salvador dali  Tanto 

    Maximino 
    Maximino, óleo sobre madeira, 1989 

    O caçador de abstratos 
     (Versão Especial para internautas )

                      Geraldo 
                  Magela 
 
    Cotidianamente rezo um rosário de palavrões. ( Que vá à merda ). Cássia Eller 
    no digital. Diz a crítica: ( Cago. Ando. Cago ) ela está melhor. O telefone 
    mudo. A voz muda. Estamos todos meio afônicos. Síndrome de bossa nova. 
    Somos todos infelizes, disse Machado em suas memórias póstumas. Um grupo 
    inglês sombrio à luz do dia. Pós modernos nos postamos melancólicos. 
    Cotidianamente rezo um rosário de tesões. Sheilas quase nuas num out-door. 
    Estou sempre aflito. Me grito. Me calo. ( Falo ). Desesperado. Acho que vou 
    destruir algo. Talvez todos os meus escritos. Lírico abandonado. Romântico 
    desinspirado. A rima foi um simples acaso. Detesto rimas. Detesto vídeo 
    games. Detesto alguns sites na internet. Detesto tudo aquilo que não sei 
    manusear. Por isto este barco à deriva? Por isto esta raiva absurda? Somos 
    todos absurdos, disse Beckett antes de Malone morrer. Esperamos por Godot. 
    Mas quem aparece é Godard. Diz a crítica: ( Cago. Ando. Cago ) ele está pior. 
    Cotidianamente crio um rosário de caos. Objetos. Ereções. Angulações 
    concretas. Retas. David Byrne toca samba. As luzes da cidade me apavoram. 
    Prefiro a tranquilidade grotesca das trevas. O olhar opaco de um Borges. 
    João Cabral de Melo Neto levou para o escuro eterno a sua visão periférica. 
    Memórias do presente um minuto atrás. O passado um segundo à frente. 
    Um poema que parte o vidro. É disto que eu preciso. Não é nada disso. Parte- 
    se o tempo. Somos todos frios, diz um escritor eurocomunista em extinção. 
    Estamos fervendo. Ficando loucos. Globalizando-se. Estamos assim há vários 
    anos. Talvez seja este o nosso prazer. Buscamos a forma. Desistimos da fama. 
    O conteúdo, mesmo que seja em vão. Egos com creme de leite nacional. Os 
    homens se tornam cyborgs. Mas sempre terão alma. Ou então uma arma. Já 
    que tudo é tão concreto. Sempre. Tudo indica que continuaremos em fuga. 
    Blade Runner caça agora os abstratos. 

    poesia