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Poemaremos sem fim

Lecy Pereira Souza

De maneira concreta

Calcados na argamassa

Sabidos a diamantes

Fundidos em nobre aço

Escudados por titânio

Poemaremos poemaremos poemaremos

Poemaremos por falta de opção

Rijos tensos intumescidos

Retesadamente lascivos

Ao cair da noite & ao levantar do sol

Duros de coração

Monossilábicos átonos atônitos

Viris com a bunda virada para o céu

Santos do pau oco e cheio de mil Réis

Inteligentes pra burro

Cateterizados e com estimulante sublingual

Zapeando idotamente uma colour TV

Em Times New Roman

Em negrito itálico sublinhado

Justificados centralizados esquerdos direitos

Boquiabertos com a última moda

Comendo um celular com alface

Comendo uma foto da Angelina Jolie

Comendo uma foto do Super Boy

Comendo um boi uma vaca uma galinha

Comendo uma avestruz uma égua um veado

Comendo um tuiuiú  e um cérebro de macaco à chinesa

Poemaremos num clube Vip

Numa sauna GLS num clube para mulheres

Num clube para homens de verdade

Num grupo de pessoas extremamente sérias

Histéricos históricos histriônicos

Numa roda de esculachados

Emitindo o mantra OM em meio a eso e exotéricos

Fazendo beicinho de magoados por qualquer bobagem

Poemaremos guiando carros sofisticados com GPS

Também carroças bicicletas carrinhos de mão

Logarítmicos clonados eugênicos

Geneticamente modificados mutantes esclerosados

Míseros doentios maníaco-depressivos

Pobres de bens e de espírito

Ocupados com um 69 um 38 um ménage a trois

Cheios de vergonha de pudor e tesão

Metidos a Alen Ginsberg da capoeira

Poemaremos feitos libélulas cisnes magnólias

Dálias camélias margaridas selvagens e silvestres

Tais orquídeas frescas e espirituosas

Gelatinosos lânguidos dobráveis em partes iguais

Pulverizados tal spray de lavanda ao ar

Febris delirantes espiritualmente incorporados

Brancos de neve vermelhos de pressão alta

Rudimentares homofóbicos soldados de chumbo

Utópicos a perder de vista céticos como uma mula

Cheios de vícios de linguagem

Estóicos niilistas socráticos putos

Santos demais para ocuparmos o hall paradisíaco

Demoníacos demais para não invejar satanás

Sinistros demais para estagiarmos no purgatório

Assombrando Dante Alighieri e os poetas malditos

Poemaremos numa  infra-sub-reptícia e oculta dimensão

Puritanos profanados acadêmicos marginais

Ingênuos maculados perdidos virginais

Para nossos narizes nossos umbigos nossos dedões

Machões cibernéticos ouvindo tecno em MP3

Fazendo up e download de musas soft-pornô

Acendendo velas virtuais para mortos que nunca vimos

Poemaremos suaves como pluma e paetês

Poemaremos até que rasguem esse poema

Que cuspam que vomitem que urinem que defequem

Que esqueçam posto que não esqueceremos

Seguiremos decassilábicos solecismáticos

Preciosistas como nunca esdrúxulos ecoantes

Caudalosos enfadonhos aborrecidos

Parabólicos hiperbólicos gradativos

Eufemismáticos apostróficos antitesísticos

Irônicos personificados reticentes retificados

Saltaremos de pára-quedas de vez em quando

Faremos o que manda o ritual do habitual

Seremos canônicos para inglês ver

Diremos hardware e software com rapadura e farinha

Poemaremos incandescentes em forno de microondas

Hidráulico cerâmico  termo-elétricos

Como se fôssemos os únicos a fabricarmos neologismos

Em AM/FM/WM CD ROM com programas em flash e asp

No limite do nojo que de nós sentimos

Tecnológicos incoerentes sabotadores inocentes

Feitos matracas pois parece fácil poemar

Tipo rio catarata corredeira intensos

Oh, quão intensos somos mas ainda não chegamos

Ainda que cheguemos não nos satisfaremos

Poemaremos poemaremos poemaremos

Poemaremos fazendo glub-glub e fuc-fuc

Até chamarmos o autor da cantilena de piegas

Démodé repetitivo sonolento antiescolástico

Poemaremos olhando um espelho de corpo inteiro

Estaremos nus e olhando por entre as pernas

Poemaremos com alguém fazendo cócegas com uma pena em nossos pés

Dizendo amém e saltando no vale dos sonhos

Cavalgando ventos indóceis e jogando pipoca a um leão de 7 cabeças

Ouvindo Chopin Mozart Tchaikovski

Seguido por um tecnorockforró

Mirando uma lua cheia com uma barriga vazia

Poemaremos outonais biônicos palmilhando folhas secas

Personagens de uma tela expressionista

Invernais ursos alvos polares hibernados

Veronescos como a periquita quente da madrinha de bateria carnavalesca

Alucinados bombados por uma torta de açaí

Poemaremos em iídiche copta sânscrito mandarim

Em Javascript Word Linux brâmane aramaico

Poemaremos dizendo jet’aime mon amour

Fazendo rallye sobre duas rodas no deserto

Por quedas d’águas descomunais

Por cenários improváveis

Diante do furor do mundo

Daquele beijo de amor enviado ao campo de guerra

Para alegrarmos a noite dos nossos mortos

Para quando mortos nos chamarem poetas saudosos

Poemaremos híbridos arregaçados sistemáticos

Cheios de descompostura cínicos toda vida

Prepotentes tiranos satânicos mordazes

Góticos punks vazados a piercing

Barbaramente tatuados parados no sinal de trânsito

Peomaremos observando a selva de pedra do alto Corcovado

Atravessando horas nas emaranhadas conexões de Internet

Analisando fotos explícitas vindas do telescópio Huble

Ganhando uma lambida na boca do cachorro

Enfileirando descrições hipotéticas numa folha de ofício A4

À beira da estrada naquela excursão do nosso tempo

Cegos tateando na claridade enxergando tudo no escuro

Poemaremos à exaustão e ao descanso

Lúcidos como um carvalho de 4000 anos

Vendo a História ser rachada em duas

Poemaremos poemaremos poemaremos poemaremos poemaremos poemaremos

 

 

 

Lecy Pereira Sousa, escritor e sócio fundador da Academia Contagense de Letras

lecypereirasousa@yahoo.com.br

 

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