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NÃO HÁ LITERATURALucia Castello Branco
"Não há Literatura.Quando se escreve só importa saber em que real se
entra e se há técnica adequada para abrir caminho a outros".
Assim escreveu Maria Gabriela Llansol, em 1984. E talvez seja preciso ainda que alguns
anos se passem para que possamos receber, sem muito espanto, estas palavras. Sobretudo
quando a autora, em outro momento, declara escrever "para que o romance não morra". O romance, então, definitivamente exilado do campo da Literatura, pode talvez, no sistema teórico fundado pelo texto de Llansol, ser abrigado por um outro campo:o da escritura, ou, como a
autora define, o da textualidade. E aí, nesse lugar em que as noções do literário e do romanesco
se expandem a ponto de virem a tangenciar os domínios da escrita - a "margem da língua", como quer Llansol - é preciso que se comece a admitir uma certa expansão do conceito de Literatura
em direção à escrita, ou, mais propriamente, ao que Barthes denominou de escritura. Nesses domínios, pode-se pensar no desejo da escrita em sua dupla via: trata-se não só do desejo do escritor pela estrita, mas do desejo da própria escrita, que é então percebida em sua natureza
de ser autônomo daquele que julga possuí-la, o escritor.Barthes já apontara para esse deslocamento em suas formulações acerca do texto de gozo. Aliás, é mesmo esse deslocamento que está na base da construção de O Prazer do Texto, livro em que o leitor é sutilmente transportado da noção corriqueira de que os textos podem provocar prazer no leitor para a idéia inquietante de que os textos têm o seu prazer. "O texto me deseja" , diz Barthes, e é também nessa direção que eu gostaria de pensar, neste texto, sobre um desejo da escrita: não exatamente um desejo do escritor, mas um desejo da própria escrita. E porque se trata do desejo (e da escrita), decido correr o risco de me deixar levar pelo tom insustentavelmente leve do depoimento para tentar chegar (se a insustentável leveza o permitir), à densidade do pensamento, do desejo de pensar.x.x.x
Quando eu era menina e me perguntavam aquelas perguntas que sempre se fazem às crianças, eu dizia: "quero escrever, quero ser escritora". Colocava-se aí, em primeiro plano, o meu desejo da escrita, talvez maior que aquele que eu manifestava pelas bonecas ou por outra espécie de jogo.
Hoje, quando já não sou mais menina e quando outras espécies de jogo ocupam meu desejo -dentre elas, o desejo de pensar --, ainda sou capaz de dizer: "quero escrever, quero ser escritora". Mas nesse querer já não posso mais me colocar como um sujeito que escolhe e determina. As coisas já não me parecem assim tão simples. Nesse querer me coloco então como alguém que foi por ela -- a escrita -- atravessado. E quando digo "quero escrever", imediatamente escuto, em algum canto de mim: "ela, a escrita, me quer".
Talvez seja esse o sentido mais literal de um dos meus livros, escrito em co-autoria com a Ruth Silviano Brandão: A Mulher escrita. Ali, quando objetivamente teorizamos sobre duas modalidades de texto -- uma que se debruça sobre a representação feminina, outra que se constrói numa
dicção feminina --, outra coisa também se escreve: a mulher, uma mulher que um dia foi escrita por ela, a escrita. Não sei se a Ruth diria também que essa mulher é ela, mas hoje, passados quase dez anos da publicação desse livro, eu posso dizer que essa mulher -- a mulher escrita -- sou eu.
"Escrevo porque sou incumbida", costumava dizer Clarice Lispector. E creio que o que Clarice aí proferia não era exatamente uma frase de efeito. Assim acontece com alguns, que não parecem escrever por escolhavou por prazer, mas por necessidade, por incumbência. Trata-se, em última
instância, do movimento do desejo, sabemos. Mas é do desejo da escrita, mais que do desejo do escritor, que alguns nos falam:
Era uma vez um animal chamado escrita, que devíamos, obrigatoriamente, encontrar no caminho; dir-se-ia, em primeiro, a matriz de todos os animais; em segundo, a matriz das plantas e, em terceiro, a matriz de todos os seres existentes. Constituído por sinais fugazes, tinha milhares de paisagens, e uma só face, nem viva, nem imortal. Não obstante, o seu encontro com o tempo
apaziguara a velocidade aterradora do tempo, esvaindo a arenosa substância da sua imagem.
