TV MINAS - reproduçãoJoão Gilberto Noll   e o céu aberto do niilismo contemporâneo

Luís Eustáquio Soares

vivemos na época do capitalismo do desastre, do capitalismo do ódio ao mundo, em que bilhões de dólares circulam o planeta em tempo real, numa volta ao mundo em milésimos de segundo, em que as multinacionais do poder financeiro,industrial, midiático e militar se oligopolizam, tornando-se cada vez mais um único poder, o panóptico da vídeo-interferência, com poder de criar um mundo à parte, uma ilha da fantasia em que 1/5 da humanidade se torna "livre" parausufruir, a um tempo, os direitos econômicos, sociais e civis de liberdade de expressão, de liberdade sexual, de liberdade de ser e de estar, de escolher osrumos de suas identidades politicamente corretas, enquanto os outros 4/5 se
tornam o quieto animal da esquina, anônimos seres condenados ao continente, em oposição às ilhas das fantasias virtuais e virtuosas.nesta asséptica, soft e futurista infovia do céu para poucos, a do humanismo
bélico - claro, para garantir exclusividades -, a virtualidade das pirotecnias tecnológicas se impõe sobre o mundo lá fora, e tudo magicamente se inverte, já que as ilhas das fantasias vão se transformando num imenso virtual mundo, num verdadeiro walldisney, uma disneylândia de consumos dispendiosos, do café sem cafeína, do imperativo do gozo, do princípio do prazer individual e egoísta, um outro mundo-ilha, enfim, em oposição ao mundo do continente, no qual os seres vivos deste planeta são cada vez mais empurrados para as Faixas de Gaza ou para as reservas ambientais, para os guetos, de tal maneira a se palestinizar, a se iraquizar, a se afeganistãotizar, sem direitos econômicos e sociais, e ironicamente livres para usufruir os direitos civis de desejar alcançar o mundo virtual oligopolizado. basicamente, é nesse mundo lá fora, desvirtualizado, arrasado pelas bombas de todos os desprezos e cinismos, que a literatura de joão gilberto noll expressae, por que não?, denuncia o céu aberto do niilismo contemporâneo, sob o qual soçobra o anonimato de quietos animais das e nas destroçadas esquinas miseráveis, o lúpen do mundo pós-operariado. por minha vez, é nesse mesmo mundo desvirtualizado que gostaria de produzir um texto de irrequietos animais de encruzilhadas, em que a linguagem, doravante chamada simplesmente de você, se perde em si mesma, misturando o virtual e oreal, a ilha e o continente, fazendo-se ensaio de narrativa, narrativa depoesia, poesia de ensaio, de tal maneira que você, a linguagem, você, quandovocê começou a escrever esse troço, aqui, agora e antes, você não pensava oautor, o narrador, o personagem, você é circular, é tudo e é nada, você, você,não pensava em fazer uma narrativa, você, a linguagem, não tinha pensado assim,"vou fazer uma narrativa de ficção, vou escrever um romance, e vou sentar emfrente a um computador, e vou digitar estas letras garatujas, pra narrartramas, e dramas, e tragédias, e lirismos, e catarses, e espasmos de estupros",mas você, você, linguagem, o que faz? ou, de outro modo, o que não faz? porque, pra você, escrever é sempre um não escrever? Será que você tem tanto ódioassim da escrita, por ter sido, e ainda é, uma analfabeta durante tanto tempo?Vem daí o seu ódio à escrita, a sua incapacidade de fazer aquilo a que sepropõe, quando escreve, uma ficção, só isso, uma ficção, precisa de uma tramabem urdida, de personagens bem construídos, de uma dramaturgia, um fora devocê, não narcisista, um fora de você, uma exterioridade, uma ficção, e vocêfora da trama, só isso, porque o autor, a história, o mundo e o sujeitomorreram e é por isso que você deve apresentar os personagens, já no desenrolarda narrativa, apresenta-os vivendo narrativamente, e, pensando nos afetospós-modernos, tente fazer um romance pós-moderno, sim pra servir de exemplo às faculdades de letras, quem sabe, um romance pós-moderno, desfronteirizado, comum narrador lá em paris, lá em nova iorque, mas ao mesmo tempo em belo horizonte, em são paulo, na áfrica do sul, em