![]() |
O SOL, ESPECTRO DO ABSURDO CAMUSIANO Lourenço Leite |
![]() |
O problema que Camus constata na realidade da África de seu tempo e de sua época, se expandiu, de tal forma, que hoje não se pode mais olhá-lo como algo restrito a um contexto cultural. Deveras, que o homem da tardia contemporaneidade moderna rejeita a cada dia. A solidão e o desamparo, próprios de uma vida que se esvaiu ao longo do tempo e a mercê da sorte, fizeram do homem atual um ser do cotidiano sem transcendência. A mesma realidade fora percebida por Camus na Argélia. Em Núpcias, sua obra fundamental sobre os eflúvios do tempo perdido, retrata magistralmente o vazio e as ruínas encontradas no deserto das almas argelinas. Desse sentimento de vazio e de perda, contudo, enlameado de Sol, Camus perpassa toda sua obra com uma noção de "absurdo", destacando, com isso, a paradoxalidade do mundo.O Absurdo, como Quimera do mundo, engendra a real possibilidade de unificá-lo e nomeá-lo na esfera do humano. Entre o mundo e o homem, o Absurdo camusiano adquire realidade como tiers exclu da consciência, figurando-se como realidade simbólica. Com efeito, seu entendimento só poderá se dar pela intuição. Realidade e efeito remetem ao terceiro elemento e criam a novidade do mundo na consciência. Sintoma, portanto, da experiência do homem no mundo, deixando fora toda e qualquer realidade que não provenha dessa experiência. Todavia, Camus introduz implicitamente uma distinção entre o niilismo e a negação absoluta. A verdadeira característica do absurdo, segundo ele em O Homem Revoltado,
O absurdo camusiano, além de se mostrar em seu pensamento como contradição, ao excluir os juízos de valor, é metaforizado na vida de seus personagens mais importantes, tais como: Meursault, em O Estrangeiro; Jean-Baptista Clamence, em A Queda, Martha, em O Equívoco e Calígula, em Calígula. Todos esses são protagonistas do absurdo e da presença do Sol em suas vidas. Meursault, por sua vez, rejeitara toda forma de regra e de convenção que colocasse em risco sua liberdade. Estrangeiro por excelência, em um mundo fundamentado de moralismos, tivera, como sentença maior, sua perda de liberdade, contudo, não olvidara que sua desgraça só tivera ocorrido por causa da onipresença do Sol. Jean-Baptista Clamence, o juiz-penitente da humanidade em estado de culpa, tenta, a toda prova, purificar-se do tédio e da angústia vividos na selva do cotidiano, alardeando-se, assim que possível, de sua autonomia absoluta, como se fosse possível flanar indiferente nos cais do absurdo em que o outro se tornava presença marcante. Martha, "antiantígona" da filia, rebela-se deliberadamente contra todo tipo de mérito augusto da existência, principalmente diante de seu irmão pródigo que viera também a assassiná-lo. Demonstração da experiência existencial mais fidedigna e mais pura, Martha não se deixa enganar por nenhuma forma de contingência humana que justificasse algum tipo de privilégio. Sempre estivera atenta e fatigada com o peso da existência, mas, mesmo assim, nunca tivera a sorte de poder caminhar descalça numa praia ensolarada. Calígula, imperador da consciência humana, encontrara o Absurdo a partir do momento que experimentara a perda de seu grande amor incestuoso. César do inconformismo, Calígula não sabe se indignar, mas sabe se angustiar com a impossibilidade dos homens morrerem sem serem felizes. Em cada um desses protagonistas do Absurdo reina a ambigüidade da indiferença. Ao tempo que revelam um desejo incontrolável com a presença de outrem, rejeitam-no acintosamente como se pudessem viver isolados e imaculados de toda e qualquer culpa. Mas, o Absurdo, desde que seja identificado, não permanece incólume aos efeitos da linguagem. Como bem afirmara Camus, "a absurdidade perfeita tenta ser muda", mas o silêncio possui uma das linguagens mais ensurdecedoras quando se trata de rejeição e de indiferença perante outrem. Desse modo, Camus, em O Mito de Sísifo, considera que o homem absurdo... [...] reconhece a luta, não despreza absolutamente a razão e admite o irracional. Desse modo, ele recupera a atenção de todos os dados provindos da experiência (CAMUS, O Mito de Sísifo, p. 55).Em vista disso, o homem absurdo não vive sob os paradigmas de razão nem de mores estabelecidos. A experiência norteia-lhe sua conduta apesar de conduzi-lo ao estágio da irracionalidade. Consoante tal caracterização, Camus utilizou seus protagonistas para evidenciar, tanto o "avesso", quanto o "direito", da existência humana no mundo. Prova disso, em seu ensaio sobre o Absurdo, O Mito de Sísifo, ele consagra atenção para o problema da moral...
