O JANTAR
guiomar de grammont
Eu o matava em pensamento. Renovava aquela morte a cada
instante, com ódio, com toda intensidade que podia alcançar. Enterrava-o vivo. Seu
corpo, asfixiado. Cada poro de sua pele coberto de pó. Imaginava-o lutando,
esforçando-se para sorver uma côdea que fosse de ar. Eu, que em algum momento quis
morrer com ele, só porque o maior amor que conseguia imaginar era aquele que se entregava
à morte. Não. Ele não podia mais existir. Tinha que ser enquanto ainda o amava. Era
minha a culpa? Eu, que deixei meu mundo para segui-lo? O leite. O leite escorrendo no
asfalto. Eu o quis tanto! Queria retê-lo, possuí-lo, guardá-lo.
O filho que ele tanto quis, em meu ventre. Sua voz, seus gestos, seu olhar... Seu pênis
dentro de mim, me devorando e me enlouquecendo, multiplicando-se em vibrações na minha
pele. Fazer amor eternamente: Pura foda ensandecida. Imanência. Cheiro, som, tato. Deixar
de ser, deixar de existir. Me dissolver na escuridão da noite. A noite do meu corpo. Eu o
queria! Amava-o tanto que tinha parado de pensar: pensar doía.
(Olhei e vi, os dois juntos, do outro lado da rua. O pacote de leite escapou da minha
mão. Plaft! Arrebentou no chão. O susto maior do que eu. Leite escorrendo em minhas
pernas, em minhas mãos).
Preparei tudo. Tinha ainda a chave do barracão dele. Telefonei:
- Olha, desculpa. Tá tudo bem. Não quero mais te encher o saco. Vou te devolver a chave,
tá? Acabou. Eu sei. Entendi.
- Que bom te ouvir falar assim. Você parecia tão alterada! Fiquei preocupado. Não
queria te magoar, juro. Olha, eu tô cansado. Preciso dar um tempo, não quero mulheres na
minha vida agora, tenho que pensar um pouco.
Cachorro. Mentiroso. Filho da puta. A terra. A terra em cima dele. Caindo, caindo.
Escorrendo pelo buraco profundo. Ele levantava os braços para a superfície, pedia
socorro.
- É. Eu também. Quero dizer... também preciso dar um tempo. Acho que a gente foi meio
longe demais, né?
- É, mas valeu a pena. Foi divertido, não foi?
"Divertido?" Di-ver-ti-do? Toda a minha vida e foi "divertido"? Não.
Acho que a morte era pouco. Instrumentos de tortura desfilaram na minha cabeça.
Esquartejar. Arrancar os dedos, um a um. Talvez ele ficasse bem sem nariz. De repente,
pensando no nariz, entendi o que ia fazer.
- Puxa, foi mesmo. A gente se divertiu a valer. Pena que essas coisas duram pouco, mas é
assim mesmo, não é? Bom, que tal a gente se despedir como bons amigos? Na quinta eu
tenho um tempo à tarde: podia dar um pulo aí, se você não ligar.
- Ahnnn... Não, quinta eu não posso. Tenho que trabalhar.
Sei. Não pensei que agora isso chamava "trabalhar".
- Quarta tá bom pra você? É, taí. Pode ser.
Passei a semana toda pensando no cardápio: me decidi por lagostas. Lagostas seria
perfeito. Frutos do mar, uvas. Nereu e Dionísio, náiade e ninfa. Comprei o melhor vinho
que podia pagar. Cheguei bem mais cedo para preparar tudo. Um baque ao entrar de novo na
casa que, há algumas semanas, era nossa.
Ele também teve uma surpresa desagradável ao abrir a porta e encontrar, como antes, a
toalha de linho, os candelabros, enfim, a mesa sofisticada, destoando do aposento rude e
simples. Quando entramos na sala despojada pela primeira vez, depois de nos casarmos, ele
apertou meu braço, quase me machucando: "Não quero que você leve nada da sua casa.
Nada! O que eu não puder comprar não entra aqui." Na época, gostei. Achava que era
feliz, mas, com o tempo, vi que as paredes nuas me incomodavam. Um vazio. O vazio. Fechava
os olhos: os natais da minha infância. Velas, bolas coloridas, taças de cristal.
"Tantos presentes? É tudo pra mim?" Meu avô me rodava no ar.
- Pra quê tudo isso? Achei que você ia só deixar a chave.
- Não se preocupe. Não é nada do que você tá pensando. Só queria me despedir
direito, conservar boa a minha última lembrança. Afinal, nosso último encontro foi
terrível.
- Ah, bem. Então tá. Ele murmurou sem convicção e completou, um pouco embaraçado: -
Vou tomar um banho, tá? Tirar esse macacão.
Saiu do banheiro ainda mais inquieto. Contra seus hábitos, completamente vestido.
Sentou-se. Dei-lhe a garrafa de vinho. Abriu, sem dizer nada. Brindamos:
- Ao nosso passado!
Compartilhou a contra-gosto da minha euforia. Depois da primeira taça já estava
sorrindo. Falei do meu trabalho, disse coisas engraçadas sobre alguns amigos comuns,
fingi displicência ao imaginar como iriam receber nossa separação. Morria por dentro.
