A sedução tornou-se minha maldição. Era aprisionada por esse poder, como
Cassandra não podia escapar a seu dom adivinhatório, o que a levou à desgraça. Eu era
uma espécie de Cassandra, o poder que possuia - que as mulheres invejavam e fascinava os
homens - me destruía, me afastava de toda a realidade. Buscava um métron, um
equilíbrio, mas era tarde demais. Era feita do excesso. Excesso em minhas formas, em meu
ser, em minhas virtudes e em meus defeitos. Com certeza, Deus estava drogado pelos
perfumes do paraíso quando me fez.
Envolvia-me em situações caóticas, engraçadas, que me
sugeriam eu era uma série de mulheres concentradas em um invólucro, um único corpo.
Quantos homens me quiseram! Antes, porque queriam a si mesmos. A história é antiga:
Helena era apenas o pretexto para que os heróis se disputassem em honra, força e
virtude.
A sedução era minha vingança. Eu cavalgava, orgulhosa amazona, conduzindo seus ginetes.
O problema é que cavalgava sem destino. Não é que não tenha podido optar, muitas
opções se apresentaram para mim, embora deva dizer que, nos dias de hoje, ainda é quase
impossível uma mulher escolher sua própria existência. Mesmo as revistas que se dizem
feministas nos ensinam sempre como nos adequar melhor aos modelos que se julga serem os
que os homens esperam de nós. Impressionante a quantidade de receitas para afastar o
envelhecimento, como se, para sermos amadas, não pudéssemos ser humanas. É irônico
que, talvez, as próprias mulheres ajudem a alimentar as imagens nas quais se aprisionam.
Meu triunfo como sedutora vinha da recusa desses modelos. Os homens inteligentes queriam
mais do que um autômato pasteurizado.
O primeiro caminho que me era oferecido era clássico: casar-me e ter filhos e
conformar-me a uma felicidade falsa, feita das migalhas da felicidade dos outros. Mas, eu,
escrava?! Não. Preferia antes escravizar do que ser escrava. Quando fraquejei, e o que
possuia foi excessivo para mim, pensei refugiar-me nesse caminho. O casamento uma armadura
que me protegeria de mim mesma. Mas eu seria capaz de suportar a paralisia sob o peso
dessa instituição de lata?
Descrente da hipótese de casar-me, cogitei internar-me em um convento e dedicar-me ao
conhecimento. Eu renunciaria a todos os prazeres terrenos, protegeria meu corpo jovem da
concupiscência até que ele se degradasse a ponto de perder todos os atributos que,
aparentemente, o tornavam desejável. A idéia era mais do que atraente: murar-me e
dedicar-me ao senhor. Ah, as delícias do conhecer! Eu seria uma nova Tereza d'Ávila,
abriria meu seio e meu espírito para o anjo que neles quisesse cravar a sua lança. Em
pouco tempo, porém, descobri não agüentaria. Não que não pudesse suportar a renúncia
às coisas terrenas. Não agüentaria justamente porque os conventos estão longe da
idéia de espiritualidade que eu buscava. Freiras são fêmeas ainda mais terríveis,
porque privadas dos prazeres do sexo e, com frequência, sem nada para ocupar o lugar
dessa falta. Eu seria trucidada, eu sei.
Farei uma concessão, uma auto-crítica: talvez eu não suportasse o convívio de outras
mulheres. Competitiva, eu? Não! Não sou. Falo sério. Pelo contrário, costumava
anular-me o tempo todo diante delas. Eu as temia. Reproduzia em todas as mulheres que
conhecia uma mãe terrível que se imprimiu na fragilidade da minha adolescência. Criava
mães em série, como uma máquina produz enlatados. Cresci angustiada pela idéia de que
era a causa da infelicidade sexual de minha mãe. Era eu o objeto do desejo... de meu pai?
Vivi minha adolescência torturada: exteriormente, porque minha mãe, por insegurança,
vingava-se em mim dos atributos que julgava não possuir. Interiormente, por minha
própria culpa em relação a ela. Por que nós, mulheres, estamos condenadas a esses
tristes jogos?
Quando fazia faculdade, trabalhei como "acompanhante de executivos". Usei o
dinheiro ganho na prostituição para fazer análise, o que colocava meu analista em um
curioso dilema: curar-me seria fazer-me abandonar minha rendosa profissão e deixá-lo?
Não importa, foi ali, na arena daquele consultório, onde eu era touro e toureira, que
percebi o quanto era narcísica. Ali aprendi a aceitar meus rituais de morte e sedução.
O que pode haver de mais narcísico do que a idéia de que era a causa da separação e do
ódio entre meus pais? Então eu tinha culpa do incesto! Um incesto que se processava nos
abismos mais recônditos da minha imaginação. Como são fáceis e confortadoras as
verdades descobertas em análise!
O desejo é uma fruta proibida. Só se pode desejar o que não se tem. Eu o quis. A meu
pai. Por ódio e por amor. Por vingança contra ele e contra todos os homens que
secularmente nos perseguiram e desejaram, como se quisessem de volta o que Deus lhes
roubara. Eu o quis e, de algum modo, o tive.
Estudei a sedução, decidida a fazer desse propósito a razão da minha existência.
Aprender a seduzir era esmerar-me em uma arte, exercitar-me horas para tocar um
instrumento com perfeição, embora o dom já tivesse nascido comigo. Li tudo o que se
escrevia sobre o assunto, de Kierkegaard a Laclos, de Sade a Bataille. Estudei, desde o
comportamento da serpente do paraíso, até a Madonna de nossos dias. Descobri que a
sedução mais prazerosa, é aquela que se exerce sobre um espírito livre, um homem
emancipado de mim, encantado pela alquimia das minhas poções, porém, não dissoluto em
sua vontade.
Maquiavel exortava o Príncipe a se adequar às representações de virtude do povo que
pretendia dominar. Eu me fantasiava para ser a representação ideal para as expectativas
dos homens. Aos poucos, percebia, aterrorizada, que eu não existia mais, não passava de
uma névoa. Essas artimanhas, contudo, não fui eu que as criei, são feitiçarias que as
mulheres passam milernamente umas para as outras. As não iniciadas, mesmo conhecendo o
potencial auto-destrutivo que esse poder oculta, dariam tudo para obtê-lo.
Deixemos a palavra a vocês, pobres homens, que há tantos séculos invejam nossa
fertilidade e nossa força. Nós não necessitamos de alarde. Desfiamos fórmulas
secretas, enigmas que, em outros tempos, nos levaram à fogueira.
Somos feitas do silêncio,
Guiomar de Grammont é
professora do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da
Universidade Federal de Ouro Preto. Já publicou Corpo e Sangue, 1991.
Em 1993 ganhou o Prêmio Casa de las Américas 1993, de Cuba com o livro
O Fruto do vosso ventre, editado em português e espanhol. Publicou ainda
o romance Fuga em Espelhos, 2001, produzido com a Bolsa Vitae e publicado
pela Editora Giordano, SP.
ggrammont@ouropreto.com.br
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