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Julio Saens
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ALÉM DA
DESPEDIDA
Lucilene Machado
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Eu lhe perdôo JB por ter puxado o cobertor nas noites frias de inverno com
aquele ar egoísta de se sentir dono do mundo, sem se dar conta de que eu estava sofrendo
de dor nos ossos. Mas, como é que você poderia perceber, não é? Você é míope e,
evidentemente, tira os óculos ao se deitar. Ah, como sou boba de ainda ficar remoendo
essas coisas, faltou-me paciência, eu sei, coisas de quem tem o temperamento difícil,
era o que você sempre dizia. Acho que você estava certo. Pôr isso, lhe perdôo.
Perdôo-lhe, também, todas as vezes que você dormiu enquanto eu lhe falava do meu dia,
das crianças que não quiseram comer, do menor que teve febre, do gás que acabou na hora
do jantar... mas que conversa, né, você sempre cansado com os seus afazeres e eu lhe
falando do gás. Logo você que morria de raiva daqueles caminhões tocando "Pour
Elise". Ah, e o que eu tinha de ficar comentando essas histórias?! Pobre de você,
já tinha que ouvir tantas histórias durante o dia! Por isso eu lhe perdôo e estendo
também esse perdão a todas as vezes que você não adivinhou os meus desejos secretos,
que nem eram tão secretos assim, estavam expostos na minha cara, na minha roupa, no meu
perfume... e eu ficava me encostando, achando um jeito de mudar os significados das
palavras pra que você entendesse e transgredisse as formalidades uma vez na vida... mas
você dizia boa noite e pronto. E eu ficava ali olhando para as paredes, fixando o olhar
num ponto e noutro tentando domar o que havia dentro de mim. Ah, JB, eu lhe perdôo por
você não ter me ensinado o que eu precisava aprender. A minha alma dissimulada vivia se
jogando ao mar, mas na verdade eu nunca passei dos lençóis. E você sabia JB, você
sabia de geografia, de essência...
pecado, nem por nada. Entretanto, não lhe guardo rancor e ainda lhe perdôo pelos
bilhetes que você não respondeu. Pelos convites de jantar que você não fez. Pelas
flores que você não mandou. Pelas palavras de amor que você não disse. Pela falta de
entusiasmo e
por aquela tua maneira preguiçosa de achar que até pensar era inútil... eu lhe perdôo
por aquela admiração tola que você tinha por você mesmo, pelo sucesso arrogante que
você julgava só seu e pela maneira de me fazer sentir tão pequena. Não tem problema
JB, eu sei que chegou a hora da verdade, a hora em que a vida presta as contas e você
ficou com o saldo negativo.
Saldo negativo é eufemismo, JB. Você ficou mesmo foi com um grito entalado na garganta.
E nem gritar você pode, porque o grito é mudo e seco. Um grito que corta o peito, rasga
a alma e não sangra. Como é horrível a dor que não sangra! Por isso, consternada, lhe
dou o perdão. Quem sabe ele ameniza a sua angústia. Prometo não mais lembrar das
mentiras, nem da sua insanidade. Tantas vezes você enlouqueceu, não é mesmo? E deu
murro na mesa, chute na porta, gritos ao vento... e às vezes algum objeto caía,
quebrava... e eu ficava com medo, me escondia numa ausência distante, mas depois ouvia
sua voz e voltava numa vertigem estúpida. E tinha a visão duplicada, a cabeça rodando,
ruídos perturbando meu raciocínio e aquela impressão de coisa já vivida, reprisada...
uma desproteção de casa derrubada. E ficava, e chorava... e tinha vontade de saltar do
prédio num só impulso e me imaginava lá em baixo de braços em cruz , a roupa suja,
cabelo sujo, lágrimas e sangue misturados sob o sol ardente e você em pé fingindo não
entender o porquê de tudo. E esse pensamento foi crescendo JB, foi tomando forma, ficou
próximo de um sonho, às vezes me dava um quase prazer ter a carne contraída naquela
espécie de sentimento... comecei a ter o desespero calmo dos que enlouquecem, você
percebeu, não é? e isso eu não perdôo JB, não perdôo, não perdôo!
Assinado: MD

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Lucilene Machado - publicou "Plântula" -
poesia e "O Gato Pernóstico" - Literatura Infantil.
No prelo "Coisas de Mulher" - crônicas. Cronista no Jornal "Correio do
Estado" - Campo Grande - MS
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