• Ilustração de Julio Saens
        Julio Saens
         

        INIMIGO PÚBLICO

         Um conto de Jorge Fernando dos Santos

       

      ELE nunca tinha matado ninguém. Pior que isso, nunca tinha roubado, estuprado ou traficado
      seja lá o que fosse. Por isso mesmo foi condenado à pena máxima: 150 anos de trabalhos
      forçados ou redução da pena mediante morte súbita. Somente assim a sociedade pôde respirar
      aliviada. Tratava-se do inimigo público número um. Aquele que, desde a infância, recusava-se a
      cometer qualquer tipo de delito, por menor que fosse.

      Tudo começou aos sete anos de idade, quando ele cedeu seu lugar no ônibus a uma velhinha.
      Todo mundo ficou surpreso e os vizinhos que se encontravam a bordo chegaram a comentar o
      fato. Mas ninguém levou aquilo muito a sério. Ele é só uma criança, alguém comentou. Alguns
      dias depois, o que parecia ter sido uma simples travessura da infância aconteceu novamente. A
      mãe, que estava com ele, não teve outra alternativa senão repreendê-lo na frente dos demais
      passageiros, que já se mostravam injuriados com o menino.

      Já aos 13 anos, ele se recusou a consumir uma droga oferecida pelo primo, que era seu colega
      no primeiro grau. A notícia logo se espalhou e tanto a família quanto a diretora do
      estabelecimento de ensino se horrorizaram. O ópio custa tão caro e esse menino simplesmente
      não aceita a oferta do primo que tanto o admira? Quem ele pensa que é? - muitos comentaram.
      E ele continuou ignorando esse tipo de pressão. Aliás, acostumou-se com aquela forma de
      tratamento. Consciente de sua própria rebeldia e - por que não? - orgulhoso de ser um
      adolescente do tipo rebelde e  contestador, foi várias vezes suspenso da escola e quase tomou
      bomba por questionar os ensinamentos antiéticos de seus professores.

      Os pais já não sabiam mais o que fazer. O padrinho, que além de ser seu tio era também um
      deputado federal várias vezes investigado por corrupção - e por isso mesmo reeleito duas
      vezes para o cargo - simplesmente rompeu os laços afetivos com a família. Não quero ser
      lembrado como parente de um caso perdido como esse, justificou. Seu irmão, pai do garoto
      problema, lamentou o fato. Como sempre fazia, castigou o filho passando-lhe uma
      descompostura e repetindo as desvantagens de ser uma pessoa que não se mostra
      enquadrada no sistema.

      Aos 17 anos, ele cometeu um legítimo ato de atentado ao pudor. Em plena fila de alistamento
      militar, socorreu um recruta que, estando de sentinela há várias horas, desmaiou sob o intenso
      sol do verão. Se você fosse um militar, seria levado à corte marcial, disse um sargento, furioso
      diante do fato inusitado jamais ocorrido em seu pelotão. Dispensado do serviço obrigatário,
      conseguiu arranjar emprego numa agência bancária da cidade. Mas não durou muito no
      emprego. Acabou sendo demitido por justa causa depois de se recusar a tomar parte num
      desfalque planejado pelo gerente.

      Jamais pensei criar um filho pra isso, desabafou o pai numa discussão em família. Trabalhar
      honestamente como caixa de banco, isso é um absurdo! Calma, pediu-lhe a mulher, sempre
      paciente. Ele é ainda muito jovem, há de aprender com a própria vida.

      Não aprendeu. E por isso mesmo, aos 30 anos de idade, tendo já uma enorme ficha criminal -
      que incluía multas de trânsito por respeitar o sinal vermelho e por jamais estacionar em fila
      dupla - acabou sendo preso em flagrante ao tentar salvar uma jovem de ser estuprada por um
      padre dentro de uma igreja do seu bairro.

      Apesar de nunca ter aprovado suas atitudes, o pai contratou os serviços do melhor advogado
      da cidade, um eminente professor de Direito que já havia tirado da cadeia vários chefões do
      crime organizado. Tudo em vão. A promotoria agiu com incrível competência, apresentando
      várias testemunhas e comprovando todos os crimes praticados pelo réu.

      No final do demorado julgamento, que catalisou a atenção da imprensa e mobilizou a opinião
      pública do país, o veredicto foi unânime. Um elemento de tamanha periculosidade, verdadeira
      ameaça aos interesses do sistema vigente, não poderia continuar às soltas, incomodando as
      pessoas normais que obedecem cegamente aos mandamentos da lei. Hoje, ele está confinado
      numa cela escura em alguma das penitenciárias privadas do país, cuja especialidade é
      justamente punir aqueles que se recusam a levar vantagem na vida.
       

      * Jorge Fernando dos Santos é escritor, dramaturgo, compositor e
                        jornalista no Estado de Minas. O endereço do seu site é
      www.jorgefernandosantos.hpg.com.br

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