Tanto salvador dali
     
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    A  PORNOGRAFIA
    MORALISTA
    Segundo João Ubaldo Ribeiro
    Gabriel Perissé
     
       
         
         A casa dos budas ditosos (Editora Objetiva, 163 páginas), de João Ubaldo Ribeiro, está entre os livros mais vendidos dos últimos meses.
      Talvez muitos o leiam por se tratar da suposta transcrição do depoimento em fita de uma suposta senhora de 68 anos que conta, com detalhes, sua vida sexual obsessiva, ilimitada, incestuosa, da qual tio, irmão, professores, amigos e desconhecidos, homens e mulheres, padres, freiras, jovens e velhos participaram. Uma orgia contínua, desenfreada, inverossímil. São leitores interessados talvez em cenas picantes e vocabulário obsceno. São leitores que (há gosto para tudo) gostam de se chocar, como o próprio João Ubaldo: “confesso que fico chocado com essa senhora provecta do livro”.
      Talvez outros tantos o leiam por motivos mais elevados. Querem acompanhar a trajetória de um autor que escreve bem — e de fato o livro também está muito bem escrito. Trata-se de um livro pornográfico no sentido mais puro da palavra. Escrito com classe. Com fundamento. Com profissionalismo. Com até um certo desprazer, sinal de um objetivo acima de qualquer suspeita: produzir uma obra que quer ser produzida e utiliza o escriba como veículo de sua realização.
      O livro pode chocar, sim, mas não tanto pela pornografia em si, embora seja pesada. Um outro tipo de leitor ficará chocado com a pornografia moralista da personagem. Uma revelação psicológica muito sutil, que João Ubaldo Ribeiro faz nas entrelinhas, sem alarde, e que retira a obra do catálogo do erotismo barato para incluí-la no da filosofia.
      O nosso hábito de sussurrar — “moralistas”, “dogmáticos”, “intolerantes” — ao ouvir os que pregam contra determinados comportamentos sexuais nos impede de ver o moralismo dos que fazem do sexo um deus a quem devemos entregar e sacrificar tudo: tempo, dinheiro, consciência, compromissos, tudo. A luxúria é, na verdade, extremamente dogmática e intolerante. Os 10 mandamentos da luxúria se resumem num só: gozai com o próximo, e com o próximo, e com o próximo...
      Ao longo do seu relato, a personagem vai como que enlouquecendo, e teorizando, palestrando, pontificando, criando verdadeiros dogmas, agredindo quem considera atrasado e ignorante. O atrasado e o ignorante merecem o inferno da virtude, do tédio. Mas, enquanto houver leitura, a narradora-protagonista ainda tentará convertê-los ao fundamentalismo sexual que a obseda. A vida é sexo. O problema é sexo. A solução é sexo. Mais ainda, ela deseja libertar as mulheres de um falso e inibido feminismo, e excitá-las, e abrir-lhes o horizonte da absoluta sexualidade: “quero [com esse texto] provocar muitas trepadas, quero que maridos, namorados e pais assustados as proíbam de ler, quero que haja gente com vergonha de ler em público ou mesmo pedir na livraria”.
      Dessa personagem-autora com intenções tão nobres só sabemos as iniciais, C.L.B., e que sempre teve dinheiro e que tinha... pavor de ter filhos. Mais tarde descobriu ser estéril. Ou será que a esterilidade, no seu caso, era uma doença provocada pelo amor reprimido? De qualquer forma, sente-se superior a todos, física, social e intelectualmente. E para provar que pornografia não é sinônimo de baixaria cultural, cita, com evidente lascívia literária, Shakespeare, Robert Graves, Freud, Lacan, Dante, Sartre. Cita-os e os julga com uma sem-cerimônia total.
      À medida que conta sua história, aperfeiçoa sua filosofia, multiplica axiomas.
      Um dos seus dogmas: “Todo homem é veado, em maior ou menor grau, e toda mulher é lésbica, em maior ou menor grau.”
      Um dos seus lamentos: “As pessoas envolvem o sexo em tanta merda — mesquinharias, ciúmes, despeitos, inseguranças, disse-me-disse, suspeitas, afirmações de ego, tanta, tanta merda...”
      Um dos seus anátemas: “[Os] chamados héteros puros — espécie esquisitíssima, quanto mais eu penso, mais eu acho que não existem, são unicórnios.”
      Uma de suas teorias arbitrárias: “Câncer é a doença do reprimido, da libido encarcerada, da falsidade extrema em relação à própria natureza.”
      Uma de suas frases intolerantes: “Acho burro ou mentiroso quem se escandaliza com eu ter comido meu irmão e meu tio, para não falar em primos, cunhados e quejandos.”
      A pornografia moralista quer punir a hipocrisia do passado, calcada num puritanismo de fachada, mas sobretudo a hipocrisia do presente, camuflada pela libertinagem de fachada. Uma de suas teses mais politicamente incorretas é que não se deve usar camisinha: é anti-natural. Como anti-naturais, em outro sentido, são a heterossexualidade e a fidelidade conjugal. Na verdade, a pornografia moralista vê e procura apenas o seu orgasmo (o que é totalmente lógico).
      A redução epistemológica de tudo ao sexo chega, enfim, à formulação perfeita: “a vida é foder, em última análise”. O depoimento pornográfico evolui para uma apologia e até para uma teologia sexual: “quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer”. Sim, a narradora não pecou contra a luxúria. Encarnou a Luxúria. Cumpriu sua missão.
       

          Gabriel Perissé  ( perisse@uol.com.br )
          Mestre em Literatura Brasileira (USP)
          Criador da Escola de Escritores (www.escoladeescritores.org.br)
       

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