
canções de senzala
encontrei o bardo
tomaz antônio gonzaga
que ao som da sanfona
do sanfaneiro que falava pouco
bebia muito e tocava demais
me contou sobre a ternura de Marília
me convidou para mais um trago
eu aceitei: tim tim...
me disse que a vertigem da poesia
começa justamente onde termina a morbidez
de barba por fazer
afrouxou o nó da gravt
como um ilustre fidalgo
cantou canções de senzala
disse que sentia enjoado de conspirações
e pediu mais vinho
ajeitou o chapéu e me convidou
pra subir e descer ladeiras
saímos sem pagar a conta.
poema dos trinta anos
aos sete perdi a infância
não perdi a elegância
aos dezessete perdi a virgindade
não perdi a dignidade
aos vinte e sete perdi a ingenuidade
não perdi a vaidade
não perdi a fé
gosto de café
ando a pé
no primeiro dia da criação
eu era o último da fila
nasci de improviso
deus estava em crise
minha alma é um lago à tarde
não sei chorar para fora
vejo as estrelas
meu desalento dorme
e se encontra com o desespero
no primeiro lugar da fila
no último dia da criação
caco de sonho
ela de calcinha preta
estudava patologia
eu nu lia poesia
samba
lírico e não romântico
olhar de maritaca no barranco
diadorim tossindo e tropeçando
flor do serrado dândi do sertão
ama como um cão
adora joão gilberto na televisão
foi tão abandonado que não sabe abandonar
seu lado direito e beauvoir demais
seu ardor tem ar de dor e doçura
de meio minuto mágico de beijo entre copos
onde existe humor não existe suicídio
humor é melhor que gargalhada
o amor é um lobo mau
humorista e não "palhaço"
sorriso de anga-miúdo
macunaíma roncando e cagando
Policarpo sonhando
odeia como uma vaca no pasto
e isso não serve para o cinema
não sabe para que lado nadar
se a favor da beleza
ou contra a correnteza
seu lado esquerdo é do(r)lores demais
alegria é melhor que felicidade
o amor é um lobo mais bobo que mau
não
quero
saber
de
salvador
dali
eu
quero
é
me
salvar
daqui
antena
meu pai era gaudino
livre
foi queimado
meu avô era zumbi
guerreiro foi castrado
meu bisavô era bardo
pessoa
foi ignorado
eu sou sambista
Jovino Machado nasceu em Formiga, MG, EM 1963.
Vive em Belo Horizonte, onde já publicou sete livros,
entre eles Trint'anos proust'anos (Mazza Edições, 1995)
Disco (Orobó Edições, 1998) e Samba (Orobó Edições,
1999), reunião de toda sua obra. |
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