Tanto
Manoel Lobato
Duas crianças num banco de praça: ele
estende o lenço sobre o banco para
que ela se sente sem receio de manchar o vestido. Ela senta-se,
cruza as pernas. E
sente-se segura, pensa o companheiro. Crianças,
não: colegas de ginásio, já adoles-
centes. Ele adivinha os seios da menina sem sutiã;
pensa na abertura do vestido
nas costas, vê o decote em V na frente, sem olhar
direito para o colo dela; fala na
ilogicidade do mundo, atropelando-se nas palavras; tenta
explicar seus sentimentos,
sem êxito. De vez em quando, nos recreios, tentava
explicar suas ânsias à colega,
mas falhava sempre. Às vezes, um gesto vale mais
que palavras; seus modos,
meio desastrados, têm sido neutros. Ela, olhos
sem medo, diz que só tem receio
da precariedade da vida, embora mal comece a viver. Pronuncia
a palavra PRE-
CARIEDADE sem pedantismo, bem devagar, evitando tropeçar
nas sílabas. Ela
tem o poder de alegrá-lo, e ele não sabe
se conseguirá explicar-lhe isso.
- A mulher é
mais intuitiva que o homem, ele diz.
- O ser humano é
um só, ela rebate.
Os dois jovens conversam como adultos bem informados,
cada um querendo ser
mais amadurecido que o outro. A moça assusta o
rapaz, falando numa espera, en-
quanto um tudo - nada fluiria com naturalidade; o menino,
quase menino mesmo,
se julga muito velho, suas mãos ficam frias, os
pés dormentes; seu estouvamento
lhe inibe o raciocínio - mais de dois anos de
espera: desde a 5a série do 1o grau -
e agora, ali, sem saber como se expressar e sem descobrir
a anuência da garota;
serenidade e mistério de uma dama; uma senhora,
sem dúvida, em sua conduta
na sociedade, de boas maneiras, que descruza as pernas,
sem ferir a etiqueta;
perplexidade dum pirralho que põe as mãos
no bolso.
Ora o moço
se arrepende de ter esperado tanto, ora arrepende-se de sua
afoiteza.
- Demorei
muito a lhe falar claro... ele, reticente...
- Estou
sem namorado no momento.
Fazem pose de gente grande, ambos com as naturais
especulações sobre esse
encontro, no término do curso ginasial; escolhem
termos difíceis, como se estives-
sem respondendo a um questionário recíproco
dos cadernos de lembrança que
trocam na juventude.
O homem confessa, noutras palavras, o medo de
se entregar, desnudando a
alma diante dela; agiganta-se com seus temores.
A mulher - transfigurada num
jeito infantil, frases meio nebulosas- fita seus olhos
nos olhos dele, sorri e tenta
encorajá-lo:
-A gente não é mais criança.
- O tempo passa.
Ludismo pueril para esconder o amor
que brota: os seios nascentes, as coxas
aparecendo ao cruzar e descruzar das pernas; as mãos
no bolso, o volume maior
ao lado esquerdo da braguilha. Que saberiam sobre o ato
de amar?
Ele talvez tivesse mais certeza de seus impulsos; não tem, porém,
segu-
rança alguma de si mesmo. Ela, segura de si própria,
ensais a promessa de se
acostumar com a idéia dum namoro sério;
por certo, serão colegas no 2o grau.
Com certo coquetismo, ela finge insegurança:
- Você é assim com todas no colégio.
- Com você sou diferente.
Ele quer citar o poema que a
professora leu em classe, no entanto tem receio
de que ela irá subestimar as metáforas.
Decorou os versos à toa. Poesia pode
ser o gesto apenas; palavra faz poema ou o destrói
também.
A dificuldade dos signos em
alegorizar o erotismo: resquícios das aulas.
Duas crianças num banco
da praça arremedam dois amantes. Como um
velho, sem muita esperança, ele se levanta, sem
tirar as mãos do bolso. Ela
se curva um pouco para a frente, levando a mão
direira ao decote; levanta-se
sem dizer nada; quer falar que o respeito pode ser até
na cama, entretanto se
conserva calada. O colega não irá entender
esse respeitpo na cama, ela imagi-
na. Despedem-se o cavalheiro e a menina; percebem que
já são dez horas da
noite. Precisam estudar as lições do dia
seguinte.
A praça partilha
a ternura do menino e da dama. O lenço, esquecido no
banco, vira um poema; os enigmas da vida e os absurdos
da morte.
O vento, leve e lento,
leva o lenço; a brisa lava o espírito dos dois. O moço
voa para sua casa; ele se sente um pássaro no
espaço. A moça cria asas:
vai voar.
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