O valor atribuído à vida, segundo Camus, é um valor que se move a partir de sua própria instância. A vida possui valor por si só. Senti-la, é, antes de tudo, impingi-la de força instauradora e criadora mesmo que se esteja em meio às ruínas do passado histórico ou cultural. O ethos permanece de certa forma, intacto. É nele que a presença do Sol faz deflagrar as insuspeitas crises de identidade, mas, igualmente, de revolta. Além disso, a Terra e o Mar formam, com o Sol, o triângulo amoroso de Camus. Entrementes, às suas núpcias com o humano, Camus regozijava-se com as ondas e com as águas tépidas de sua tão querida Argélia. Prova disso, pode-se, em seguida, ler Camus entoar o hino ao mar e a liberdade: É preciso que eu fique nu e, depois, mergulhe no mar e que, ainda perfumado de essências da terra, possa lavá-las nas águas desse mesmo mar, estreitando em meu corpo o abraço pelo qual suspiram, lábio a lábio, há tão longo tempo, a terra e o mar. Uma vez dentro d´água, é o sobressalto, a subida de uma viscosidade fria e opaca, depois o mergulho no zumbido dos ouvidos, o nariz a pingar e a boca amarga o nado, os braços polidos de água, saídos do mar para se dourarem ao sol e de novos abaixados, numa torsão de todos os músculos, a corrida da água sobre meu corpo, a posse tumultuosa da onda pelas minhas pernas e a ausência de horizonte. Na praia, é a queda na areia, abandonada ao mundo, uma vez mais de volta a meu peso de carne e osso, embrutecido de sol, lançando de longe em longe um olhar para meus braços, onde as poças de pele seca deixam a descoberto, à medida que a água escorre, a penugem loura e a poeira de sal (CAMUS, Núpcias, p. 13). Alguém que conseguira expressar nesse hino ao mar o sentimento de profunda liberdade, não poderia, mesmo que quisesse, enveredar pelos caminhos da terra árida da consciência nem pelos vieses da razão para falar de algo que se sente a partir do contato direto com a natureza. Sua inserção no mar, ao se banhar, causa à impressão dele estar em estado de volúpia com tudo que o cercara. Inicia-se com os sôfregos beijos do mar com a terra em que ele se coloca entre ambos. Em seguida, ao mergulhar na água, sente a penetração da água na terra que se estende ao seu corpo. Fatiga-se do mergulho e das braçadas agitadas em cima das ondas. Nessa copulação, ele goza e o seu sêmen se traduz em viscosidades que a água encarregara-se de acolher e se deixar, igualmente, fecundar. Por fim, exibe-se na praia aos cuidados do sol que se ocupa em bronzeá-lo. Ufa! Balbucia Camus estirado na areia coberto de sal, deixando-se secar pelo vento do prazer e da volúpia. A exigência de viver com experiências de outrora, fizera de Camus um homem de seu tempo, mas, sobretudo, um homem além de seu tempo. Sua vida tivera sido marcada pela experiência mística com o absoluto, assim como Orfeu, doravante não pudera mais suportar sua ausência. Contudo, como bem afirmara em O Mito de Sísifo, "Viver é fazer viver o absurdo. Fazer viver é antes de tudo olhá-lo. Ao contrário de Eurídice, o absurdo não morre apenas quando se olha para trás" (p. 70-71). É preciso que se possa encará-lo no decorrer da existência para, igualmente, fazê-lo morrer. O virar-se orfíco cede lugar ao olhar de frente camusiano. Profeta dos excluídos e dos revoltados, esse argelino estivera inteiramente embevecido pelo néctar da vida e pelo brilho do Sol, sua primeira e última instância metafísica. Nele, Camus projetou, além de sua vida, a vida de toda humanidade. Esta marcada pela Culpa tenta soerguer-se da queda edênica e recuperar-se da ausência do absoluto que, por conseqüência, engendra a ausência de outrem. Apesar de querer amainar essa dor incurável, Camus não mede esforços, como afirmara outro eminente interprete de seu pensamento, Morvan Lebesque, em colocar a humanidade no