PLÍNIO MARQUES
      MORRE O INIMIGO NÚMERO
      UM DA MEDIOCRIDADE!!!!!!
       
                    Jair Alves
      Não pretendia escrever nada sobre o desaparecimento de Plínio Marcos, ocorrido ontem. Não pretendia me especializar em redigir notas sobre aqueles que nos deixam. Melhor seria que os amigos e irmãos nunca nos deixassem. Quem sabe a melhor forma de homenagear a partida de um amigo é perguntar "quer que eu vá com você? Tenho certeza que no caso do Plínio, ele devolveria com outra carinhosa grossura: 'Vai se f.....', ou coisa parecida. Ele era assim mesmo, não brincava em serviço, com as coisas sérias. Jamais aceitou uma bajulação, tinha consciência de sua força e estimulava os fracos a se defender".
      O projeto era não escrever nada, era ficar triste o quanto tempo permitia, chorar bastante o quanto o tempo permitia. Porém, essa madrugada, o serviço de notícias da Revista Época me envia, pela Internet, uma nota que, entre outras incorreções diz: "trabalhou como ator na novela Beto Rockfeller. Nos seus últimos anos de vida, sem dinheiro, chegou a vender livros nos bares de São Paulo".
      Quanta contradição encerra essa nota. Meu Deus! Com propriedade, poderíamos reproduzir a expressão de Caetano Veloso, em 68, no conturbado show do Tuca. "Vocês não entenderam nada!!!!!!".

      1- Plínio Marcos fez da venda de seus livros uma opção de vida, foi o preço que pagou por dizer não. Fazia isso desde os tempos em que deixou de escrever para o jornal Ultima Hora, em São Paulo, desde os tempos brabos da ditadura militar;

      2- Com esse expediente ele conseguiu ajudar Walderez de Barros, sua primeira mulher, a criar seus 3 filhos. Inúmeras vezes Plínio voltava de um evento, que nem sempre era convidado, e, religiosamente, repartia com a ex-companheira o resultado de seu trabalho. Fazia de qualquer aglomerado a possibilidade de vender o produto de seu trabalho, seus escritos, em forma de livro. Fazia isso com muita dignidade e convicção. Livros esses que qualquer cidadão que por curiosidade, solidariedade ou mesmo apreço comprou, ao longo de todos esses anos;

      3- Plínio nunca deixou de lutar. Aliás, sua missão era ensinar os oprimidos mercadoria sua arte e sua insatisfação e repúdio a esse mundo sem esperança;

      4- Essa nota publicada na revista citada, poderia sair, se não saiu, com o mesmo tom, em qualquer veículo de informação, porque é muito difícil para a grande imprensa, que nunca engoliu o seu gênio, perceber o alcance do seu gesto em vida. A venda de bar em bar, na expressão preconceituosa do redator da nota, nada mais era do que um gesto de sobrevivência que se multiplicou em toda sociedade brasileira, de uns anos para cá, para ser mais preciso a partir de 1985. Hoje, médicos, engenheiros, advogados, psicólogos e dentistas usam do mesmo expediente para sobreviver, procuram vender alguma coisa, na porta de um colégio qualquer, de um estádio de futebol qualquer ou nas calçadas do centro da cidade;

      5- Não era fácil ser amigo de Plínio, era uma pessoa geniosa, para agüentar o tranco era preciso amá-lo, com o mesmo amor pela humanidade que ele pregou visceralmente na sua obra e ao longo de sua vida;

      6- Plínio era insuportavelmente cristão, solidário e radical, essa mesma radicalidade que nos vai fazer falta para enfrentar o que está por vir;

      Jair Alves, dramaturgo, coordenador em São Paulo do LORCA, Centro de Estudos Avançados
      em Comunicaçã e Arte.

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