Tanto

         
         
        Cinco minicontos de Kafka

                        O Timoneiro

                         “Não sou o timoneiro?” – exclamei. “Você?” – disse um homem alto e
                        escuro e esfregou as mãos nos olhos como se espantasse um sonho. Eu estive
                        ao leme na noite escura, a lanterna ardendo fraca sobre minha cabeça e agora
                        vinha esse homem e queria me pôr de lado. E já que eu não me afastava, ele
                        calcou o pé no meu peito e me empurrou para baixo devagar enquanto eu
                        continuava agarrado aos raios do leme e na queda o tirava completamente do
                        lugar. Mas o homem o pegou, colocou-o em ordem e me empurrou dali com
                        um tranco. Eu porém me recompus logo, corri até a escotilha que dava para o
                        alojamento da tripulação e gritei: “Tripulantes! Camaradas! Venham logo! Um
                        estranho me expulsou do leme!” Eles vieram lentamente, subindo pela escada
                        do navio, figuras possantes que cambaleavam de cansaço. “Não sou o
                        timoneiro?” – perguntei. Eles assentiram com a cabeça, mas seus olhares só
                        se dirigiam ao estranho; ficaram em semicírculo ao redor dele e, quando ele
                        disse em voz de comando: “Não me atrapalhem”, eles se juntaram, acenaram
                        para mim com a cabeça e voltaram a descer pela escada do navio. Que tipo
                        de gente é essa? será que realmente pensam ou só se arrastam sem saber
                        para onde sobre a terra?

                        O pião

                        Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino
                        que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o
                        filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as
                        crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na
                        brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas
                        só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade,
                        acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de
                        um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se
                        ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se
                        a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava
                        conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se
                        realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que
                        agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em
                        certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois
                        retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria
                        das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente
                        penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e ele cambaleava como um
                        pião lançado com um golpe sem jeito da fieira.

                        A partida

                        Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu.
                        Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar à distância
                        uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele não sabia de nada e
                        não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve e perguntou:   – Para
                        onde cavalga senhor?   – Não sei direito – eu disse –, só sei que é para fora
                        daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar; só assim posso alcançar meu
                        objetivo.   – Conhece então o seu objetivo? – perguntou ele.   – Sim –
                        respondi – Eu já disse: “fora-daqui”, é esse o meu objetivo.   – O senhor não
                        leva provisões – disse ele.   – Não preciso de nenhuma – disse eu. – A
                        viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no
                        caminho. Nenhuma provisão pode me salvar. Por sorte esta viagem é
                        realmente imensa.

                        O Brasão da Cidade

                        No início tudo estava numa ordem razoável na construção da Torre de Babel;
                        talvez a ordem fosse até excessiva, pensava-se demais em sinalizações,
                        intérpretes, alojamentos de trabalhadores e vias de comunicação, como se à
                        frente houvesse séculos de livres possibilidades de trabalho. A opinião
                        reinante na época chegava ao ponto de que não se podia trabalhar com
                        lentidão suficiente, ela não precisava ser muito enfatizada para que se
                        recuasse assustado ante o pensamento de assentar os alicerces.
                        Argumentava-se da seguinte maneira: o essencial do empreendimento todo é
                        a idéia de construir uma torre que alcance o céu. Ao lado dela tudo o mais é
                        secundário. Uma vez apreendida na sua grandeza essa idéia não pode mais
                        desaparecer; enquanto existirem homens, existirá também o forte desejo de
                        construir a torre até o fim. Mas nesse sentido não é preciso se preocupar com
                        o futuro; pelo contrário, o conhecimento da humanidade aumenta, a
                        arquitetura fez e continuará fazendo mais progressos, um trabalho para o qual
                        necessitamos de um ano será dentro de cem anos realizado, talvez em meio e
                        além disso melhor, com mais consistência. Por que então esforçar-se ainda
                        hoje até o limite das energias? Isso só teria sentido se fosse possível construir
                        a torre no espaço de uma geração. Mas não se pode de modo algum esperar
                        por isso. Era preferível pensar que a geração seguinte, com o seu saber
                        aperfeiçoado, achará mau o trabalho da geração precedente e arrasará o que
                        foi construído, para começar de novo. Esses pensamentos tolhiam as energias
                        e, mais do que com a construção da torre, as pessoas se preocupavam com a
                        construção da cidade dos trabalhadores. Cada nacionalidade queria ter o
                        alojamento mais bonito, resultaram daí disputas que evoluíram até lutas
                        sangrentas. Essas lutas não cessaram mais, para os líderes elas foram um
                        novo argumento no sentido de que, por falta da concentração necessária, a
                        torre deveria ser construída muito devagar ou de preferência só depois do
                        armistício geral. As pessoas porém não ocupavam o tempo apenas com
                        batalhas, nos intervalos embelezava-se a cidade, o que entretanto provocava
                        nova inveja e novas lutas. Assim passou o tempo da primeira geração, mas
                        nenhuma das seguintes foi diferente, sem interrupção só se intensificava a
                        destreza e com ela a belicosidade. A isso se acrescentou que já a segunda ou
                        terceira geração reconheceu o sem-sentido da construção da torre do céu,
                        mas já estavam todos muito ligados entre si para abandonarem a cidade.
                          Tudo o que nela surgiu de lendas e canções está repleto de nostalgia pelo
                        dia profetizado em que a cidade será destroçada por um punho gigantesco
                        com cinco golpes em rápida sucessão. Por isso a cidade também tem um
                        punho no seu brasão.
                        Traduções de Modesto Carone (direto do alemão)

                        Uma mensagem imperial

                        O imperador – assim dizem – enviou a ti, súdito solitário e lastimável, sombra
                        ínfima ante o sol imperial, refugiada na mais remota distância, justamente a ti o
                        imperador enviou, do leito de morte, uma mensagem. Fez ajoelhar-se o
                        mensageiro ao pé da cama e sussurrou-lhe a mensagem no ouvido; tão
                        importante lhe parecia, que mandou repeti-la em seu próprio ouvido.
                        Assentindo com a cabeça, confirmou a exatidão das palavras. E, diante da
                        turba reunida para assistir à sua morte – haviam derrubado todas as paredes
                        impeditivas, e na escadaria em curva ampla e elevada, dispostos em círculo,
                        estavam os grandes do império –, diante de todos, despachou o mensageiro.
                        De pronto, este se pôs em marcha, homem vigoroso, incansável. Estendendo
                        ora um braço, ora outro, abre passagem em meio à multidão; quando
                        encontra obstáculo, aponta no peito a insígnia do sol; avança facilmente,
                        como ninguém. Mas a multidão é enorme; suas moradas não têm fim. Fosse
                        livre o terreno, como voaria, breve ouvirias na porta o golpe magnífico de seu
                        punho. Mas, ao contrário, esforça-se inutilmente; comprime-se nos aposentos
                        do palácio central; jamais conseguirá atravessá-los; e se conseguisse, de nada
                        valeria; precisaria empenhar-se em descer as escadas; e se as vencesse, de
                        nada valeria; teria que percorrer os pátios; e depois dos pátios, o segundo
                        palácio circundante; e novamente escadas e pátios; e mais outro palácio; e
                        assim por milênios; e quando finalmente escapasse pelo último portão – mas
                        isto nunca, nunca poderia acontecer – chegaria apenas à capital, o centro do
                        mundo, onde se acumula a prodigiosa escória. Ninguém consegue passar por
                        aí, muito menos com a mensagem de um morto. Mas, sentado à janela, tu a
                        imaginas, enquanto a noite cai.
                        (De Um Médico Rural)
                        Tradução: Lúcia Nagib
         
         

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