A casa dos budas ditosos
(Editora Objetiva, 163 páginas), de João Ubaldo Ribeiro,
está entre os livros mais vendidos dos últimos meses.
Talvez muitos o leiam por se tratar da suposta transcrição
do depoimento em fita de uma suposta senhora de 68 anos que conta, com
detalhes, sua vida sexual obsessiva, ilimitada, incestuosa, da qual tio,
irmão, professores, amigos e desconhecidos, homens e mulheres, padres,
freiras, jovens e velhos participaram. Uma orgia contínua, desenfreada,
inverossímil. São leitores interessados talvez em cenas picantes
e vocabulário obsceno. São leitores que (há gosto
para tudo) gostam de se chocar, como o próprio João Ubaldo:
“confesso que fico chocado com essa senhora provecta do livro”.
Talvez outros tantos o leiam por motivos mais elevados. Querem acompanhar
a trajetória de um autor que escreve bem — e de fato o livro também
está muito bem escrito. Trata-se de um livro pornográfico
no sentido mais puro da palavra. Escrito com classe. Com fundamento. Com
profissionalismo. Com até um certo desprazer, sinal de um objetivo
acima de qualquer suspeita: produzir uma obra que quer ser produzida e
utiliza o escriba como veículo de sua realização.
O livro pode chocar, sim, mas não tanto pela pornografia em
si, embora seja pesada. Um outro tipo de leitor ficará chocado com
a pornografia moralista da personagem. Uma revelação psicológica
muito sutil, que João Ubaldo Ribeiro faz nas entrelinhas, sem alarde,
e que retira a obra do catálogo do erotismo barato para incluí-la
no da filosofia.
O nosso hábito de sussurrar — “moralistas”, “dogmáticos”,
“intolerantes” — ao ouvir os que pregam contra determinados comportamentos
sexuais nos impede de ver o moralismo dos que fazem do sexo um deus a quem
devemos entregar e sacrificar tudo: tempo, dinheiro, consciência,
compromissos, tudo. A luxúria é, na verdade, extremamente
dogmática e intolerante. Os 10 mandamentos da luxúria se
resumem num só: gozai com o próximo, e com o próximo,
e com o próximo...
Ao longo do seu relato, a personagem vai como que enlouquecendo, e
teorizando, palestrando, pontificando, criando verdadeiros dogmas, agredindo
quem considera atrasado e ignorante. O atrasado e o ignorante merecem o
inferno da virtude, do tédio. Mas, enquanto houver leitura, a narradora-protagonista
ainda tentará convertê-los ao fundamentalismo sexual que a
obseda. A vida é sexo. O problema é sexo. A solução
é sexo. Mais ainda, ela deseja libertar as mulheres de um falso
e inibido feminismo, e excitá-las, e abrir-lhes o horizonte da absoluta
sexualidade: “quero [com esse texto] provocar muitas trepadas, quero que
maridos, namorados e pais assustados as proíbam de ler, quero que
haja gente com vergonha de ler em público ou mesmo pedir na livraria”.
Dessa personagem-autora com intenções tão nobres
só sabemos as iniciais, C.L.B., e que sempre teve dinheiro e que
tinha... pavor de ter filhos. Mais tarde descobriu ser estéril.
Ou será que a esterilidade, no seu caso, era uma doença provocada
pelo amor reprimido? De qualquer forma, sente-se superior a todos, física,
social e intelectualmente. E para provar que pornografia não é
sinônimo de baixaria cultural, cita, com evidente lascívia
literária, Shakespeare, Robert Graves, Freud, Lacan, Dante, Sartre.
Cita-os e os julga com uma sem-cerimônia total.
À medida que conta sua história, aperfeiçoa sua
filosofia, multiplica axiomas.
Um dos seus dogmas: “Todo homem é veado, em maior ou menor grau,
e toda mulher é lésbica, em maior ou menor grau.”
Um dos seus lamentos: “As pessoas envolvem o sexo em tanta merda —
mesquinharias, ciúmes, despeitos, inseguranças, disse-me-disse,
suspeitas, afirmações de ego, tanta, tanta merda...”
Um dos seus anátemas: “[Os] chamados héteros puros —
espécie esquisitíssima, quanto mais eu penso, mais eu acho
que não existem, são unicórnios.”
Uma de suas teorias arbitrárias: “Câncer é a doença
do reprimido, da libido encarcerada, da falsidade extrema em relação
à própria natureza.”
Uma de suas frases intolerantes: “Acho burro ou mentiroso quem se escandaliza
com eu ter comido meu irmão e meu tio, para não falar em
primos, cunhados e quejandos.”
A pornografia moralista quer punir a hipocrisia do passado, calcada
num puritanismo de fachada, mas sobretudo a hipocrisia do presente, camuflada
pela libertinagem de fachada. Uma de suas teses mais politicamente incorretas
é que não se deve usar camisinha: é anti-natural.
Como anti-naturais, em outro sentido, são a heterossexualidade e
a fidelidade conjugal. Na verdade, a pornografia moralista vê e procura
apenas o seu orgasmo (o que é totalmente lógico).
A redução epistemológica de tudo ao sexo chega,
enfim, à formulação perfeita: “a vida é foder,
em última análise”. O depoimento pornográfico evolui
para uma apologia e até para uma teologia sexual: “quem peca é
aquele que não faz o que foi criado para fazer”. Sim, a narradora
não pecou contra a luxúria. Encarnou a Luxúria. Cumpriu
sua missão.