POEMAS DE HILDA HILST

 

 

      “ Se for possível, manda-me dizer:
      - É lua cheia. A casa está vazia –
      Manda-me dizer, e o paraíso
      Há de ficar mais perto, e mais recente
      Me há de parecer teu  rosto incerto.
      Manda-me buscar se tens o dia
      Tão longo como a noite. Se é verdade
      Que sem mim só vês monotonia.
      E se te lembras do brilho das marés
      De alguns peixes rosados
      Numas águas
      E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
      - é lua nova –
      e revestida de luz te volto a ver.”
         Hilda Hilst 


            Devo viver entre os homens
            Se sou mais pêlo, mais dor
            Menos garra e menos carne humana ?
            E não tendo armadura
            E tendo quase muito de cordeiro
            E quase nada da mão que empunha a faca
            Devo continuar a  caminhada ?

            Devo continuar a te dizer palavras
            Se a poesia apodrece
            Entre as ruínas da CASA que é a tua alma ?
            Ai, luz que permanece no meu corpo e cara:
            Como foi que desaprendi de ser humana?

              


     .I.
Vi as éguas da noite galopando entre as vinhas
E buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual à noite
E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

Vi-as sorvendo as uvas que pendiam
e os beiços eram negros e orvalhados
uníssonas, resfolegavam.

Vi as éguas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas
Laços de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um poço engolindo meu nome e retrato.

Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, a mim me vi.
 

.II.
Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível  ?

       

            E o que eu desejo é luz e imaterial.

            Que canto há de cantar o indefinível ?
            o toque sem tocar, o olhar sem ver
            A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis ?
            Como te amar, sem nunca merecer ?

            .III.
            Vem dos vales a voz. Do poço.
            Dos penhascos. Vem funda e fria.
            Amolecida e terna, anêmonas que vi:
            Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
            Vem revestida às vezes de asperezas.
            Vem com brilhos de dor e madrepérola.
            Mas ressoa cruel e abjeta
            Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
            Dos vínculos desfeitos, vem dos ressentimentos.
            E sibilante e lisa
            Se faz paixão, serpente e nos habita.

            .IV.

            Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta
            Se digo que me vi em outras vidas
            Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
            Dirás que sonho uma rainha persa
            Se digo que me vi dolente e inaudita
            Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas ?
            Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda VIDA.
            E se te digo que estavas ao meu lado
            E eloqüente e amante e de palavras ávido.
            Dirás que menti ? Mas não. Alguém gritava:
            Palavras ... apenas sons e areias. Acorda
            Acorda vida.
             

                 .V.
            Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
            Também eu em ti, feroz, encantoada
            Atravessei as cercaduras raras
            E  me fiz máscaras, mulher e conjetura.
            Águas que não bebi. Crepusculares. Cavas.
            Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
            Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
            Antiquíssima, nova. Como se fosses o tigre
            A beber daquelas águas.

            .VI.
            O que é a carne ? o que é este Isso
            que recobre o osso
            este novelo liso e convulso
            esta desordem de prazer e atrito
            este caos de dor sobre o pastoso.
            A carne. Não sei este Isso.
            O que é o osso ? Este  viço luzente
            Desejoso de envoltório e terra.
            Luzidio rosto.
            Ossos. Carne. Dois Issos sem nome.

            .VII.

            Dunas e cabras. E minha alma voltada
            Para o fosco profundo da Tua cara
            Passeio meu caminho de pedra, leite e pêlo.
            Sou isto: um alguém-nada que te busca.
            Um casco. Um cheiro. Esvazia-me de perguntas.
            De roteiro. Que eu apenas suba.

            .VIII.

            costuro o infinito sobre o peito
            e no entanto sou água fugidia e amarga
            e sou crível e antiga como aquilo que vês:
            pedras, frontões no Todo inamovível.
            Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
            Recente, inumana, inexprimível.
            Costuro o infinito sobre o peito.
            Como aqueles que amam.
             

            .IX.

            Penso linhos e ungüentos
            Para o coração machucado de Tempo.
            Penso bilhas e pátios
            Pela comoção de contemplá-los
            ( e de te ver ali
            à luz da geometria de teus atos.)
            Penso-te
            Pensando-me em agonia. E não estou.
            Estou apenas densa.
            Recolhendo aroma, passo
            O refulgente de ti que me restou.

           .X.

          Que te demores, que me persigas
          Como alguns perseguem as tulipas
          Para prover o esquecimento de si.

          Que te demores
          Cobrindo-me de sumos e tintas
          Na minha noite de fomes
          Reflete-me. Sou teu destino e  poente.
          Dorme.

     

    Autora de 41 livros, entre eles "O Caderno Rosa de Lori Lamby",
    com teor pornográfico, Hilda Hilst nasceu em Jaú, no interior de São Paulo,
    mas morava na Casa do Sol, chácara próxima a Campinas.
    Formada em direito pela Faculdade São Francisco, da USP,
    Hilda escreveu aos 20 anos seu primeiro livro de poesias, "Presságio".
    Em 1997, sua última obra, "Estar sendo Ter sido", foi publicada.
    A escritora, que teve textos traduzidos para o francês, o inglês, o italiano e
    o alemão, recebeu importante prêmios, com o de melhor livro do ano, c
    oncedido pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), por
    "Ficções" (1977), e o Jabuti, em 1984, por "Cantares de perda e
    predileção" (1983), e em 1993 por "A obscena senhora D. Qadós" (1993).
    Faleceu em 2004, aos 73 anos.

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Hilda Hilst