Contei meus planos para o futuro. Acreditei em minhas próprias mentiras. Já parecia
embriagada antes de começar a beber. Abri a segunda garrafa. Ele protestou, sem
convicção. Estava alegre e loquaz. Ah, como eu adorava aqueles olhos, aquela boca, as
mãos que me tomavam com tanta força!
Com o pretexto de que estava quente, tirei a blusa. Eu, que só fazia amor com as luzes
apagadas. Não tinha vergonha. Diante da morte, tudo é permitido. Toda liberdade. Toda.
Senti que seria capaz de sair nua pelas ruas naquela noite.
Ele susteve a respiração ao ver meus seios. Eram os seios de uma mulher que tinha tido
uma filha, que a amamentara por muito tempo. Naquele momento, compreendi que não eram
feios. Não eram os seios das revistas, eram os meus seios. Meio bêbada, rindo, encostei
o copo gelado nos seios, e deixei o vinho escorrer sobre eles.
O leite. O leite escorrendo nas minhas pernas.
Ele se levantou, cego de desejo. Tomou o copo da minha mão. Puxou meu cabelo, me
obrigando a deitar-me no chão. Ajoelhado sobre mim, derramou o vinho em meu colo, em meu
umbigo. Bebeu naquela taça minúscula e começou a lamber o resto, como se quisesse comer
minha pele. Puxou a saia com força, com calcinha e tudo. Nunca teve paciência. Não
tinha tempo, nem sensibilidade para isso.
Me penetrou com violência, como se nunca tivesse me visto, como uma curra. É isso que
você quer, não é? Eu sei! É isso que você quer! Eu gemia, ódio e prazer. Empurrei-o
e sentei-me sobre ele, nua. Cavalguei-o até a exaustão. Ele gozou, gemendo.
O leite. O leite escorrendo dos meus seios. Das minhas pernas. Eu: um reservatório de
leite e de porra.
Ficamos deitados no chão, um ao lado do outro. Ele abriu os olhos, me olhou, amortecido,
mas intrigado.
- Não preocupa. Tudo bem. É normal casais que separam transarem sem querer. Não quer
dizer que a gente vai ficar junto.
Grunhiu qualquer coisa. Estava bêbado e cansado. Costumava acordar muito cedo para ir ao
trabalho. Levantou cambaleando e se deitou na cama.
Passei muito tempo olhando-o. Decorei cada linha de seu corpo. Observei os pelos, um ou
outro sinal nas espáduas. Não sei quanto tempo fiquei ali, ouvindo a cadência regular
da respiração, um suspiro pelos lábios entreabertos. Ele parecia tão frágil, tão
humano!
Tive pena. Levantei-me para ir embora.
Não. Eu não queria ir embora. Queria fazer o que tinha planejado. Estava lúcida,
inexplicável e terrivelmente lúcida. Pensei comigo mesma: por que? Parecia tão estranho
agora! Como se estivesse me assistindo e, ao mesmo tempo, vivendo uma realidade tão
intensa que eu nem parecia estar lá: era puro ato. Todas as circunstâncias se
dissolviam: não conseguia me lembrar quem era, o que estava fazendo ali... só sabia o
que queria e devia fazer.
Tirei a pistola da bolsa: já tinha comprado com o silenciador. O vendedor não disse
nada. Apenas montou pra mim e me mostrou como usar. O dinheiro escorregou sobre a madeira,
a bala, na agulha. Aproximei-me dele. Armei-a bem próxima da sua testa. Esperava que ele
se mexesse ou acordasse. Fiquei assim longos minutos. Ele parecia à espera. Parecia
querer.
Não percebi quando apertei o gatilho. O sangue espirrou em meu rosto. Em minhas mãos. (O
leite. O leite escorria em minhas mãos). Seus braços e pernas se debateram um pouco. Um
boneco. Acabou. Só isso? Não era possível que fosse só isso. Não me arrependi. Não
tive vontade de fugir. Não senti nada. Sequer prazer.
Peguei a faca em cima da pia. A mancha na testa. Sabia que ele estava morto mas, ao mesmo
tempo, não sabia, não sentia. O pênis descansava em cima da perna. Peguei a faca e o
cortei. Era difícil: escorregava, a pele escapava. A faca parecia cega. O sangue corria,
grosso e negro. Consegui.
Preparei o prato no fogo. Uvas e castanhas ao redor. Não tinha muito bom aspecto, mas me
pareceu bem com as uvas. Queria mesmo jantar com ele
Então, fui lá fora, joguei os restos para os cães.
Apaguei a luz sem olhar o corpo e saí. Entrei no carro, acariciei minha barriga. Dei
partida. Sentia-me bela, plena, absoluta.
Alimentada.
Nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em outubro de
1963.
Diretora do Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade
Federal de Ouro Preto. Mestre em Filosofia pela UFMG,
É curadora do Fórum das Artes de Ouro Preto.
Ganhou o Prêmio Casa de las Amérias 1993 com o livro O Fruto
do Vosso Ventre. Premiada com a Bolsa Vitae, 1992.
Já publicou diversos livros, Fuga em Espelhos, Ed. Giordano,
São Paulo, 1991.
ggrammont@ouropreto.com.br
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