vivemos na época do capitalismo do desastre, do capitalismo do
ódio ao mundo, em que bilhões de dólares circulam o planeta em tempo real, numa volta
ao mundo em milésimos de segundo, em que as multinacionais do poder
financeiro,industrial, midiático e militar se oligopolizam, tornando-se cada vez mais um
único poder, o panóptico da vídeo-interferência, com poder de criar um mundo à parte,
uma ilha da fantasia em que 1/5 da humanidade se torna "livre" parausufruir, a
um tempo, os direitos econômicos, sociais e civis de liberdade de expressão, de
liberdade sexual, de liberdade de ser e de estar, de escolher osrumos de suas identidades
politicamente corretas, enquanto os outros 4/5 se
tornam o quieto animal da esquina, anônimos seres condenados ao continente, em oposição
às ilhas das fantasias virtuais e virtuosas.nesta asséptica, soft e futurista infovia do
céu para poucos, a do humanismo
bélico - claro, para garantir exclusividades -, a virtualidade das pirotecnias
tecnológicas se impõe sobre o mundo lá fora, e tudo magicamente se inverte, já que as
ilhas das fantasias vão se transformando num imenso virtual mundo, num verdadeiro
walldisney, uma disneylândia de consumos dispendiosos, do café sem cafeína, do
imperativo do gozo, do princípio do prazer individual e egoísta, um outro mundo-ilha,
enfim, em oposição ao mundo do continente, no qual os seres vivos deste planeta são
cada vez mais empurrados para as Faixas de Gaza ou para as reservas ambientais, para os
guetos, de tal maneira a se palestinizar, a se iraquizar, a se afeganistãotizar, sem
direitos econômicos e sociais, e ironicamente livres para usufruir os direitos civis de
desejar alcançar o mundo virtual oligopolizado. basicamente, é nesse mundo lá fora,
desvirtualizado, arrasado pelas bombas de todos os desprezos e cinismos, que a literatura
de joão gilberto noll expressae, por que não?, denuncia o céu aberto do niilismo
contemporâneo, sob o qual soçobra o anonimato de quietos animais das e nas destroçadas
esquinas miseráveis, o lúpen do mundo pós-operariado. por minha vez, é nesse mesmo
mundo desvirtualizado que gostaria de produzir um texto de irrequietos animais de
encruzilhadas, em que a linguagem, doravante chamada simplesmente de você, se perde em si
mesma, misturando o virtual e oreal, a ilha e o continente, fazendo-se ensaio de
narrativa, narrativa depoesia, poesia de ensaio, de tal maneira que você, a linguagem,
você, quandovocê começou a escrever esse troço, aqui, agora e antes, você não
pensava oautor, o narrador, o personagem, você é circular, é tudo e é nada, você,
você,não pensava em fazer uma narrativa, você, a linguagem, não tinha pensado
assim,"vou fazer uma narrativa de ficção, vou escrever um romance, e vou sentar
emfrente a um computador, e vou digitar estas letras garatujas, pra narrartramas, e
dramas, e tragédias, e lirismos, e catarses, e espasmos de estupros",mas você,
você, linguagem, o que faz? ou, de outro modo, o que não faz? porque, pra você,
escrever é sempre um não escrever? Será que você tem tanto ódioassim da escrita, por
ter sido, e ainda é, uma analfabeta durante tanto tempo?Vem daí o seu ódio à escrita,
a sua incapacidade de fazer aquilo a que sepropõe, quando escreve, uma ficção, só
isso, uma ficção, precisa de uma tramabem urdida, de personagens bem construídos, de
uma dramaturgia, um fora devocê, não narcisista, um fora de você, uma exterioridade,
uma ficção, e vocêfora da trama, só isso, porque o autor, a história, o mundo e o
sujeitomorreram e é por isso que você deve apresentar os personagens, já no
desenrolarda narrativa, apresenta-os vivendo narrativamente, e, pensando nos
afetospós-modernos, tente fazer um romance pós-moderno, sim pra servir de exemplo às
faculdades de letras, quem sabe, um romance pós-moderno, desfronteirizado, comum narrador
lá em paris, lá em nova iorque, mas ao mesmo tempo em belo horizonte, em são paulo, na
áfrica do sul, em vitória, em pequim, olha que interessante, um bom modelo globalizado,