Esta, dentre inúmeras outras formulações de Llansol, afasta-nos do campo da Literatura para nos lançar em domínios mais amplos ("escrever é amplificar pouco a pouco", ela dirá em Um Falcão no punho): os domínios da escritura. E aí já não se coloca, em sua autoridade, a figura do escritor, mas a da escrita, matriz de todos os animais, de todas as plantas, de todos os seres existentes. Porque a escrita desde sempre esteve lá. Sem opor-se à fala -- essa instância considerada primeira, por teorias que reduzem a escrita a um registro da fala --, sem circunscrever-se apenas à Literatura -- essa instância considerada muito rapidamente apenas como o abrigo do imaginário e das ficções do sujeito --, a escrita, esse ser constituído por milhares de paisagens e sinais fugazes, desde sempre esteve lá. É esse o pensamento teórico de Derrida e de Lacan, que reconhecem a anterioridade e a primazia da escrita com relação à fala, além de considerarem-na também como um sistema utônomo da linguagem. É Lacan quem, em vários de seus seminários, privilegia a escrita, demarcando, em suas tentativas de cercar o conceito destacado da noção de linguagem, os
conceitos de significante e de letra :
É justamente aqui que se trata de captar mais de perto a relação da significância à estrutura visual, a qual se encontra, por força das coisas, a saber, pelo fato de que parece, até nova ordem, que nós não teremos nunca nenhum rastro da voz dos primeiros homens, é certamente do estilo de
escrita que nós encontramos as primeiras manifestações nele da palavra.
Se não há rastro da voz, a escrita, por sua vez, constitui-se no puro rastro, no traço que, anterior o sujeito, nele escreve, inscrevendo-o na ordem do simbólico, de maneira a podermos dizer que "a escrita habita desde sempre a palavra e, sem a primeira, a segunda não seria abordável." Daí a emoção indescritível de Lacan, ao se deparar com a costela de uma espécie de antílope ou cervo, no museu de Pré-História de "Saint-Germain de Laye". Trata-se, evidentemente, de emoção pela constatação da anterioridade e da prevalência da escrita, esta "matriz de todos os
animais":
Como transmitir-lhes essa emoção que tomou conta de mim quando, debruçado sobre uma dessas vitrinas, eu vi, sobre uma costela fina, claramente uma costela de mamífero -- eu não sei bem qual, e eu não se alguém saberia melhor do que eu, tipo de cabra ou cervídeos -- uma série de pequenos riscos: primeiro dois, depois um pequeno intervalo e, em seguida, cinco, e depois tudo recomeça." Primeiro dois, depois um pequeno intervalo, em seguida, cinco. Estavam
aí, nesses petits batons que emocionam Lacan, as primeira letras, os fundamentos da escrita.
x.x.x
De qualidade análoga parece ser o alumbramento de alguns escritores que, despossuídos de si mesmos, parecem manifestar essa anterioridade da escrita em textos que atestam, de maneiras distintas, a possessão do sujeito pela letra. Assim se declaram, por exemplo, escritores como
Artaud -- para quem a literatura interessava bem pouco -- ou Joyce -- que se interessaria não exatamente pelo literário, mas pelo percurso do "homem de letras". Assim se declaram, em seus textos ou fora deles, falando dessas questões ou fazendo-as operar em seus textos de maneira a produzir neles não exatamente um efeito literário, mas um "efeito de escrita", três escritoras da contemporaneidade: Clarice Lispector, Maria Gabriela Llansol e Marguerite Duras. Basta uma breve leitura da obra dessas três autoras para que se perceba o quanto o conceito de literatura é ali deixado de lado, abrindo espaço para os conceitos de escrita/escritura. São inúmeros os exemplos nas obras dessas autoras. Tomemos apenas três (um de cada uma delas), que me parecem contundentes:
Destituo-me da literatura e passo para a margem da língua (...) a reflectir que devia me perder da literatura para contar de que maneira atravessei a língua, desejando salvar-me através dela.
Acho que é isso que condeno nos livros, em geral, o fato de que não são livres. Vê-se isto através da escrita: eles são fabricados, organizados, regulamentados, convenientes, poderíamos dizer (...)
há ainda gerações de mortos que fazem livros pudibundos. Mesmo os jovens: livros charmosos, sem o menor prolongamento, sem noite. Sem silêncio.
Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo- ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco se me dá. nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado que eu, por falso respeito humano, não dei. Seja por uma tentativa de screver o borrão vermelho, o grito ou o silêncio, a "literatura" produzida por essas autoras terminará por
promover uma dissolução do próprio literário, desembocando no que Llansol denominará de "margem da língua". E porque não se trata mais da constituição de um Sentido, mas da disseminação de diversos sentidos, em diversas direções, o conceito de literatura torna-se insuficiente para
comportar essa travessia da escrita que termina por desembocar na escritura. Exilados da literatura e possuídos, radicalmente, pela dimensão escritural da língua, esses textos se aproximam, perigosamente, da loucura. A esse respeito, pronuncia-se, com extrema precisão, Marguerite Duras: Eu tento traduzir o ilegível, passando pelo veículo de uma linguagem indiferenciada, igualitária. Eu me privo então da integridade da sombra interna que, em mim, balança minha vida vivida. Sou arrebatada pela massa interior, faço por fora o que devo fazer por dentro (...)
