Isso
todos sabemos. O mundo contemporâneo está sendo marcado cada vez mais pela velocidade e
pela violência. O que não se pode aceitar é que a violência se torne rotineira e passe
a habitar nosso cotidiano sem nos causar espanto ou protesto. Desde a mais sutil,
subliminarmente praticada pela mídia, até a mais ostensiva mostrada por esta mesma
mídia, nos casos da guerra, do terrorismo, corrupção, da prostituição infantil, do
trabalho escravo e do seqüestro, para se citar apenas algumas das inumeráveis formas de
violência que tecem e assaltam o cotidiano do povo brasileiro.
A violência do trânsito assume, neste contexto, proporções alarmantes, embora os fatos
surgiram que tanto as autoridades quanto a população já se acostumou com os trágicos
números exibidos pelas estatísticas. A pressa, individualismo e o medo tem tornado as
pessoas cada vez mais indiferentes e omissas. Falta educação, informação e
consciência social, sem o que não se pode falar em cidadania e solidariedade. Isto sem
falar na falta de moradia, de empregos e de justiça, uma vez que a impunidade, de alto a
baixo, na escala social, parece ser o tom dominante.
Mas a porca torce o rabo e o problema muda de enfoque quando a violência bate na nossa
cara. De frente. Quando a mancha de sangue do asfalto marca para sempre nossos olhos,
molha nosso espírito e tinge de vermelho a vergonha nacional.
Foi exatamente isto o que aconteceu, ontem, em plena manhã de sol de uma quinta-feira,
quando um caminhão, desses que circulam carregados com as riquezas do país, bateu de
frente com um motociclista que vinha na contra-mão da vida e da esperança.
O acidente em si não causou estardalhaços na imprensa, preocupada, quase sempre, em
conseguir audiência, veiculando grandes espetáculos, os grandes escândalos. Este, do
qual estou tentando falar aqui, é de pequena monta, coisa insignificante. Não mereceria
sequer uma nota. Permaneceria no anonimato se cronista não estivesse passado no local
poucos minutos depois do fato acontecer. Foi por mera coincidência que estas linhas
puderam ser escritas. Infelizmente.
O motorista, um senhor de aproximadamente 50 anos de idade, estava assustado. Falava de
seu emprego, de sua família e de seu medo do mal humor e severidade de seu patrão.
As marcas de sangue no asfalto sem acostamento testemunhavam sua inocência. O capim
amassado mostrava que o motorista do caminhão ainda tentou se desviar do veículo que
vinha em sua direção em alta velocidade. Isto se pode deduzir pela forma como os
pedaços da moto, o espelho, as rodas, da mesma forma que os tênis, o capacete e outros
pertences do morto se espalharam de maneira caótica pela estrada escura e sinistra.
O corpo era frágil. Rosto miúdo. Semblante jovem e sem raiva. Podia-se ver o resto de
vida se esvaindo em seus lábios vermelhos, da cor de carmim, da mesma cor do sangue no
asfalto, sob o sol quente das 11 horas.
Duas mulheres, uma negra e uma branca, esta última com um menino, de aproximadamente um
ano, nos braços, assistiram a tudo. O menino chorava. Elas estavam esperando uma carona e
viram quando o motoqueiro passou por elas, cruzou a faixa amarela, entrou na contra-mão.
Seu corpo espatifou-se como a ferragem da motocicleta.
Íamos na direção de Campo Belo, num trecho entre as cidades de Formiga e Candeias, e
paramos para socorrer as vítimas. Enquanto avisávamos a polícia rodoviária,
comunicávamos à imprensa, odiamos observar o comportamento das pessoas que por ali
circulavam. Muitos motoristas passaram direto, indiferentes ao que estava acontecendo. Só
Deus poderá saber porque tanta pressa. Passavam em alta velocidade quase atropelando quem
estava na pista, como se fugissem de alguma coisa. De si mesmo, talvez. De seus destinos
de brasileiros afobados diante de tanta grosseria e barbárie.
Os que paravam por solidariedade ou por mera curiosidade, arriscavam palpites. Aventuravam
juízos irresponsáveis e nervosos sobre o fato.
- Ele era muito jovem.
- Os meninos de hoje não tem juízo na cabeça.
- Acho que conheço ele, se for o rapaz que estou pensando, brigou com a namorada ontem e
queria se matar. Ele era muito doido.
- Se quisesse acabar com a vida, pelo menos fizesse de modo a não colocar o motorista do
caminhão em dificuldades.
-Pelo jeito do acidente parece que o moço aí queria mesmo era morrer.
- A vida é assim mesmo, não vale nada, acaba a qualquer instante.De qualquer maneira.
Outros aproveitavam a ocasião e desabafavam: tudo isto é culpa do governo, das
autoridades que não estão nem aí para a população, para a vida das pessoas.
Houve quem reclamasse do estado de conservação das estradas, do custo de vida, da
programação das TVs e coisas assim.
As duas mulheres pegaram carona com um caminhoneiro e seguiram seu destino. Iam para
Arcos, segundo disseram, escondidas de seus maridos, visitar um parente seu. Um irmão, se
bem me lembro. Deixaram nome e telefone, caso precisassem testemunhar para "ajudar o
motorista, coitado", se verdadeiros , quem poderá saber
A Polícia Rodoviária demorou chegar. Até o momento em que permanecemos no local do
acidente, a imprensa não havia dado os ares da graça. O número de curiosos aumentava e,
como é natural nestas situações, as especulações e piadas de mau gosto. O motorista
do caminhão andava de um lado para outro sem saber ao certo o que fazer.
O corpo permanecia coberto de jornal, enquanto a polícia fazia o seu trabalho de rotina.
Deixamos o local do acidente, calados, o motorista do táxi e uma colega de trabalho e eu.
Não havia o que dizer ante tanta brutalidade.
Mais uma vez o beijo da morte marca com sangue o asfalto.
*Jornalista e
escritor e coordenador do Curso de Jornalismo da PUC Minas Arcos
jevare@arcosnet.com.br
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