confessionário e esperar, como se viu em A Queda, que ela saia regenerada. Mas para que o homem redima-se, a si próprio e aos seus semelhantes, é necessário que a repetição de seus atos, desfigurados de ética, sejam substituídos pelo regret. Notadamente, o remorso impregnado na consciência o conduz a rever sua indiferença. Fora isso, ter-se-ia apenas um tipo de homem blazé. O Sol, portanto, intermediário da razão, pontifica o homem com sua humanidade, isto é, com sua natureza. Mas, antes de conjecturar sobre isso, Camus experimentara-O em sua própria carne: Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha divindade. Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade, sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento (O Avesso e o Direito, 1995, p. 18). Quem vivera desse modo não poderia deixar de ser um artista. A arte,
para ele, além de ocupar um lugar de destaque na estética da existência, retira-o da
conformidade com o estabelecido. Ela opera em Camus a mudança de olhar o mundo, mesmo
que, esse mesmo mundo apelasse sua transformação. Ora, se porventura Camus pretendera
mudar alguma coisa, teria sido a vida. Sua própria vida fora exemplo dessa mudança e
desse soerguimento. Nada o houvera impedido de transpor as contingências que lhes foram
impetradas. O mundo, por seu turno, não poderia ser mudado. A revolução, para Camus,
deveria começar no próprio homem, ou seja, em sua própria vida. A revolução que
poderia mudar o mundo houvera fracassado em meio a todas as tentativas ascendentes. Por
isso, a configuração do mundo moderno apela por uma mudança, sim, mas que se inicie no
seio de suas causas e não nos apanágios de suas absurdidades. Frente a esse tipo de realidade, Camus percebera que viver era mais importante que morrer de peste. Suas contingências sociais (órfão de pai e educado por uma mãe analfabeta) e físicas (tuberculose quase sempre presente) não o impediram de continuar a viver como se estivesse sempre em boa forma. A vida, portanto, era-lhe infinitamente cara. Todavia, as formas de negação da vida deveriam ser extirpadas, porque, como afirmara, já em Núpcias: "[...] o que me nega nesta vida é, antes de tudo, o que me mata. Todas as coisas que exaltam a vida aumentam ao mesmo tempo seu sentido de absurdo" (Núpcias, p. 38). A prodigalidade de Camus frente ao Absurdo vem acompanhada de sua incoercível autenticidade com a vida que fazia tremer toda forma de mediocridade e toda indiferença com o outro. Nota-se, ainda em Núpcias, essa sua atitude frente ao que é mais sagrado: "Se deveras existe um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de se desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta" (Núpcias, p. 39). O seu "antiescatologismo" e anticlericalismo nunca foram demasiados nem colocaram em questão a presença do sagrado no mundo. De fato, seu ateísmo fora um dos mais genuínos testemunhos de Deus. Alguém que reconhecera e definira Deus como sendo a prova da mais pura inconseqüência e inumanidade, não pretendia, sob molde nenhum, "antropormofizá-Lo". Com isso, Camus não vicejava reduzir a humanidade a Deus. Deus, instância plena, é Alguém irredutível a toda e qualquer forma humana, mas que só se pode admiti-Lo quando sua divindade toma assento no Gólgota na existência. Deliberadamente, sobre essa concepção, afiançara Camus: "Foi por invejar a nossa dor que Deus veio a morrer na Cruz. Esse estranho olhar que ainda não era o seu..." (Cadernos III, p. 100). Estranho olhar que se oportuniza, como o Kairós, para entrar no mundo. É notório que Camus, apesar de nunca ter assumido sua crença em Deus, nem na Igreja nem em Jesus Cristo, sinaliza através de suas obras a sua marca da tradição judaico-cristâ. Morvan Lebesque, um dos comentaristas do pensamento de Camus, quiçá, o mais autêntico, destaca em sua