vitória, em pequim, olha que interessante, um bom modelo globalizado, sem esquecer o local, a localidade dacultura e, assim, em seguida, faz com que os personagens sejam minoritários, tenham uma estória pequena, não uma grande história moderna, uma estória bemmenor, isto que chamam de memória e vivência afetivas, e seja mais corpo que alma, a alma não existe, diga à certa altura, você impressionará, cite implicitamente, pra não soar arrogante, os neoplatônicos, e subverta-os, "o destino dos corpos não é a alma, platonicamente, mas o destino dos corpos são os corpos", não é bacana? talvez seja uma passagem que dê uma certa fissura na garota do curso, uma gostosona, que a utilize em seu ensaio sobre narrativaspós-modernas, e a fórmula, uma fórmula só, além do mais, sua narrativa não deveter nenhum sintoma utópico, deve ser só presente, uma utopia do agora, da vida agora, é a que interessa, carpe diem, sem drama, e não esqueça, linguagem, é a escrita que te fala, você não deve, em sua narrativa, de jeito algum, pra que não flagrem a farsa, não deve existir nem profundidade nem idéia de verticalidade, não existe nada disso, nos diz a psicanálise lacanina, e os lacanianos estão à solta, principalmente os que nunca leram lacan, e os que leram também, estão à solta, prontos pra dar o bote, e denunciar, "ela é farsesca, não está fechada com o significante, e ainda se apega em significados do tipo "a história de toda a humanidade tem sido a história de lutas de classe", é uma antiquada narradora modernista, ou medieval, ou de um perdido crônico tempo, atrasado em relação ao compasso dos clones da digitalidadetecnológica". Veja, linguagem, sua narrativa é ingênua, você acredita em românticas ideologias, em política, em metafísicas, em maniqueísmos; seja cínica, linguagem, muito cínica, não esqueça a exemplaridade, seja bem cínica, mas sem perceber, você deve ter um cinismo cult, cultural, pós-moderno, sim, um cinismo entranhado, de modo a acreditar em sua honestidade, em sua verdade,em seu sentimento e pertencimento pós-modernos, desterritorializados, e também não esqueça da cultura de mídia, de tv, de inserir essa cultura em sua trama,tevês ligadas enquanto a personagem faz outra coisa, talvez escreva, um escritor, olha que bonito, as tevês ligadas, mais de uma, claro, enquanto um escritor, em londres - um escritor, não: um autor; um autor também não, um narrador -, sim, um narrador em londres, com um controle na mão, feliz, com sua masturbação maquínico-eletrônica, zappizando, lá e aqui, um canal novaiorquino,a globo global, a bbc no oriente médio, põe lá e põe lá, talvez, o narrador, não diga, sugira, seja um bolsista do cnpq, lá em londres, um gonçalves dias pós-moderno, lá de londres escrevendo de todos os lugares, eis a regra, os lugares não existem a não ser no plural, você deve escrever de londres, mas deve pertencer a todos os lugares, um bom despiste, e sim, se transforme sim,convictamente, linguagem, em anunciador da boa nova, a sociedade desde semprepós-humana, o humano não existe, é uma invenção permanente, nada existe, tudo é construção, somos ciborgues, e mesmo a fome, a miséria, a sua humilhaçãomundana, esqueça, nada disso tem importância, nada disso existe realmente, aquele inquieto sujeito ali, na esquina, morto de fome, miserável, só dor, ele é só uma construção, uma máquina, um robô humano, uma ficção de pobre, mas nada, esqueça isso tudo, e faz o seu romance, porque um romance é apenas um gênero que se basta a si e não precisa de anacrônicos inquietos animais de encruzilhadas; não fica aí inventando bobagens, a invenção já está pronta, e o texto também, é só seguir o manual, a tradição literária, desde que seja a queo século XX, esse maravilhoso século, consagrou, bravo! Principalmente, linguagem, jamais faça um parágrafo tão longo como este, é coisa de modernista, você estará imitando james joyce, proust, virginia woof, joão guimarães, lezama lima, um desses modernos que viraram esfinge , e estão eternamente nos livros, para cujas épocas o mundo já não