O concretismo
revisitado
Tanto reproduz o Manifesto da Poesia Concreta, publicado
na revista noigrandes: n.4, São Paulo, 1958, além de alguns poemas emblemáticos do movimento. Texto introdutório e pesquisa de Luiz Edmundo AlvesEntende-se por VANGUARDA um grupo de pessoas cujas idéias se mostram impregnadas por uma nova postura frente a conceitos já estabelecidos. Mudança de linguagem e estilo. Novos ângulos. Experimentação. Assim ao longo da História as Vanguardas se sucedem, renovam diretrizes estéticas e influenciam definitivamente a cultura e o comportamento das nações. Nossa primeira vanguarda consistente se deu com o Modernismo, que se revigorou com a Antropofagia, mantendo sua ânsia renovadora por praticamente três décadas, até surgir em São Paulo um grupo de poetas e artistas capazes de abalar todo esse alicerce moderno mas trintão: o movimento Concreto, liderado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari. É interessante constatar que o concretismo acontecia em várias partes do mundo a partir do final da segunda guerra mundial. Houve concretismo na Alemanha, na França, nos Estados Unidos, Inglaterra e Escócia, em muitos casos uns não sabiam o que os outros estavam fazendo. No Brasil o concretismo se deu quase que de forma simultânea, quando descobrem Erza Pound e resolvem realizar um trabalho de "invenção".O surgimento oficial se daria em 1956 com a Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada no Museu de Arte Moderna em São Paulo, embora o grupo já existisse desde 52. A exposição reuniu trabalhos de artistas de São Paulo e Rio, contou com palestras de vários poetas e pintores. O movimento continha em suas veias um pouco do sangue antropofágico de Oswald de Andrade, o formalismo de Pound e a herança visual de Stéphane Mallarmé, mas buscava (ou já tinha encontrado) um novo estilo, "produto de uma evolução crítica de formas". Alguns estudiosos o consideram um sub-movimento, inserido nas muitas variações do Modernismo, sem a consistência que caracteriza os grandes movimentos artísticos. No entanto a poesia brasileira deste período se debateu entre ser ou não ser concretista, muitos poetas se sentiram pressionados: era a morte da lírica? Outros chegaram a pensar que aquele fosse o rumo definitivo da poesia, como se em poesia caminhos definitivos existissem. Mas não existem... Felizmente a poesia brasileira é plural, terrivelmente plural, mesmo diante da avassaladora influência do concretismo, ocorrida não apenas pela qualidade da obra do grupo, mas pelo desenvolvimento de uma teoria poética sem precedentes em nossa história literária, com proposições e objetivos artísticos bem delineados: "linguagem direta, economia, arquitetura..." e, também, pelo excelente trabalho de traduções.O concretismo enriqueceu a poesia brasileira contemporânea com a possibilidade da palavra pura, palavra-coisa, trouxe os ideogramas, a poesia russa moderna, Mallarmé e Octavio Paz, abrindo um novo leque poético. Enfim , a grande contribuição do movimento foi ter colocado a poesia no centro da roda, instrumento de e para o debate, como uma "arte geral da palavra, poesia como produto: objeto útil.". Poesia como coisa, coisas inventadas, reinventadas, reverbificadas. Décadas depois podemos afirmar: a experiência acrescentou novos códigos e parâmetros estéticos à cultura brasileira contemporânea, e ainda hoje desperta polêmicas. Quer mais? Ave Poesia! Assim seja.
| beba coca cola babe cola beba coca babe cola caco caco cola c l o a c a "beba
coca cola" (1957), |
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no â mago do ô mega um olho um ouro um osso sob essa pe( vide de vácuo) nsil pétala p a r p a d e a n d o cilios pálpebra amêndoa do vazio pecíolo: a coisa da coisa da coisa
um duro
um corpo
nitescendo ex-nihilo Haroldo de Campos, 1962 |

"pós-tudo" - Augusto de Campos
PLANO-PILOTO PARA POESIA CONCRETA * * publicado em noigrandes: n.4,São Paulo, 1958 poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas. dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico-formal), a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural. espaço qualificado: estrutura espácio-temporal, em vez de desenvolvimento meramente temporístico-temporal, em vez de desenvolvimento meramente temporístico-linear. daí a importância da déia de ideograma, desde o seu sentido geral de sintaxe espacial ou visual, até o seu sentido específico (fenollosa/pound) de método de compor baseado na justaposição direta- analógica, não lógico-discursiva - de elementos: "il faut que notre intelligence s'habitue à comprende synthético idéographiquement au lieu de analytico-discursivemente"(appollinaire). einsenstein: ideograma e montagem. precursores: mallarmé( un coup de dés, 1897) : o primeiro salto qualitativo: "subddivisions prismatiques de l'idée"; espaço ("blancs") e recursos tipográficos como elementos substantivos da composição. pound ( the cantos) : método ideogrâmico. joyce (ulisses e finnegans wake) : palavra-ideograma; interpenetração orgânica de tempo e espaço. cummings: atomização de palavras, tipografia fisiognômica: valorização expressionista do espaço, apollinaire (calligrammes) : como visão, mais do que como realização. futurismo, dadaísmo: contribuições para a vida do problema. no brasil: oswald de andrade ( 1890-1954: "em comprimidos, minutos de poesia". joão cabral de melo neto(n.1920)- engenheiro e a psicologia da composição mais anti-ode) : linguagem direta, economia e arquitetura funcional do verso. poesia concreta: tensão de palavras-coisas no espaço-tempo, estrutura dinâmica: multiplicidade de movimentos concomitantes. também na música - por definição, uma arte do tempo - intervém o espaço( webern e seus seguidores: boulez e stockhausen; música concreta e eletrônica); nas artes visuais - espaciais, por definição - intervém o tempo ( mondrian e a série boogiewogie, max bill; albers e a ambivalência perceptiva ; arte concreta, em geral). ideograma: apelo à comunicação não-verbal. o poema concreto comunica a sua própria estrutura: estrutura- conteúdo. o poema concreto é um objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas. seu material: a palavra (som, forma visual, carga semântica) . seu problema: um problema de funções- relações desse material. fatores de proximidade e semelhança, psicologia de gestalt. ritmo: força relacional. o poema concreto, usando o sistema fonético (dígitos) e uma sintaxe analógica, cria uma àrea lingüística específica - "verbivocovisual"- que participa das vantagens da comunicação não-verbal, sem abdicar das virtualidades da palavra, com o poema concreto ocorre o fenômeno da metacomunicação: coincidência e simultaneidade da comunicação verbal e não-verbal, com a nota de que se trata de uma comunicação de formas, de uma estrutura-conteúdo, não da usual comunicação de mensagens. a poesia concreta visa ao mínimo múltiplo comum da linguagem, daí a sua tendência à substantivação e à verbificação : "a moeda concreta da fala" (sapir). daí suas afinidades com as chamadas "línguas isolantes"( chinês) : "quanto menos gramática exterior possui a língua chinesa, tanto mais gramática interior lhe é inerente ( humboldt via cassirer) . o chinês oferece um exemplo de sintaxe puramente relacional baseada exclusivamente na ordem das palavras ( ver fenollosa, sapir e cassirer). ao conflito de
fundo-e-forma em busca de identificação augusto de campos
post-scriptum 1961:
"sem forma revolucionária não há São Paulo, Edições Invenção, 1965.)
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