obra Camus par Lui-Même, citada inúmeras vezes nesse estudo, o traço cristão de Camus. Atenção justa faz-se, visivelmente pelos títulos de suas obras: Os Justos, A Queda, O Exílio e o Reino, A Peste, A Devoção da Cruz, Réquiem para uma Freira, Os Possessos, A Mulher Adúltera. Além disso, pode-se, igualmente, verificar os nomes de seus personagens ou de seus títulos de estudo: Martha e Maria d´O Equívoco, Os Filhos de Caim d´O Homem Revoltado., Jean-Baptiste Clamence d´A Queda. Contudo, apesar de Camus, não utilizar os dogmas irrefutáveis da teologia cristã, reconhece e capta as suas influências, inclusive, localizando-as em autores que lhe serviram de referência para a compreensão da condição humana. Em seu capítulo, Os Filhos de Caim, d´O Homem Revoltado, encontra-se um sumário dessas marcas e da configuração de um Deus cruel e caprichoso construída ao longo da história. Camus não se importunara com a feição de um deus cruel nem caprichoso. Tanto mais se admitisse um deus dessa ordem, mais distante do humano o homem se encontraria. Ele queria, tão-somente, revelar a verdadeira face do humano no homem. Tampouco, não pretendia defender nem enaltecer a força imperiosa das ideologias que reduzem o homem à história. A única história verdadeira é aquela em que o homem escreve sua autonomia e independência nos anais de sua vida, contra tudo que o torna inumano. Por isso, o prazer da vida, segundo Camus, é a medida de se saber que é possível ser feliz. Vale notar esta citação em O Homem Revoltado sobre a vida feliz: "Necessita-se de rara vocação para ser um hedonista. A vida de um homem se realiza sem a ajuda de seu espírito, com seus recuos e seus avanços e, ao mesmo tempo, sua solidão e suas presenças" (O Homem Revoltado, p. 39). Desde que se tenha experimentado o gozo da vida a felicidade torna-se possível e pode ser mantida. A felicidade, não é, desse modo, o impedimento nem o abafamento da alegria que abriga a tênue flâmula da eternidade. Camus, frente à onda avassaladora da ocupação nazista em Paris, não perde tempo em denunciar essa peste que se propaga e faz de seus hospedeiros agentes de disseminação. Com efeito, a força imperiosa da peste substitui o esplendor do Sol. Ao sinalizar as intempéries desse mal que se torna, inclusive, o mal do Século XX, Camus, em A Peste, preconizou a ausência do Sol. A jocosidade irônica de Camus perante a proliferação da peste insinua que uma sociedade em estado de sítio, como aquela de Oran, perdera "as primaveras do mundo" e se entregara aos efeitos funestos de uma epidemia que realça a morte e inibe a vida. Contudo, retomar, quase sempre, a presença do Sol, é, nessa perscrutação dissertativa, restaurar, com Camus, o diálogo impetrado com as pedras e a carne, tal como se verifica em seguida: [...] à medida que o mês de agosto transcorre e o sol se avoluma, a brancura das casas vai-se tornando cada vez mais enceguecedora e as peles tomam um calor mais profundo. Como seria possível deixar de identificar-se com esse diálogo entre a pedra e a carne, marcado pelo ritmo do sol e das estações? (Núpcias, p. 29-30). Em Camus, não há tergiversação do tema "Absurdo" e do "Sol". Recorrentemente, pode-se encontrá-los em todas as suas obras. Não há nele uma evolução desses temas que, em determinado momento, adquirir-se-iam outra conotação. O Absurdo, quando não está presente e nomeado, aparece sub-repticiamente como se evocasse a saída de sua clausura. O Sol, quando não se mostra causador do destino, metaforiza-se em antônimos que fazem, obrigatoriamente, reocupar o seu lugar. Tanto um quanto outro, vociferam um tipo de entendimento da realidade que somente o conhecimento simbólico teria sustentação. Isso somente é possível porque Camus não pretende categorizar o real da existência. A experiência humana é traduzida, assim