sem esquecer o local, a localidade dacultura e, assim, em seguida, faz com que os
personagens sejam minoritários, tenham uma estória pequena, não uma grande história
moderna, uma estória bemmenor, isto que chamam de memória e vivência afetivas, e seja
mais corpo que alma, a alma não existe, diga à certa altura, você impressionará, cite
implicitamente, pra não soar arrogante, os neoplatônicos, e subverta-os, "o destino
dos corpos não é a alma, platonicamente, mas o destino dos corpos são os corpos",
não é bacana? talvez seja uma passagem que dê uma certa fissura na garota do curso, uma
gostosona, que a utilize em seu ensaio sobre narrativaspós-modernas, e a fórmula, uma
fórmula só, além do mais, sua narrativa não deveter nenhum sintoma utópico, deve ser
só presente, uma utopia do agora, da vida agora, é a que interessa, carpe diem, sem
drama, e não esqueça, linguagem, é a escrita que te fala, você não deve, em sua
narrativa, de jeito algum, pra que não flagrem a farsa, não deve existir nem
profundidade nem idéia de verticalidade, não existe nada disso, nos diz a psicanálise
lacanina, e os lacanianos estão à solta, principalmente os que nunca leram lacan, e os
que leram também, estão à solta, prontos pra dar o bote, e denunciar, "ela é
farsesca, não está fechada com o significante, e ainda se apega em significados do tipo
"a história de toda a humanidade tem sido a história de lutas de classe", é
uma antiquada narradora modernista, ou medieval, ou de um perdido crônico tempo, atrasado
em relação ao compasso dos clones da digitalidadetecnológica". Veja, linguagem,
sua narrativa é ingênua, você acredita em românticas ideologias, em política, em
metafísicas, em maniqueísmos; seja cínica, linguagem, muito cínica, não esqueça a
exemplaridade, seja bem cínica, mas sem perceber, você deve ter um cinismo cult,
cultural, pós-moderno, sim, um cinismo entranhado, de modo a acreditar em sua
honestidade, em sua verdade,em seu sentimento e pertencimento pós-modernos,
desterritorializados, e também não esqueça da cultura de mídia, de tv, de inserir essa
cultura em sua trama,tevês ligadas enquanto a personagem faz outra coisa, talvez escreva,
um escritor, olha que bonito, as tevês ligadas, mais de uma, claro, enquanto um escritor,
em londres - um escritor, não: um autor; um autor também não, um narrador -, sim, um
narrador em londres, com um controle na mão, feliz, com sua masturbação
maquínico-eletrônica, zappizando, lá e aqui, um canal novaiorquino,a globo global, a
bbc no oriente médio, põe lá e põe lá, talvez, o narrador, não diga, sugira, seja um
bolsista do cnpq, lá em londres, um gonçalves dias pós-moderno, lá de londres
escrevendo de todos os lugares, eis a regra, os lugares não existem a não ser no plural,
você deve escrever de londres, mas deve pertencer a todos os lugares, um bom despiste, e
sim, se transforme sim,convictamente, linguagem, em anunciador da boa nova, a sociedade
desde semprepós-humana, o humano não existe, é uma invenção permanente, nada existe,
tudo é construção, somos ciborgues, e mesmo a fome, a miséria, a sua
humilhaçãomundana, esqueça, nada disso tem importância, nada disso existe realmente,
aquele inquieto sujeito ali, na esquina, morto de fome, miserável, só dor, ele é só
uma construção, uma máquina, um robô humano, uma ficção de pobre, mas nada, esqueça
isso tudo, e faz o seu romance, porque um romance é apenas um gênero que se basta a si e
não precisa de anacrônicos inquietos animais de encruzilhadas; não fica aí inventando
bobagens, a invenção já está pronta, e o texto também, é só seguir o manual, a
tradição literária, desde que seja a queo século XX, esse maravilhoso século,
consagrou, bravo! Principalmente, linguagem, jamais faça um parágrafo tão longo como
este, é coisa de modernista, você estará imitando james joyce, proust, virginia woof,
joão guimarães, lezama lima, um desses modernos que viraram esfinge , e estão
eternamente nos livros, para cujas épocas o mundo já não é mais. Jamais escreva um