Mutilo-me da sombra interna, no melhor dos casos. Tenho a ilusão de que me ordeno
quando me despovôo, que faço a luz quando a apago. Ou então faz-se toda a luz e se está louco. Os loucos operam por fora a conversão da vida vivida. A luz luminosa que penetra neles caçou a sombra interna, mas a substitui. Só os loucos escrevem completamente.
Mas aqui não se trata exatamente da loucura, já que só os loucos escrevem completamente. Trata-se, antes, da escritura, essa matéria ainda amorfa, essa massa interior que traga aquele que escreve e aquele que se abre à leitura desses textos. E aí, parece-me, já não se pode
falar em desejo da escrita como um desejo de escrever, mas como o desejo dela, a escrita, naquele que por ela é possuído. Esta possessão, parece, não se dá sem lutas, sem resistências, sem dor,
como o atesta, também, Marguerite Duras:
A escrita sempre foi destituída de quaisquer referências (...) portanto, é sempre a porta aberta para o abandono. Existe o suicídio na solidão de um escritor. É possível sentir-se sozinho no interior de sua própria solidão. Sempre inconcebível. Sempre perigosa. Sim. Um preço a pagar por ter ousado sair e gritar (...) Isso também existe na função de escrever e sobretudo, talvez, dizer a si mesmo que não é possível se matar todos os dias, visto que é possível se matar a
qualquer dia.x.x.x.
Mas entre a solidão do louco e a solidão do escritor, mora, também, um abismo. Nele se debruçam alguns, os beiramismos como Clarice, Llansol e Duras. Nele se lançaram outros, como Artaud, Hölderlin. Entre essas duas solidões, a do louco e a do escritor, uma terceira se coloca, em sua alteridade radical: a da escritura. Dela só sabem aqueles que, despossuídos da literatura e do desejo da literatura, foram por ela, um dia, habitados. Essa solidão, que Maurice Blanchot denominou de "solidão essencial", pertence, pois ao campo da obra, esse inalcançável que o
escritor deseja alcançar, só lhe restando, no movimento em direção à escrita, habitar [rovisoriamente: Aquele que vive na dependência da obra, seja para escrevê-la, seja para lê-la, pertence à solidão do que só a palavra ser exprime: palavra que a linguagem abriga dissimulando-a ou faz aparecer quando se oculta no vazio silencioso da obra. (...)
O escritor pertence à obra, mas o que lhe pertence é somente um livro, um amontoado mundo de palavras estéreis, o que há de mais insignificante no mundo. Quando essa solidão se instaura, quem fala já não é mais o escritor, mas seu silêncio. Dele emergem sinais, manchas gráficas, rumores, grunhidos. Se pudesse significar, essa matéria escritural, ainda assim, não nos apaziguaria. Pois ela não faria mais do que nos lançar de volta ao silêncio do qual, desavisadamente, um dia, emergimos:
Escrever é fazer-se eco do que não pode parar de falar -- e, por causa disso, para vir a ser o seu eco, devo de uma certa maneira impor-lhe silêncio. Porporciono a essa fala incessante a decisão, a autoridade do meu próprio silêncio. Torno sensível, pela minha mediação silenciosa, a afirmação ininterrupta, o murmúrio gigante sobre o qual a linguagem, ao abrir-se, converte-se em imagem, torna-se imaginária, profundidade falante, indistinta plenitude que está vazia. Esse silêncio tem sua origem no apagamento a que é convidado aquele que escreve. Felizmente, a escrita, esta que nos decompõe, é também capaz de construir palavras, frases e, com eles, fazer algum sentido. E aí
estamos de volta, senão à Literatura, ao reino apaziguador de uma certa ficção que encobrirá, com seu véu de beleza, o horror do real. Para que o romance não morra, a escritura é capaz também de fazer ficção. E tudo, então, não terá passado de um sonho. Sonho de um dia "em que a presença que de nós ficará dos textos não será a do nosso nome próprio. Em que os signos da nossa
travessia serão destroços de combate, toques de leveza o que eu esperava ficou, ficou a chave, ficou a porta, ficou a pedra dura ao luar.
Regresso a casa através da serra em que plantas brilham como não sendo casa numa cidade.
Sou aturdida pela presença da vossa escrita, que me acompanha pelas vertentes e pelas ruas. Caminho, e o pensamento caminha a meu lado: 'o medo torna os homens densos'. Os poetas
deixarão de submeter-se à poesia. Quem escreve irá além da mágoa. Os animais, fascinados pela
benevolência do buda, sensata e moderadamente, indicam o pacto de bondade que a todos une.
Os homens saem de sua identidade. E o texto arrasta-nos para os lugares da linguagem onde
seremos seres de fulgor, indeléveis e diáfanos última parede iluminada de uma casa que se apagou, numa das avenidas da cidade serrana
onde reina ainda uma profusão amarga de sinais." Deste sonho que esbarra no horror do Real, alguns, algumas -- os "devotos da escritura"-- não desejam nos fazer despertar.LLANSOL, O sonho de que temos a linguagem, Colóquio-Letras, 1997, p.
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