CESÁRIO VERDE
poeta precursor nascido no meio do atraso

por MAIARA GOUVEIA

(Resenha com base no livro "A Vida de Cesário Verde" de João Pinto de Figueiredo. Editorial Presença,1986 – 2ª edição, Lisboa)

No Bairro da Sé nasce Cesário Verde, na Rua da Padaria, no início 1855. O prédio em que morou nos primeiros anos de vida pertencia ao pai, José Anastácio, edifício de largos andares, tipicamente burguês, destoando da vizinhança pobre em que as matronas enfiavam as cabeças na janela à espera de algum acontecimento para comentar, sendo a vida repetitiva e pacata e cercada de imundície. Seria essa falta de higiene, de saneamento que viria a provocar as epidemias de cólera e febre amarela dois anos depois. As condições de saúde pública em Lisboa eram precárias, apesar de o processo de modernização já ter sido iniciado, a sujeira e a doença continuavam sempre ao redor das casas, o lixo amontoava-se nos becos exalando o cheiro nauseabundo dos peixes apodrecidos e outros detritos que os gatos vinham cheirar e que proliferavam micróbios e bactérias. Pois, no verão 1857, sobrevém a calamidade, e Lisboa começa a esvaziar: os sobreviventes, em quem a doença ainda não pousara, partem com as suas famílias; José Anastácio é um dentre aqueles que conseguem escapar, refugiando-se com os seus na quinta de Linda-a-Pastora tencionando ficar até o fim da peste, mas acaba prolongando a estadia um pouco mais, aproveitando o campo e lucrando com boas colheitas.
Ao retornarem não encontram um bairro muito diferente, o ambiente continua a ser pouco salutar, o ideal seria morar longe da Baixa, mas devido ao desejo de manter-se perto do estabelecimento comercial, o pai de Cesário decide mudar apenas de rua, indo se instalar na Rua dos Franqueiros, e, posteriormente, com a morte da filha Adelaide Eugénia em 1859, mudam para a Rua do Salitre, mais saudável por ser próxima do arborizado Passeio Público. A narrativa desses acontecimentos aparecerá no poema Nós, um dos mais importantes da obra cesarina.

