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(...) "O
mal do homem moderno consiste em fazer uma construção de espírito dentro da idéia de
tempo. O espírito do homem moderno caracteriza-se sobretudo pelo cansaço que tem das
pesquisas inúteis."
(Murilo Mendes, poeta de Minas Gerais, da
Península Ibérica, do Rio de Janeiro
e da Itália e amigo de Ismael Nery).
O século XX começou
com a derrocada do plurissecular poderio inglês. O século XXI pode ter começado com um
evento terrorista que anuncie ou consume o anunciado no desfecho da guerra do Vietnã: uma
acelerada decadência e fragilização da força e da riqueza norte-americana!...Os
Estados Unidos foram formados pelos puritanos que se contrapunham ao Império Britânico e
acabaram na vala do mais grosseiro e rambônico imperialismo militarista e econômico,
esquecidos do futuro da Civilização Ocidental que os tinha em sua liderança ou sobre a
qual hegemonizavam na definição dos seus próximos e estratégicos passos.Constituídos
e baseados em valores como os da liberdade individual e sobre as teorias de Adam Smith
sobre a riqueza e a felicidade das nações, os estadunidenses nunca chegaram tão perto
do totalitarismo antevisto por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo e por George Orwell
em 1984 ou do estatismo patriótico soviético- stalinista (combatido pelos yankees na
Guerra-Fria de 1945 até 1990) e até da "guerra-santa" islâmica (guerra contra
um "Mal" que nada mais é do que uma força que se lhes contraponha política e
culturalmente).A pujança da terra do Tio Sam dá lugar a cenários e tramas trágicas,
aos mendigos das suas grandes metrópoles, ao medo do futuro e do inesperado, ao pavor da
peste e da guerra, à mais terrível solidão e desconfiança, ao abandono das comodidades
de uma viagem aérea, à infantil compulsão na busca de uma companhia para a travessia
das trevas da sua soturna e imperial noite. Os EUA caíram até numa catastrófica
recessão econômica, processo que já se reflete nas relações internacionais e na
globalização que orientavam em todo o mundo.Inicialmente motivados por questões de
ordem espiritual e religiosa, os descendentes dos ingleses e dos irlandeses vieram a se
embriagar na mais materialista e entediante onda de consumismo, pragmatismo e utilitarismo
desumanizante e embrutecedor. Uma traição ou negação dos seus nortes primordiais?!...
Gorilas gigantescos (símbolos da pura vida selvagem) escalam e tomam de
assalto o Empire State Building estuprando uma alva e loura virgem americana. Nathaniel
Hawthorne desmascara em A letra escarlate a hipocrisia americana e Herman Melville, em O
vigarista e seus truques desvenda as desonestidades e espertezas dos descendentes dos
puritanos construtores dos alicerces da sociedade estadunidense. Até hoje os Estados
Unidos não abandonaram o cinematográfico sonho policialesco (que, mais tarde, traria o
macartismo?) de se afirmarem como xerifes e mocinhos do far-west interminável que
desencadearam em todas as latitudes de um mundo que não é só deles e do qual eles fazem
parte. A rota americana pode estar sendo tão às cegas, tão burra e suicida quanto a dos
kamikases e fundamentalistas de todas as longitudes. Não se trata de engrossar o coro dos
histéricos anti-americanistas (apreciei vários sanduiches de peixe servidos no Mc
Donalds da Plaza de la Constituición, de la Ciudad Vieja de Montevideo em Enero de 1999).
Mas, sim, trata-se de clamar a favor da vida!...
Sempre fomos levados a aplaudir (em matinês dominicais) a vitória dos mocinhos
brancos e os massacres de peles-vermelhas, a delirarmos diante do massacre de índios
condenados sem direito a defesa (princípio e fundamento do Estado Democrático
Estadunidense).
Uma nação que vivia intensamente o dinamismo e a movimentação babélica
do cosmopolita american way life se vê em lance de cheque-mate, condenada à mais
perplexa e terrível paralisia. Paralisada pela monstruosidade dos seus aliados de outrora
e humilhada pelos que humilhou (em vão) em suas fronteiras. Uma potência impotente
diante do terrorismo que inaugurou em Hiroshima e em Nagazaki (1945), distanciando-se ,
cada vez mais, do ideal romântico e capitalista de felicidade e cobrindo-se com a túnica
negra do sentimento de culpa e da orfandade num mundo que lhe é crescentemente adverso e
desconhecido em suas sinistras tramas e ódios. Uma megalomaníaca civilização
aparentemente sem rumo e sem futuro e que a todos ameaça (como um bicho acuado) ou a
todos promete vinganças. Numa cegueira trágica!... "Ou estão comigo ou estão
contra mim. Eu sou o Bem e você é o Mal". Que absurdo!...
Há vários anos eu li uma profética observação (não me lembro de qual
escritor... acho até que foi do estadunidense Gore Vidal) na qual se analisava o
sentimento nacional estadunidense como o de um povo que se via apartado do resto do mundo,
como se constituísse sozinho aqui na Terra um outro mundo... como se fossem um feto de um
novo ser, ou um tumor cancerígeno, um ovo de serpente, etc. Ou, talvez, uma esquizofrenia
cultural a todos perigosa. Um falcão que descia dos céus ressuscitando o horror divino
lançado no Velho Testamento sobre Sodoma e Gomorra, um dragão com a bandeira americana
nas fuças abrigado em sua caverna lunar de sombras e auto-enganos suicidas!...
José Luiz Dutra
de Toledo
nasceu em 22 de Dezembro de 1951 em Tabuleiro - MG;
1976:Licenciado em História pela Univ. Federal de Juiz de Fora;
1990: Mestre em História pela UNESP- Franca/SP;
1992: Prêmio Clio da Academia Paulistana da História;
Professor e bibliotecário;
Colabora desde 1967 com jornais, suplementos culturais
e sites literários de vários estados do Brasil; em Janeiro de
2000 proferiu palestras em Lisboa e na cidade do Porto
(para membros da ONG Opus Gay) sobre a presença
homossexual na história e na literatura brasileiras; Nunca
conseguiu editar nenhum de seus 35 livros inéditos e não
se dispõe a fazê-lo com seus próprios recursos.
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