é mais. Jamais escreva um parágrafo como este, pensa também na colaboração com o leitor, a teoria da recepção, o mercado, a fama, o leitor deve ter facilidades, toda, como na televisão, o leitor é um imbecil, mas jamais diga isso, diga apenas que o fácil é o fácil é o fácil é o fácil é o fácil é a verdade, e ponto; e que o difícil o hermetismo, um grave erro, justificável na época, como um traço de época, dos modernistas, seja visceralmente antimodernista, mas sem vísceras, e não as do corpo virtual, asdo corpo como ciborgue, construção de construções, aí está a fórmula, mãos à obra! E, antes que me esqueça, linguagem, não faça metanarrativa como esta agora, fechada nela mesma, sua própria trama, assim não vai cumprir bem opapel, e não vai servir à mais-valia global, à mais-valia zumbítica, à mais-valia desalmada, à mais-valia financeira, a televisiva, a internética; a propósito, esqueci, da internet, um bom romance pós-moderno deve viajar pela rede mundial de computadores, eu estou muito moderno também, serei eu você?pense, ou melhor, pensar não pode, faça o seu personagem conversar numa sala dechat, quem sabe, como você mesma costuma fazer, masturbar em sites de pornografia, e também, linguagem, estava esquecendo, use os recursos tecnológicos, faça um texto, um arquitexto, um texto pós-moderno, que temescrita, mas ao mesmo tempo, democraticamente, a democracia virtual, um textoque tenha links, que tenha desdobramentos de imagens, de sons, de publicidades,de tudo, sem parecer que a escrita prevaleça, ou que prevaleça a imagem, tudocomo uma coisa só, um artefato atual, seja atual, linguagem, um quieto animalda esquina, um noll, um agora, no céu aberto do niilismo deste presente em quevivemos, neste hotel transatlântico em que escrever é enredar-se na lógica docapitalismo do desastre, com seus tsunamis de tragédias, com seu ódio à vida,com sua determinação a nunca perder, a escolher ser um estranho e um íntimo ao mesmo tempo, para a consecução de seus objetivos, e sempre se comprometendo a sacrificar a força viva de suas idéias, por isso, linguagem, caso queira ser um escritor pós-moderno e ao mesmo tempo se quiser ter uma possibilidade, a únicaque interessa, de ficar rico com literatura, por si só quase impossível, sequer ter,agarrar, perseguir, sonhar essa mínima possibilidade, linguagem, não tenha o talento de joão gilberto noll, jamais, never more, a expressão mais clássica de todos os niilismos, o corvo do mau agouro; nunca mais escreva; faça como rimbeaud, abandone o sujo da linguagem, que é a linguagem do mundo dos vivos, e vá vender armas no oriente, na áfrica, na américa latina, para o quieto animal da esquina, para matar todos os fundamentalismos vitais, os denuncie, onde quer que eles se encontrem, os denuncie com arma em punho, onde quer que se encontrem, pois, em nome das novas imperiais neoliberais ilhas das fantasias do virtual libertário mercado global, cace os inquietos animais dasencruzilhadas, eles ainda - por alá! - estão em todos os lugares, porque ainda estamos vivos, ainda que como quietos animais da esquina, ainda que sob este escaldante céu de niilismo, o único sob o qual nos dizem que é permitido vivergratuitamente, esses estranhos habitantes carnais e mortais dos continentes destroçados; antes que esses anônimos do continente transbordem suas poesias,e venham reapropriar-se de suas visões, e, como um rimbeaud desarmado, voltandoa fita do tempo, antes que venhamos, os habitantes dos continentes, a nos tornar ladrões de fogo escrevendo novas cartas a milhões, bilhões devisionários; esses que vêem muitos outros presentes, além desse raquítico e anoréxico em que vivemos; que vêem e sabem que as ilhas não se sustentam sozinhas, e que o mundo é todo nosso, desde que eu seja um outro.

 

Luís Eustáqui Soares é professor e poeta,  doutor em Literatura Comparada, já
publicou os livros de poesia  Paradoxais, Orobó edições e Cor vadia, Anome
livros, 2002. Atualmente é professor da Universidade Federal do Espírito Santo.
luizeustaquios@oi.com.br