parágrafo como este, pensa também na colaboração com o leitor, a teoria da recepção,
o mercado, a fama, o leitor deve ter facilidades, toda, como na televisão, o leitor é um
imbecil, mas jamais diga isso, diga apenas que o fácil é o fácil é o fácil é o
fácil é o fácil é a verdade, e ponto; e que o difícil o hermetismo, um grave erro,
justificável na época, como um traço de época, dos modernistas, seja visceralmente
antimodernista, mas sem vísceras, e não as do corpo virtual, asdo corpo como ciborgue,
construção de construções, aí está a fórmula, mãos à obra! E, antes que me
esqueça, linguagem, não faça metanarrativa como esta agora, fechada nela mesma, sua
própria trama, assim não vai cumprir bem opapel, e não vai servir à mais-valia global,
à mais-valia zumbítica, à mais-valia desalmada, à mais-valia financeira, a televisiva,
a internética; a propósito, esqueci, da internet, um bom romance pós-moderno deve
viajar pela rede mundial de computadores, eu estou muito moderno também, serei eu
você?pense, ou melhor, pensar não pode, faça o seu personagem conversar numa sala
dechat, quem sabe, como você mesma costuma fazer, masturbar em sites de pornografia, e
também, linguagem, estava esquecendo, use os recursos tecnológicos, faça um texto, um
arquitexto, um texto pós-moderno, que temescrita, mas ao mesmo tempo, democraticamente, a
democracia virtual, um textoque tenha links, que tenha desdobramentos de imagens, de sons,
de publicidades,de tudo, sem parecer que a escrita prevaleça, ou que prevaleça a imagem,
tudocomo uma coisa só, um artefato atual, seja atual, linguagem, um quieto animalda
esquina, um noll, um agora, no céu aberto do niilismo deste presente em quevivemos, neste
hotel transatlântico em que escrever é enredar-se na lógica docapitalismo do desastre,
com seus tsunamis de tragédias, com seu ódio à vida,com sua determinação a nunca
perder, a escolher ser um estranho e um íntimo ao mesmo tempo, para a consecução de
seus objetivos, e sempre se comprometendo a sacrificar a força viva de suas idéias, por
isso, linguagem, caso queira ser um escritor pós-moderno e ao mesmo tempo se quiser ter
uma possibilidade, a únicaque interessa, de ficar rico com literatura, por si só quase
impossível, sequer ter,agarrar, perseguir, sonhar essa mínima possibilidade, linguagem,
não tenha o talento de joão gilberto noll, jamais, never more, a expressão mais
clássica de todos os niilismos, o corvo do mau agouro; nunca mais escreva; faça como
rimbeaud, abandone o sujo da linguagem, que é a linguagem do mundo dos vivos, e vá
vender armas no oriente, na áfrica, na américa latina, para o quieto animal da esquina,
para matar todos os fundamentalismos vitais, os denuncie, onde quer que eles se encontrem,
os denuncie com arma em punho, onde quer que se encontrem, pois, em nome das novas
imperiais neoliberais ilhas das fantasias do virtual libertário mercado global, cace os
inquietos animais dasencruzilhadas, eles ainda - por alá! - estão em todos os lugares,
porque ainda estamos vivos, ainda que como quietos animais da esquina, ainda que sob este
escaldante céu de niilismo, o único sob o qual nos dizem que é permitido
vivergratuitamente, esses estranhos habitantes carnais e mortais dos continentes
destroçados; antes que esses anônimos do continente transbordem suas poesias,e venham
reapropriar-se de suas visões, e, como um rimbeaud desarmado, voltandoa fita do tempo,
antes que venhamos, os habitantes dos continentes, a nos tornar ladrões de fogo
escrevendo novas cartas a milhões, bilhões devisionários; esses que vêem muitos outros
presentes, além desse raquítico e anoréxico em que vivemos; que vêem e sabem que as
ilhas não se sustentam sozinhas, e que o mundo é todo nosso, desde que eu seja um outro.
Luís Eustáqui Soares é professor e poeta, doutor em
Literatura Comparada, já
publicou os livros de poesia Paradoxais, Orobó edições e Cor
vadia, Anome
livros, 2002. Atualmente é professor da Universidade Federal do Espírito Santo.