Chico Cascateiro: artesão naturalista Por Luiz Edmundo Alves |
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Caxambu é uma das mais encantadoras cidades que já tive oportunidade de conhecer. Além do charme de suas ruas e as gentilezas de sua gente, tem boa comida, bons hotéis e aquela mística própria das cidades turísticas que fazem parte do Circuito das Águas. Já na primeira vez que lá estive me senti tomado por um estado de encantamento com a cidade, o clima, o Parque das Águas e, sobretudo, com a extraordinária obra (fontes, coretos, bancos e carramanchões) do português Francisco da Silva Reis, o Chico Cascateiro. Foi um encantamento contemplativo, que me fez ficar parado por alguns minutos diante da Casa de Máquinas ou Quiosque, uma construção que, num primeiro olhar, parecia feita com bambu e madeira, cintados por tiras de cipós; no entanto era argamassa moldada por mãos e ferramentas e de forma quase artesanal, com texturas e cores muito próximas do bambu e da madeira de verdade, era uma escultura integrada à natureza exuberante do Parque das Águas. Mais à frente e me deparei com a Fonte, uma obra paisagística, com "passeios" delimitados por cerquinhas de troncos retorcidos esculpidos em argamassa. Sempre os elementos vegetais: troncos cortados, galhos, cipós e folhagens, esculpidos em superfícies, entrelaçando-se, enraizando-se nas pedras e expondo seus lenhos. Mais que elemento natural a água é apresentada como elemento estético, espelho e cascata, barulho suave, resplandescência. A fonte contém uma poética calcada na intertextualidade de seus elementos, onde plantas verdadeiras encontram hábitat perfeito em meio a outras de cimento e argamassa. O conjunto é harmônico e transcende o aspecto paisagístico, porque em cada detalhe é possível ver o toque magistral do artista. Logo me tomei por uma curiosidade das mais simples: Quem teria feito ? Quando?
De imediato não obtive nenhuma resposta, não havia muitas informações disponíveis para saciar visitantes curiosos e, principalmente, capazes de atrair e renovar o olhar dos próprios cidadãos de Caxambu, conferindo àquele acervo sua devida importância. Saí de lá com a idéia de ter visto um belo e original trabalho de paisagismo público. Algum tempo depois li um artigo do Prof. Antonio de Paiva Moura sobre Chico Cascateiro e suas obras nas cidades do sul de Minas Gerais.
Foram as primeiras informações. Descobri também que em Caxambu haviam dois homens que lutavam bravamente buscando registrar, documentar, despertar a atenção de pessoas e governantes para aquela magnífica obra: o psicólogo e pesquisador Manoel da Mata Machado e o poeta Eustáquio Gorgone de Oliveira. E não apenas Caxambu, mas várias cidades da região, assim como algumas fazendas, possuem obras de Chico Cascateiro, ou Francisco da Silva Reis, um artesão-paisagista vindo de Portugal, que ali viveu nas primeiras décadas do século XX. Pouco se sabe sobre sua vida, como veio parar no Brasil, seus passos por aqui, enfim. Mas há particularidades muito evidentes nos trabalhos deste homem, da Fonte no Parque das Águas ao maravilhoso Coreto de Carmo de Minas, da pracinha de Passa Quatro, com seu coreto, fonte e bancos aos carramanchões: originalidade, estilo, harmonia e expressão artística. A originalidade pode ser vista não nos motivos, mas na forma como os elementos se unem para compor um todo sempre harmônico. O estilo está inserido na expressão artística, e expressão artística neste caso torna-se o diferencial, e não tem nada a ver com beleza em sua acepção clássica, mas com uma concepção estética inconfundível, possível apenas aos gênios conceber.