De tempos em tempos festeja-se a edição de uma nova
antologia no cenário poético brasileiro. Nada acontece depois. Passadas a tempestade de
entrevistas e a chuva ácida da crítica, tudo volta à mesma calmaria. Cada poeta
cuidando de seu próprio jardim de letras e arrelias. Sobretudo, nos invisíveis e
traiçoeiros mares de Minas.
Além disso, só algumas farpas de ciúme e inveja. Coisas de província, mal resolvidas.
Mal faladas e mal ouvidas. Dessas que ficam engasgadas na garganta feito mais que espinho
de peixe. Nem pão seco tira. Nem o deixa disso dos amigos e inimigos comuns. Pior,
aumenta mais ainda a rixa, a raiva, a rusga, a ranhetice mineira. Doença de quem pensa
ser, por razões de sangue, por pura heresia o centro das atenções. Os donos, mandarins
das letras, mandatários da matriz da fala. Da escrita de Minas. Talvez porque guardaram,
em cofres de família, jóias roubadas, herdadas, amareladas escrituras de velhos e podres
latifúndios. Guardam, ainda hoje, as chaves publicas das repartições de favores.
Sigilos insuspeitos, assombrações e Silvérios habitam casas; essas mentes antigas.
Apesar da restauração e do verniz moderníssimos. Solidariedade não são coisas para
mineiros, dizem, pelo menos quando se trata de literatura. Só no câncer. Cada facção
disputa uma fatia do dicionário. Estabelece rígidas fronteiras como se fronteiras
existissem entre estes e aqueles. Entre outros e os mesmos. Parece que ainda
acreditam em elites e vanguardas. À falta de outras formas, lutam pelo poder
literário.Tudo em nome do cânone. Não sabem que "poder literário é poder mais
ordinário". Esquecem-se de que, de fato, nenhum poeta quer ser proletário.
Quanto à crítica, esta ressurge, vez ou outra, quando bem lhe apetece o estômago ou lhe
interessa a causa. Lê de orelhas o livro, pulam-se páginas. Seleciona o que entende.
Finge de desentendido sobre a outra parte. Consulta companheiros de bar. Sentam-se sobre o
próprio rabo e mete a boca no trombone, sobre a feiúra do rabo alheio. Merece crédito
não. Claro, exceções sempre existem.
Muito se fica sabendo do idealizador do arrojado projeto. De suas estratégias de
editorias.
De como distribuiu, pelo território da escrita, as cotas, os marcos, os sinais do clã,
as cicatrizes da tribo, os ainda sonhos e mazelas de toda a raça.
De seus fundamentos e racionalizações e como tal, lógicas se mostram coerentes,
tendenciosamente bem arquitetadas. De seu esforço e desprendimento. De seu talento para
identificar e descobrir novos. Ninguém pergunta sobre a distribuição, sobre o interesse
do público. Sobre a forma de divulgação. Sobre o que acontece com os encalhes.
Nem é necessário. Poesia não é produto à venda, dizem. Não serve para nada, repetem.
Não paga o aluguel, a conta do celular, nem o leite das crianças. Inutilidades, eis o
que caracteriza a verdadeira, a autêntica obra poética. Não é bem de consumo. Não se
vende de a crediário. Só se dá a quem pede, a quem realmente dela necessita. Pão para
o corpo, alimento para espíritos mais altos. Privilegiados e sensíveis.
Assim como um copo de água fria, após longo percurso a pé, por caminhos desconhecidos.
Dos poetas, que só de nome se conhecem e mal se cumprimentam, pouco ou quase nada se
sabe. A antologia, de repente se transforma em lugar de encontro, um não lugar para
poetas sem. Um pós-lugar de tudo Poetas sem origem nem linhagem definida. Reunidos.
Ajuntados. Literariamente a sós. Lado a lado , só o poema voa. Sem pai. Sem destino. Sem
rosto.
Se o editor fatura alguma grana, não interessa. Justo seria que faturasse. Ele e seus
furtivos escrevinhadores diversos. Livres. Sem rimas. Concretos no que vivem e no que
desfazem. No que de original articulam deste acervo irregular que é a literatura.
Atualmente, mais para se ver e descobrir, do que para se comprar e se ler nas bancas e
livrarias. Nas bibliotecas, nem pensar. Vê lá se biblioteca, seja de Universidade ou de
escolas de ensino médio - é lugar para livros de poetas vivos. Desses que andam e falam
pelas ruas da cidade. Que bebem cerveja e outros ingredientes mais fortes. Que perambulam
pelos becos, pelas favelas, pelos corredores da universidade, atentos à crise da
Argentina, à crise da política brasileira, ao movimento sucessório nacional.
O certo é que os poetas nada faturam. Uma noite de glória no cada vez mais
reduzidíssimo círculo de amigos e iniciados. Uma nota nos jornais mais lidos da capital.
Algumas notas suplementares.Talvez. alguns e-mails . E precisa mais? O que poderia um
poeta desejar além disso. Ser reconhecido pela como benfeitor da sociedade? Ser aplaudido
como um atleta? Ser admirado como uma top-model? Ser famoso como um traficante? Espaço
nas faculdades de Letras? Isto já é querer demais. Professores e alunos, de todos os
níveis e idades, estão preocupados mesmo é com os poetas mortos morto para eles
intelectuais ingratos devoradores de signos, dissecadores de cadáveres.Por mim,
sinto-me bem onde estou. Dentro e/ou fora das antologias. Desta ou daquela. Longe dos
grupos, das gretas, dos guetos, das guerras, das grutas minerais. Se estou, não reclamo.
Faço tudo, desde que comecei a literaturar desaforos, por volta dos 12 e 14 anos de
idade. Lida diária. Se mereço, não sou eu que devo dizer.No mínimo, o editor. É por
isto que prefiro ficar quieto. Saborear poemas em silêncio de quase vertigem como quem
mastiga pedras, saboreia frutas silvestres. Doce de leite ou cachaça. Prefiro adivinhar,
desde de antes dos gregos, o sem sentido do mundo. Procurar. Reviver, de perto, pássaros
e pessoas, antidiluvianos. Ficar onde nunca estou. Entre anônimo e anômalo, desfrutar o
tempo, como queria Drummond, tal qual se oferece. Viver o desfuturo, o lado excuso do
poema. Do planeta. Sua escassa solidez. De passagem. E porque não?Afinal, em país que
pouco se lê - e leitura é passar os olhos sobre - e menos ainda se quer ver, a vinda à
luz de um livro de poemas é realmente coisa para se festejar. Ainda que seja uma
antologia, uma babel, labirinto de espelhos e espantalhos. Literatura à parte, vale mais
a vida, a busca de leitores livres para a grande aventura de escalar, perder-se em letras
e ruas de palavras a cidade branca, à espera da poesia, o não lugar dos poetas, as
antologias.
Jornalista, poeta e coordenador do curso de jornalismo
da Puc-Minas
em Arcos, Minas Gerais.
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