Desde sua morte, ocorrida em
21 de junho de 2002, muita coisa tem sido publicada sobre Roberto Drummond. No entanto,
pouca ênfase tem sido dada às principais características de seu estilo pessoal e
literário. Em primeiro lugar, foi um dos poucos de sua geração a construir uma
obra literária de repercussão nacional sem sair de Belo Horizonte e, melhor ainda, sem
abrir mão de ambientar suas histórias na cidade que o acolheu. Em segundo, mesmo tendo
morado no Rio de Janeiro durante um curto período de tempo, foi em BH que ele criou as
bases de um estilo até então inédito e jamais imitado. Como foi ressaltado por alguns
críticos, Roberto foi o mestre e o único discípulo da chamada literatura pop
brasileira.
Nesses dois quesitos, o escritor e jornalista revela-se como um paradoxo na
mística do autor mineiro. Ao contrário de Guimarães Rosa, Pedro Nava e Carlos Drummond
de Andrade, Roberto não quis fincar suas bases fora da província. Tornou-se, ele
próprio, um provinciano por excelência, dando ouvidos à máxima de que é preciso
cantar a própria aldeia para se tornar universal. No entanto, a exemplo dos autores acima
mencionados (e podemos incluir na lista o nome de Murilo Rubião), ele criou o seu
próprio jeito de contar histórias, trilhando sozinho por sua própria conta e
risco um caminho até então inédito na literatura nacional.
Até seus primeiros livros de sucesso, poucos autores tinham conseguido
identificar aspectos urbanos em Minas Gerais. Inaugurada em 1897, até a segunda metade do
século passado Belo Horizonte ainda não havia se tornado uma "cidade grande".
O primeiro empurrão nesse sentido foi dado nos anos 40, pelo prefeito Juscelino
Kubitschek, que também fez a diferença no período em que ocupou os palácios da
Liberdade e do Catete. Ao construir Brasília no coração do Planalto Central, seu desejo
nunca revelado com certeza foi refrear a influência exercida pelo eixo Rio-São Paulo
sobre os demais estados da União. De certa forma, o esforço de JK teve pouca valia, pois
o eixo continuou dando as cartas em vários setores, embora Minas Gerais sempre tenha
exercido o poder moderador.
No que diz respeito a sua primeira característica, vale dizer que
Roberto Drummond lutou contra tudo e contra todos para impor seu próprio estilo num
universo saturado de "gênios literários". Como poucos, fez do narcisismo a
principal arma para se proteger das acusações que sofreu ao longo de uma carreira de
altos e baixos. Com poucas exceções, a crítica literária não gostava do escritor.
Isso porque os intelectuais geralmente odeiam tudo oque pode ser alcançado pelas pessoas
comuns, pois não conseguem diferenciar o popular do populista. O mesmo se
passou com outros brasileiros, como Villa-Lobos, Tom Jobim, Glauber Rocha e até Oscar
Niemeyer. Ao contrário de outros esquerdistas, que preferem fazer o gênero pobre,
Roberto gostava do glamour das colunas sociais, e isso também incomodava aqueles que
consideram a riqueza um pecado mortal.
Por essas e outras, o autor de Sangue de Coca-Cola sempre
inspirou discussões em rodas de jornalistas, escritores, professores e críticos
literários. A propósito de sua morte, vale dizer que ela o alcançou no auge da carreira
e da sonhada fama. O estrondoso sucesso de Hilda Furacão, o retorno à redação do
ESTADO DE
MINAS e o badalado lançamento de O Cheiro de Deus representaram para ele aquilo que o
sambista Nelson Cavaquinho chamou de "As Flores em Vida". Hipocondríaco
assumido, o escritor tinha pavor da velhice e damorte. Craque do marketing e dos bons
títulos, saiu da vida poucos minutos antes da partida entre Brasil e Inglaterra e, mais
uma vez, foi notícia nacional em horário nobre com grande pico de audiência. Longe de
ser unanimidade, sua luta com as palavras valeu a pena. Bastaria a um aspirante das letras
ter publicado A Morte de DJ em Paris para merecer lugar de destaque na melhor antologia do
conto brasileiro.