o artista, que devem esperar dele o comentário
da maneira, do engenho, da
criação, do mecanismo, e não aprovação
e promoção.
A humildade implícita
no ato de instrumentalizar-se corretamente colocaria em proporções
mais
“saudáveis” a tendência crescente ao texto narcisista,
pseudoliterário, crônica-trampolim, no qual a janela
torna-se espelho e o comentarista, assunto. Do modo como tem ocorrido,
o jornalismo cultural substitui a
tarefa crítica da descoberta pela tentação frívola
da invenção auto-indulgente, a demonstração
pela
persuasão.
São inúmeros,
é claro, os exemplos de críticos-artistas e não é
necessário levantar a questão óbvia de
que a boa crítica pode perfeitamente criar vida própria
como obra extrafuncional, como queria Herbert
Read ao idealizá-la inspirada pelos sussurros de uma “décima
Musa”. Esta qualidade, no entanto, em
nenhum caso bem sucedido obliterou ou tentou substituir sua função
primordial de Crítica. Uma boa crítica
pode até ser arte, assim como um artista pode até ser
um bom crítico, mas nem um nem outro estão, a
princípio, obrigados a cumprir tais metas.
Se o artista é incapaz
de falar sobre sua obra mas a executa de modo satisfatório, seu
trabalho está
feito. A escolha crítica que deu forma a sua obra já
está feita. É papel de outros perceber sua maior ou
menor importância como proposição de recursos de
montagem e articulação, mostrando como e porque. É
função do crítico localizar a obra no universo
das idéias, detectar influências, filiações,
estilo; apontar-lhe o
que apresentar de redundância e inovação. Colocar-se
na pele do autor e desvendar seu método. Só então
poderá propor uma avaliação subsidiada e consciente,
depois de fazer o teor da obra falar por si mesmo,
mostrar a si mesmo.
A arte do artista deve educar
a crítica do crítico. A arte do crítico deve educar
a crítica do artista.
Cabe ao crítico revelar ao artista seu próprio modo de
trabalho. Como disse Paul Valéry, “o objetivo da
obra é surpreender o autor.” O espectador, enquanto isso, aprende,
amadurece afinal.
Minada por seu desvirtuamento
e pelo descrédito, estará a crítica de arte fadada
a desaparecer dos
grandes jornais, limitando-se a aguardar o surgimento de revistas ditas
“especializadas”, destinadas a um
suposto público de “experts”? A devastação
a que está submetida a sociedade brasileira,
“progressivamente” privada das condições mais básicas
impede que se espere do público o rompimento do
círculo vicioso da miséria cultural. A demanda pela qualidade
da arte e pelo acesso à informação nascerá
da
exposição a discussões relevantes. Extra-pessoais.
Extra-mercadológicas.
O grande público
deve e pode perfeitamente tornar-se espectador ativo da busca por fatos
culturais,
se lhe for permitido enxergar as entranhas dos processos de produção
artística. Se atraído para tal por uma
crítica lúcida, translúcida, precisa, clara, criteriosa,
demonstrativa.
Pode-se ensinar qualquer
coisa a qualquer pessoa. Contanto que se conheçam e se possam expor
os
princípios e as formas, que se saiba, realmente, aquilo de que
se fala. E se queira abrir a discussão.
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Barbosa