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A palavra é nossa alma e está ameaçada Jorge Fernando dos Santos |
O homem deste
final de século está desaprendendo o
dom da palavra. Motivadas cada vez mais pela imagem,
signo utilizado à exaustão pela televisão, e agora também
pela informática, as novas gerações já não cultuam o prazer
da leitura. A queda na venda de jornais registradas em várias
partes do mundo e os baixos índices de leitura em países
como o Brasil onde o péssimo sistema de ensino abre
espaço para a linguagem das aparências - sinalizam um novo
desafio para a civilização. Sem dominar plenamente a
palavra, o homem poderá entrar em decadência enquanto
ser inteligente. Como lembra o poeta a pátria é minha
língua. Enfim a palava é o principal signo civilizador.
Através dela declara-se a guerra ou firma-se a paz. Com um
vocabulário reduzido e sem decifrar seu próprio idioma, o
homem pode ser devorado pela esfinge.
Desde a infância aprendemos que o que
difere o
homem dos animais é a capacidade de raciocínio. No
entanto antes de aprender a pensar, o homem conquistou
o dom da palavra. Esta, sim, é a principal característica que
nos coloca em vantagem diante dos outros seres da natureza.
Na medida em que desenvolvemos a capacidade de falar,
ampliando o vocabulário e as formas de usá-lo, dilatamos o
raciocínio, podendo assim formular questões em torno de
nossa existência e, logo a seguir responde-las. Portanto, a
palavra pode ser considerada a melhor invenção do homem.
Quanto maior o vocabulário e suas formas de articulação,
maior é a nossa capacidade de raciocínio. Enfim, o argu-
mento revigora o pensamento. Talvez por isso pessoas que
levam vida primitiva geralmente têm o vocabulário reduzido
ao extremamente necessário.
Claro que os animais têm seus códigos.
O golfinho,
por exemplo, desenvolveu um dos mais eficientes sistemas
de comunicação. Não foi a toa que esse mamífero chegou a
ser utilizado na guerra fria, tanto por americanos quanto
por soviéticos. Outro sinal cujo processo de comunicação
vem sendo pesquisado a muito tempo é o chimpanzé.
Alguns membros deste espécie foram capazes inclusive de
aprender a linguagem de sinais dos surdo-mudos, ensi-
nando-a a seus filhotes. Mas o dom da palavra no planeta
Terra é, até agora, exclusivo do ser humano.
É conversando que a gente se entende,
diz o ditado,
confirmando a máxima de que a voz do povo é a voz de
Deus. É interessante notar que a Bíblia nos ensina justa-
mente a força da palavra divina: E Deus disse ... Em dado
momento, afirma que O Verbo se fez carne . Mais ainda,
identifica Deus como a palavra: No princípio era o verbo.
E o verbo era Deus, e o verbo estava com Deus. Daí a
força da palavra, já manifestada no livro santo, entre metá-
foras e preceitos religiosos. Foi através da palavra que os
profetas guiaram seus povos.
E a palavra é também a grande herança da
huma-
nidade. Sem ela não há perspectiva de futuro. Nesse sentido,
a palavra imprensa ganha importância renovada. É através
da escrita que se consolidam as civilizações. Vale notar que,
no limiar de nossa era, renova-se a linguagem dos ícones,
motivada pelo advento da informática. Espécie de novo
hieróglifo, essa linguagem é universal e cumpre de certa
forma o papel anteriormente sonhado para o Esperanto o
idioma inventado por L. L. Zamenhof. Mas , certamente,
ela não poderá suprimir a língua escrita e falada, sem a qual
a vida humana perderia sua atual configuração. No filme O
PLANETA DOS MACACOS, a Terra é dominada pelos
símios e o homem perdeu o dom da palavra, estando reduzido
à condição animal. Mais uma a ficção científica serve de alerta
aos homens da vida real.
Monteiro Lobato escreveu que uma nação se faz
com
homens e livros. Claro que o livro terá sua forma modificada
pelas novas tecnologias do mundo da informática como,
no passado, foi modificado pela introdução do papel e da
imprensa. Hoje, nós já podemos ler a palavra virtual, proje-
tada na tela do computador. A julgar pela escassez de recur-
sos naturais e pela devastação das florestas, não fica difícil
deduzir que no século XXI o papel será uma raridade. Livros
e jornais impressos poderão virar peças de museu. Mas
a palavra deverá resistir a esse impacto tecnológico, em novos
objetos de manipulação nos quais possamos ler histórias e
notícias. Caso contrário, o homem correrá o risco de voltar
às árvores dos quais desceram seus ancestrais. Se tiver sobrado
alguma árvore para contar a história.
Jorge Fernando dos Santos é jornalista, escritor e compositor.
Trabalha no jornal Estado de Minas como editor do Núcleo de Revistas e
Suplementos. Publicou 18 livros, entre eles "Palmeira Seca" (Prêmio Guimarães
Rosa),
adaptado para teatro e minissérie pela Rede Minas. Deste trabalho resultou uma trilha
sonora em parceria com Chico Lobo e Valter Braga. Também porduziu o CD
"Belôricéia",
que reúne parcerias com Angelo Pinho e Clésio Vargas na voz de Helena Penna e
convidados. Seu site na internet é www.jorgefernandosantos.hpg.com.br