Desembarque de Cabral - Oscar Pereira da Silva - Museu Paulista
Carta aberta aos
Jorge Fernando dos Santos*
Exmos. nobres
patrícios de além mar e de Além-Tejo,
por conseqüência,
descobridorese primeiros colonizadores da terra que hoje chamamos Brasil:
No momento em que vos escrevo a presente missiva, as terras
descobertas por Dom
Pedro Álvares Cabral durante o reinado de Dom Manuel I, e inicialmente
batizadas com
o nome de Ilha de Vera Cruz, ainda mantêm
aspectos que lembram muito a paisagem
descrita na carta histórica de Dom Pero Vaz
de Caminhas, relator da esquadra que
aportou em Porto Seguro, no dia 22 de abril de 1500, ano da
graça de Nosso Senhor
Jesus Cristo.
A começar pela prodigalidade da natureza, a chamada
Terra Brasilis continua quase a
mesma Trata-se de uma terra fértil e
verdejante e tudo que nela se planta cresce e
floresce. Só que agora ela pertence a poucos que pouco
plantam por preguiça ou por
falta de incentivos por parte do governo. Enquanto isso, outros tantos e
tantos chamados
sem-terra permanecem a míngua, sem nem mesmo ter onde cai r
mortos - aspecto este
muito relevante, já que boa
parte de suas lideranças acaba assassinada a
mando
daqueles que se apropriaram do solo para com ele especular em nome da própria ganância.
É interessante notar que o vegetal que deu nome às novas
terras, o chamado pau-brasil
(já que era vermelho feito brasa) foi a primeira riqueza a se estingüir devido à
insaciabilidade
dos primeiros europeus que por aqui passaram. Aliás, convém
notar, é interessante saber
que ainda nos primeiros tempos da colonização lusitana os
contrabandistas dessa madeira
eram chamados de brasileiros. Por um mistério que a história
ainda não ousou desvendar,
os filhos da terra herdaram essa mesma
designação. Afinal, enquanto os cidadãos das
demais nacionalidades do planeta são identificados por sufixos diferenciados
(argentINOS,
mexicANOS, portuguESES etc), quem nasce nessas terras é
chamado de brasilEIRO, o
que mais parece uma profissão (como pedrEIRO, padEIRO, carpintEIRO etc), o que talvez
tenha servido de mote para que o
dramaturgo de nome Paulo Pontes tenha criado o
espetáculo Brasileiro, profissão esperança, que por aqui fez muito sucesso
lá pelos idos dos
anos 60 e 70.
Talvez por força desse mesmo sufixo, boa parte da população pareça estar
empenhada não
propriamente em construir uma nação, mas em
explorar cada vez mais a terra e seus
habitantes da mesma forma que fizeram os primeiros aventureiros que por aqui chegaram em
busca do ouro, do diamante e de outras tantas riquezas.
Boa parte das mulheres nativas continua usando pouca ou nenhuma roupa. Fazem
lembrar
seus ancestrais, aqueles que receberam a frota cabralina com
votos de boas vindas, tão
logo ela desembarcou nas novas terras para a celebração da primeira
missa. Essas nativas
inclusive usam tangas, agora chamadas de fio-dental, e se estiram sobre a areia das praias
de
norte a sul do País na tentativa de bronzear a pele para ficar
iguais às chamadas índias que
tanto apaixonaram os primeiros marujos que por aqui aportaram depois de
meses à perigo,
numa viagem desconfortável, sem mulher e sem banho.
Já muitos dos nativos do
sexo masculino alguns não tão masculinos assim - foram
chamados por um ex-presidente de descamisados, e a exemplo dos bravos tupis e tapuias do
passado continuam ainda hoje com o dorso nu, e é bom que se diga que por pouco
eles não
perderam também as calças devido aos desmandos
desse e de outros mandatários que
herdaram a empáfia dos reis do período colonial.
No presente momento, a Terra Brasilis é
governada por Dom Fernando Henriques, o
garboso, monarca reeleito que, pelo sobrenome, deve
descender da nobre linhagem de
Afonso Henriques, o infante rei de Portugal. Das terras denominadas pela
coroa portuguesa
como as Minas Gerais, um governador da província
tenta repetir o gesto dos chamados
inconfidentes ao declarar a moratória, como numa típica revolta contra
a derrama causada
pelo pagamento das dívidas do Estado. Fiel à força do seu nome
Itamar (que em Tupi
poderia ser traduzido como pedra do mar) Augusto (que lembra os
imperadores romanos)
Franco (aquele que diz a verdade) o referido governador eriçou o
topete e declarou aos
quatro ventos não dispor de recursos no presente momento para saudar as dívidas
contraídas
por seus antecessores. O caos por pouco
não se estabeleceu, demonstrando assim a
fragilidade do sistema capitalista globalizado e
os riscos que nos aguardam a qualquer
momento.
Por essas e outras, nobres
patrícios de além-mar, não se surpreendam se durante as
comemorações dos 500 anos dessas terras descobertas
por vossos antepassados algum
monarca tupiniquim, num momento de lucidez causada
pelo desespero da incompetência
acumulada ao longo de vários períodos de desgovernos e
intervenções impensadas, queira
devolver a Portugal a Terra Brasilis com um emocionado pedido de desculpas pelo grito dado
pelo saudoso imperador Dom Pedro I, às margens do Ipiranga, pouco depois de apear do seu
burrico para obrar numa das duas margens - já que lhe seria impossível estar dos dois
lados do
rio ao mesmo tempo.
* Crônica publicada no jornal ESTADO DE MINAS, edição
do dia 20 de janeiro de 1999.
Jorge Fernando dos Santos é jornalista, escritor e compositor.
Trabalha no jornal Estado de Minas como editor do Núcleo de Revistas e
Suplementos. Publicou 18 livros, entre eles "Palmeira Seca" (Prêmio Guimarães
Rosa),
adaptado para teatro e minissérie pela Rede Minas. Deste trabalho resultou uma trilha
sonora em parceria com Chico Lobo e Valter Braga. Também porduziu o CD
"Belôricéia",
que reúne parcerias com Angelo Pinho e Clésio Vargas na voz de Helena Penna e
convidados. Seu site na internet é www.jorgefernandosantos.hpg.com.br
jfsantos@task.com.br