Foi o
poeta-crítico Mário Faustino quem chamou a atenção, no início dos anos 60, para os
dois sentidos da palavra tradição: um que se cristaliza no repisar dos
mesmos passos, não respira, cheira a mofo, e por isso pode ser deixado de lado; e o
outro, construído solidamente e voltado para o futuro, serve de base para o presente e
para as inovações e deve ser retomado sempre. Este último deu origem a expressões como
a tradição luciânica.
Esta denominação refere-se a Luciano de Samósata, um autor quase desconhecido que,
nascido na Síria, viveu na Grécia sob o domínio romano no século II da era cristã.
Como acentua o professor Jacyntho Lins Brandão em entrevista recente ao SLMG-Suplemento
Literário de Minas Gerais: "de um lado, ele é súdito de Roma; de outro, educou-se
como grego; de origem, é bárbaro (sua língua materna deve ter sido mesmo o aramaico).
Um colonizado como nós, até porque adota como sua a cultura do outro e assume sua
condição de alteridade".
Tradição luciânica seria praticamente o conjunto das marcas deixadas pela leitura de
seus textos nos livros de autores significativos da literatura ocidental. E esses
escritores, que adotaram o riso, a crítica, a carnavalização na literatura, armas
contra a dominação e o sentimentalismo fácil trazem esse fio luciânico até a
modernidade.
Muitos escritores sofreram essa influência como Erasmo de Roterdã, Dostoievski, Swift,
e, no Brasil, temos um romancista que vem sendo estudado sob essa ótica, e hoje
considerado um dos maiores do mundo. É Machado de Assis.
Por tudo isso, e principalmente pelo pouco conhecimento que se tem da matéria, que
recomendamos a leitura de A poética do hipocentauro, de Jacyntho Lins Brandão,
Editora UFMG. O professor trata da literatura, sociedade e discurso ficcional em Luciano
de Samósata a partir dos textos originais do autor, em alentado volume de quase 400
páginas.
Joaquim Branco escritor, professor de Literatura na Faculdade de
Letras de Cataguases e Mestrando em Literatura Brasileira no CES-Juiz de Fora.