Faz duas horas que ela desapareceu dentro do
quarto.
Mais um pouco ela sai e procura o que fazer. Vai passar
pela porta sem dizer palavra, sem olhar. Irá me ignorar como se
eu não estivesse ali. Começará a cozinhar qualquer comida.
Jogará alguma coisa no lixo. Olhará pela janela
a chuva, o
frio.
Não sairei do escritório e nem terei com ela, quando ela
deixar o quarto. Com certeza, continuarei no quarto a escrever
tolices.
Meus dedos baterão forte no teclado. O café tão cheio de açúcar
será limonada. Ouvirei suas pisadas em direção à cozinha.
Logo a cebola, o alho. Tentarei me levantar e fincarei,
novamente, as nádegas na cadeira e fecharei a possível
matraca.
Ela estará tomando o suco de maracujá, vestida no robe
que eu
lhe dei no nosso aniversário. Os olhos vermelhos como os de
coelhinho da páscoa. Os pés descalços no
azulejo frio.
Mais um cigarro não me fará tão mal. Depois, sairei com
um
poema feito, do escritório, e cruzarei com ela pelo
corredor.
Ela voltará ao quarto quando sentir a minha presença. Eu
abrirei a geladeira, acharei o suco de
maracujá uma tolice
maior. Tomarei o de uva,
industrializado, e voltarei para a
minha dor.
No quarto, ela cruzará as pernas e baterá com as mãos na
cama
por três vezes e mais duas desritmadas. Eu porei as
mãos em
minha nuca, a procura de alguma palavra.
Ela retirará o robe e
dormirá nua. Eu terei uma insônia na frente da tela,
desesperado.
Nos encontraremos no café como nada acontecido.
Eu darei bom
dia e ela me retribuirá. Nos lembraremos do
tempo de nossa
separação, quando ainda dialogávamos e
não nos entendíamos.
Nos sentiremos tão felizes por
sempre irmos um para cada lado
– nem nos
questionaremos se algo precisaria ser dito.
Estranho
O estranho
é que ela
possui muro
de solidão.
É muro cinza,
em avenida larga,
repleta de carros.
Ao lado dele,
bocado de lixo.
Do outro lado do muro,
pequeno matagal,
restos de papelão.
Existe,
no muro dela,
portão de aço
carcomido pela miséria
do tempo.
O terreno,
do outro lado do muro,
às vezes serve
para delinqüentes
dividirem o produto
do roubo.
Ela está
à procura
de companhia.
I valdo Ribeiro Filho. Nascido em 1974.Publicou: O chão
visitado ((2003), No intuito de nenhuma via (2005), Cruviana
(2005), Quebranto (2007), todos de poesia, que foram
reunidos em Poesia até agora (2007). Possui poemas,
contos e artigos publicados nos seguintes periódicos: Cronópios
(SP), Vagalume (PR), Jornal de Poesia (CE), Correio das artes
(PB), Tribuna do sol (PI), Et Cetera (PR), Gazua (CE), Arraia
(CE), Corsário (CE), Caos Portátil (CE)entre outros.
Participou da Bienal Internacional do Livro do Ceará de 2006. Divide
o tempo entre Teresina e Fortaleza. ivaldoribeirofilho@gmail.com
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