um.
insetos.
seres humanos,
ratos e mais ratos.
gente. mais gente. meninos e
meninas sob a luz lilás do crepúsculo.
a aranha escapa pelo fio
a teia brilhando na contra luz
a luz lilás banhando a nação.
nação que se transforma a cada
segundo, a cada semáforo vermelho
a cada fio tecido pela aranha.
um transformar
de águas,
imponderável.
transforma-se
a nação
a cada instante, como uma adolescente
de 500 anos ou uma tarde qualquer
com códigos próprios
de insegurança:
garotos roubam velhinhos à
luz lilás do crepúsculo.
trancos, caco de vidro, caniveeetes!
outro garoto descobre o
orgasmo explosivo nos braços
da
prostituta loira e enternecida.
enquanto isso: a aranha
tece
a teia tece tece tece
e a
teia brilha brilha brilha
na
contra luz lilás que banha a
nação.
dois.
o povo descendo
por entre os morros.
sons de tambores.
tambores na noite lilás.
tambores de ogã.
ar, terra, terreiro, tecido florido.
a lascívia enrodilhada no corpo.
aahh!! ouvir os sons do atabaque.
ohhh!! olelê olalá,
ogundelê proteja-me,
conceda-me o medo
do guerreiro.
três.
aahhh minha nação descendo o morro,
atravessando florestas, arando o serrado,
escalando o penhasco. esquivando-se de
balas perdidas, ensaiando o rebolado,
cantando via satélite.
todos assistem, todos de olho.
quem quer cantar no banheiro?
encenar o grande reality show?
114 câmeras. milhões de olhos.
todos espiam. é esta a sintonia:
tiaca tiaca na mutiaca. na batida
da lata.
mande bem. mande mal. mande o refrão.
tiaca tiaca na mutiaca. na batida da
lata.
pense. pense bem. pense mal.
e mude o canal.
quatro.
lá vem ela
a musa da nação
no
balanço do
vestido florido
na capa
no poster
na praia
no rótulo
comprando sandálias
vendendo sabonetes
cerveja tempero luxúria
a musa sensual. mulata,
morena, loura, gata
passando mel nos olhos
da nação.
a musa
de batom ou blush.
na tela,
bela/boa/borbulhante.
lá vai ela, lá vem outra. elas,
barbarelas.
cinco.
a nação tem a pulsação da aldeia,
crendices, sotaques, molejos,
sombras sumidades sorbônicas
excluídos
malditos enoooormes.
musas e
velocinos de ouro
ilusões de platina.
a nação, embora aldeia,
tem a intensidade do universo.
seis .
lá vem ele
o herói da nação:
sorriso perolado
vitórias e patriotadas
moedas
de ouro e
namoradas
lá vem ele,
na capa
no poster
na
esquina
no rótulo
a bordo do bólido
no rolar da bola
no direto de esquerda
ele
o cintilante
menino suburbano
maravilha da raça.
rei. ei ei ei.
ei nosso rei!
sete.
muita coisa que interessa
está nas origens da nação:
petulâncias, revoltas
movimentos sensuais
medos vindos d'áfrica
condimentos picantes
feitiço, fetiche,
molejo, moléstias
dengo,
dendê,
mucama,
munguzá.
êêhhh êêhh nação de xangô!
oito.
lá vem ele,
o poeta da nação
com seu
vocabulário bizarro.
sensibilidade dos ventos.
mordacidades,
metáforas, monólogos.
todavia a nação pouco se
interessa por poetas,
ainda que para intuir acordes,
desacordos, melodias.
poetas são desconstrutores.
qual poema
construir na passarela
das utopias nacionais ?
nove .
(são manuel bandeira rogai por nós,
poetas das quinquilharias da alma da nação.)
dez..
opppa!
pop pop pop
a nação é pop
top top top
a nação é foda
oppsss, aqui óó!
roda, roda, roda e avisa...
Luiz
Edmundo Alves, nasceu em Vitória da Conquista, Bahia, em 21 de julho de 1959.
Formou-se em psicologia e já publicou Entre Outras Coisas, 1981, Metropolitano
Aloucado, 1983 e Sopro 1990. Produziu e dirigiu LAMPEJOS,
vídeo-poemas, 1998. em 2002 lançou o livro na contra luz, pela
editora Anome. Mora em Belo Horizonte, onde é videomaker e editor desta revista.tanto@tanto.com.br
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