como os gregos fizeram antes da filosofia, na engendração dos mitos. Contrariamente, agrilhoado e a mercê do domínio do conhecimento, o homem tem se "dado conta", que, mesmo em meio a todas as possibilidades de objetivação do real, algo permanece oculto e indecifrável. Porém, o conforto da falta da presença da totalidade do real é sentido pelo corpo humano que, além de suas sensações, também pode acolher o indescritível. Essa linguagem dos sentimentos, do tato, da dor ou da esperança, pode-se encontrar no mito. Camus, por sua vez, ao tratar de questões que se justificariam pela razão, utiliza-se da inteligência intuitiva que captura o real com dados provindos do corpo. A intermediação, portanto, como meio de ligação entre o concreto e o racional, tradicionalmente exercida pela filosofia, nem sempre encontra lugar no pensamento camusiano. Levando, inúmeras vezes, críticos de plantão, questionarem a sustentação filosófica de Camus perante elementos que requereriam uma categorização metafísica. Ao responder a essa indagação, Camus, reitera-se: Quanto a mim, não sei o que procuro, menciono a questão com prudência, desdigo-me, repito-me, avanço e recuo. Obrigam-me, ainda assim, a dar-lhe nomes determinados ou a defini-la uma vez por todas. Sempre que isso ocorre, irrito-me; aquilo que se define já não estará perdido? Eis, ao menos, o que posso tentar exprimir (Núpcias, p. 111). Posto o questionamento, a resposta decorre de seu estilo
mítico-poético, sem, contudo, resvalar por uma negação da filosofia. Conscientemente,
sabe-se que a filosofia grega, ao tempo que trouxe para o âmbito da razão a compreensão
do real, simultaneamente, ao "logogizá-lo", decretou sua falência inovadora,
propagando-o, ao longo da história do pensamento ocidental a repetição do mesmo.
Repetir, por conseqüência, enleia no espírito humano, de um lado, a
conformação, de outro, a resignação. O primeiro enquadra-se facilmente aos moldes da
ideologia que almeja transformar o mundo, para que os homens vivam em igualdades de
condições. O segundo reduz as contingências ao poder divino de recuperação e ameniza
as dores do mundo. A história, evidentemente, para Camus, é aquela em que narra a vida humana repleta de percalços, de sensações e de revolta. O romance, como meio literário dessa revolta, traz a público o poder que é conferido ao homem quando dele brota a inexpugnável presença da diferença, o amor. Com isso, faz da história do homem algo que só pode ser entendido pelo coração. A arte do existir, portanto, ao refletir esse paradoxo, não se envergonha em ser diferente da maioria. Ela somente é arte porque pode revelar, desde sempre, a inovação do existir. O "ama e faze o que quiseres" agostiniano se atualiza nessa perspectiva camusiana e, sem querer cristianizá-lo, unimo-lo ao grupo dos eleitos que habitam no panteão da imortalidade. "A meio caminho entre a miséria e o Sol", esse argelino não é mais francês, nem europeu; nem africano nem latino-americano. Seu porte literário e filosófico atinge os píncaros do conhecimento para toda a humanidade. Esse Prometeu da atualidade revigora as estações primaveris do cotidiano e revela a potencialidade humana como, talvez, nenhum dito existencialista tenha tido a coragem de fazer. O pied-noir do Absurdo contribui para que, com a revolta
absurda, "nasce (a) então a estranha alegria que nos ajuda a viver e a morrer e que,
de agora em diante, nos recusamos a adiar para mais tarde. Na terra dolorosa, ela é o
joio inesgotável, o amargo alimento, o vento forte que vem dos mares, a antiga e a nova
aurora" (O Homem Revoltado, p. 350). Para concluir, apropriar-se-á de uma das falas
dos personagens do filme de Mohsen Makhmalbaf, A Caminho de Kandahar: REFERÊNCIAS
Professor de Filosofia, credenciado no Mestrado em Filosofia da Universidade
|
||