Allen Ginsberg |
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Poeta maior da geração beat, militante pacifista, homossexual, personalidade marcante, capaz de desviar os caminhos da poesia americana do séc. XX. Um furacão poético, emblema de uma geração genuínamente revolucionária e iluminada. Tanto reproduz aqui trechos de UIVO e outros dois poemas. O polêmico livro publicado no final dos anos 50, chegou a ser proibido e rendeu um processo tanto ao editor como a Ginsberg. Quando liberado pela censura virou sucesso imediato, vendendo milhares de exemplares. Recentemente a L&PM lançou uma edição revista e ampliada de UIVO, Kaddish e Outros Poemas, com tradução, introdução e notas de Cláudio Willer, a quem agradecemos a gentileza de ter autorizado publicar parte da obra. L&PM (R. Padre Chagas,185/1102 - CEP 90570-080, P.Alegre -RS - 021-222-9664) |
para Carl Solomon Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, "hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis aparta- mentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos, que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra, que foram expulsos das universidades por serem loucos e publi- carem odes obscenas nas janelas do crânio, que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descasca- da em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas de papel, escutando o Terror através da parede, que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York, que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam tereben- tina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus tor- sos noite após noite com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e cara- lhos e intermináveis orgias, incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Pa- terson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário, solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos te- lhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de neon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vi- brações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklin, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente, que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zôo- lógico, que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford's, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fugazzi's escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio, que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklin, batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gra- dis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da lua, tagarelando, berrando, vomitando, sussurando fatos e lembran- ças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras, intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinago- ga jogada na rua, que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum dei- xando um rastro de cartões postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City, sofrendo amores orientais , pulverizações tangerianas nos ossos enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark, que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da estação fér- roviária perguntando-se onde ir e foram, sem deixar cora- ções partidos, que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô, que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas, que passaram solitários paelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários, que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase sobrenatural, que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impul- so da chuva de inverno na luz da rua da cidade pequena à meia-noite, que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram num navio para a África, que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra das suas calças rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas na lareira de chicago, que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis, que apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do capitalismo, que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Suare, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa da Staten Is- land, que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos, que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica, que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do telha- do sacudindo genitais e manuscritos, que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer, que enrabaram e foram enrabados por estes serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano, que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livre- mente seu sêmem para quem quisesse vir, que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acaba- ram choramingando atrás de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada, que perderam seus garotos amados para as tres megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios do tear do artesão, que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a paerede com uma visão da buceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência, que adoçaram trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguin- te mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago, que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N.C. herói secreto destes poemas , garanhão e Adonis de Denver - prazer ao lembrar de suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos baldios e pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas filei- ras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário á beira da estrada & especialmente secretos solip- sismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade natal também, que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e consegui- ram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Aveni- da & cambalearam até as agências de emprego, que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto por montões de neve, esperando que se abrisse uma porta no East River dando num quarto cheio de vapor e ópio, que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de aparta- mentos de Hudson à luz de holofote anti-aéreo da lua & suas cabeças receberão coroa de louro no esquecimento,(...) |
Canção
O peso do mundo
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na
imaginação
aflige-se
até
tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não
pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim
como o pensamento
é dado
na
solidão
em toda a excelência
do seu
excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz
até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que
nasci.
UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA
Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman,
enquanto caminhava pelas ruas sob as arvores, com dor de ca-
No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das ima-
gens, entrei no supermercado das frutas de néon sonhando com
Que pêssegos e que penumbras ! Famílias inteiras fazendo
suas compras a noite ! Corredores cheios de maridos ! Esposas
Eu o vi WW, s/ filhos, velho vagabundo soli-
tário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as
costeletas de porco ? Qual o preço das bananas ? Será você meu
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o
e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Aonde vamos, WW ? As portas fecharão em uma
hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite ?
( Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no super-
mercado e sinto-me absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas ? As ár-
vores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, fi-
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor,
passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário pro-
fessor de coragem, qual América era a sua quando Caronte
Allen Ginsberg, in Uivo, L&PM.1984,
UIVO
Kaddish e outros poemas
(1953 - 1960)
Tradução de Cláudio Willer
L&PM editores
poesia