Tuti Maioli  
Tuti Maioli

 

CAMISETA

        yin paciência
forever yang




ANO DE NOVO 

então, de tão tonto com seu tanto tanto,
tateei tua pele
móvel
até sentir o sumo, até sugar a história, até reatar o
delírio
da noite sem ponteiro e reflexo. até te atingir o sexo

tentei ser delicado, ser tão doce e ávido que deixasse
cicatrizes transparentes,
linhas e cursos de água densa em
alma de menta e gelo. falo
 
falo que a partir de te mirar o
centro e mover o paraíso por dentro perdi controle e
sina,
deixei que o próprio pino
pensasse seu percurso.
daí ser sem destino o meu futuro,
cada vez que te entreter no
entreato for possível e fato. 

daí que voltei a pensar em
retalhar manchetes com meu sorriso bobo e
satisfeito. 

se não está salvo o mundo, está mudo o tempo.
entre espelhos, suas voltas
entre meus joelhos.

o presente, consinto, existe e é sempre.
sempre que puder te fazer em duas
nas brechas da noite.





FOREVER YANG.

se não for sol: ao menos lux, fio de fogo, lampejos de sexo e
dúvidas em sobressalto.
nunca mais ponte, muro, casamata: caco de ladrilho; de brilho
próprio, fundo de taça entre goles, vitral inesperado, telha
tombada por iephas, alephs, aliens
aliás: teses.
fica assim: fica sempre. fica leve. fica breve eternamente.
fica.
forever young.
forever yang.




NANONADA.

meu nome é nada. nonadaquase. nódoa, mancha, cisco. the
name is on the table. anagrama. palavra cruzada. símbolo
fálico. prince dos póveros, purple rain de chuva ácida. aço.
ferro. flerte. foguete em ponto de explosão. rastro de desenho
no céu querendo dizer tudos.
entre dentes,
entre fronhas e lençóis, sleeping bag virtual,
rede de entregas. 0800 sem destino. desafinado sem coração.
bossa nódoa. mancha negra. cisco kid. no meio do nadaquase.





ONOMATOPÉIA

te lendo falar assim, tão ruidosa no empenho da caneta,
me incomodam as onomatopéias sem freio,
o papel no meio do barulho, o arrulho de sílabas sibilantes, o sigilo do
silêncio do quarto cortado pelo fio da ponta da esfera gráfica
afiada. já não ouço mais nada do ambiente. a paisagem
tragada pelo papel. a cor céu de papel de maçã galopeia por
minha memória. lápis de cor como rashi entre sushies de
brutos do mar, peixes brancos entre shoyos e wasabis
wanabees. soy loco por ti, colérica. na passagem das
páginas, duplas asas de colibri, o vôo flácido das falácias. a
fala fácil das animações. no caminho do meio, o abandono
plurisolitário do e-mail. entre spams e firewires, espasmos e
soluços de plasma. o pincel vermelho sangue tentando
ilustrar o mangue. seus peitos entre meus lençóis.
e minha solidão a sós nas entrelinhas.




REFRÃO.

pode ir pra casa
aprender
se você não sabe 

que o amor
é assim

que o amor
é assim

sem saber



SIMDERELLA

boa noite, bela princesa. boa noite. durma, mesmo sem
consciência, com meu coração nas falhas do lençol. sonhe
comigo entre piscadelas de tranqüilidade. lembre de nossos
sumos, suores, humores, amores, lugares... deixe, até que
cicatrize, um lugar entre seus cios, um espaço entre seus
dias, pra esse amor tardio de sinceridade boba e infantil.
essa paixão de caderno de notas, de cartão de natal, de livros
de papel barato em cômoda de moças.
e me espere, quando você menos esperar, ancorado entre
suas pernas.


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SOLO

 não sei
            se
                só vou.

só sei
       que
             vou só.

CALENDÁRIO

 

tempo parado
a folha do calendário,
(estupefação de literatura)
hipoteca delírios

em prol

do seguro

e certo. serto. çerto.
esforço
à beira

do tropeço.
moto contínuo
de ressacas

receios

e relevos


 

BRANCO 

branca página virtual

devora
mito
da criação.

desarvora

papel em bits, ecologia a fórceps

digital.

risco técnico

e lógico, a folha

como signo

e o senão.

computa ardores,

avermelha

correção.

triscos de chuva

no caminho do apagão.

 

Kiko Ferreira é jornalista, crítico musical e poeta, autor de diversos livros,
dentre eles Solos de Kalimba, Ed. Scriptum, Belo Horizonte.
kiko2901@terra.com.br