O nosso poeta português cresce no seio da burguesia e assim se mantém sem nenhum arroubo, sem nenhuma revolta, trabalhando no estabelecimento do pai, José Anastácio, e também ajudando com a lavoura das terras de Linda-a-Pastora. Cesário iniciou sua vida no comércio escrevendo cartas e atendendo a freguesia de quando em vez, é nesse universo de papéis timbrados da firma, ferragens e quinquilharias, em uma loja cuja localização deixava entrever duas faces diferentes de Lisboa: a mercantil e a industrial, a marítima e a burguesa, que realizará suas primeiras leituras furtivamente na ausência do pai e rabiscará seus primeiros poemas, poemas ainda hesitantes como todos os versos de iniciantes, mas desde muito cedo apresentarão elementos de uma poesia destoante de tudo o que já havia sido produzido em Portugal. Pois bem, nessa mesma época toma a resolução de entrar no Curso Superior de Letras, supreendendo o pai que não via a serventia de um lojista tencionar angariar conhecimentos de latim, grego e outras inutilidades para um comerciante, mas aquiesceu, sendo um curso em que D. Pedro V já fora preceptor, portanto, respeitável. Dessa passagem da vida de nosso artista, destacamos apenas ter conhecido António José da Silva Pinto, o amigo que seria seu futuro editor e salvaria a obra de Verde de ser relegada ao esquecimento, tendo em vista que entre os contemporâneos medíocres com quem o poeta tivera contato ao longo de sua breve passagem, nenhum ousaria realizar uma publicação de obra tão pouco propícia à propagação entre os meios literários de Lisboa do século XIX. Ao afeto entre os dois homens de personalidades tão díspares e apreensão da arte e do mundo tão diversas, devemos a sobrevivência dos escritos de Cesário. Talvez, tendo ele nascido em outra parte da Europa, estivesse seu nome hoje entre aqueles que fazem parte do cânone, mas deixemos as conjecturas de lado e continuemos a narrativa da vida do poeta seguindo o que nos conta Figueiredo em seu livro.
No verão de 1877 muda-se para a Rua das Trinas do Mocambo, no bairro Buenos Aires. É esse o bairro descrito em um dos poemas mais interessantes e originais em língua portuguesa: Num Bairro Moderno. As vivendas com fachadas de azulejo, as edificações apalaçadas cercadas por jardins eram o retrato da modernidade do conforto, das escadarias de mármore e das janelas protegidas por gelosiase, enfim,do "ideal burguês de felicidade". Na luminosidade do verão com "raios de laranja destilada", a visão de uma rapariga carregando um cabaz de legumes e verduras às costas provoca um poema cujas imagens vertem uma visão única da realidade. A claridade, as nuances de luz que colaboram na criação das imagens, sem dúvida, remetem à pintura impressionista:
"À primeira vista a pochade de Cesário dir-se-ia influenciada por Arcimboldo, esse pintor quinhentista que compunha seres humanos como frutas e vegetais e que, como poeta, sabia ver. Uma cabeça numa melancia e nuns repolhos seios injetados.
Arcimboldo, porém, era um maneirista e Cesário um naturalista que ocasionalmente se dá à fantasia de comparar "cachos de uvas" a "rosário de olhos". Por "humorismo" como pensava Fialho? Ou por razões mais profundas? É oportunamente o que veremos. Por agora, mantendo-nos no domínio pictural, cumpre-nos notar que Num Bairro Moderno é, entre nós, a primeira visão impressionista da realidade" p.100
É justamente esse pioneirismo o que mais impressiona em Cesário, todos os registros apontam para o fato de que ele não poderia conhecer o impressionismo em 1877 , aliás, mesmo que o tivesse conhecido depois, seria superficialmente, a pintura em Portugal ainda estava no passado bem como a literatura, mas o português da Rua da Padaria era um grande artista, alguém com o "dom de adivinhar" para usar a expressão de Figueiredo, um homem que pressentia o que haveria de vir. Compunha seus poemas como quem persegue o instante, as impressões fugazes permeavam a linguagem plástica, criando na literatura o que a pintura portuguesa ainda não tinha descoberto e encontrando a modo exato de expressar a modernidade que ia se impondo lentamente, acelerando o ritmo da realidade. O que nos oferece em sua poesia é a composição de quadros, pequenas imagens do cotidiano justapostas, seguindo a cadência dos acontecimentos que narra, assim, como observa seu biógrafo, prefere espaços fechados. Poderíamos afirmar que esses espaços fechados: ruas, becos, vilas, lugares precisos em tempos precisos, demonstram o flagrante de determinadas cenas, a descoberta de um momento como algo digno de atenção, o que percebe descreve de maneira que a sensação e o acontecimento estejam devidamente entrelaçados, o real é expresso em plenitude.
Essa obra, de fato, não podia ser muito popular, era alheia às abstrações e ao fantasma romântico que pairava naquela civilização provinciana e atrasada, e se o atraso consumia a mentalidade dos homens, o nosso poeta português avançava em terrenos que ainda nem haviam sido explorados. Não obstante, era um burguês. Um capitalista, portanto. Os jornais costumavam detestar seus melhores poemas, e a razão era simples: não eram capazes de compreendê-los. Apesar de questionar a realidade social, Cesário nos poupa do maniqueísta e do panfletário. Não é um romântico revolucionário, mas um republicano por tradição familiar. Assim, a aristocracia monárquica o odiava, e os correligionários republicanos desprezavam sua vida de comerciante, suas atividades entre a loja e a quinta, propriedade de seu pai. Ele cometia alguns pecados graves para quem quer ser bem sucedido: escrevia sem seguir padrões pré-concebidos de estética e não procurava agradar nem a gregos nem a troianos:

"Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas" - estrofe do poema Contrariedades

Assim, é com total indiferença que seu poema O Sentimento dum Ocidental será recebido em 1880, ano do tricentenário de Camões em que as festividades exaltavam a pátria. Os versos publicados no Jornal de Viagens (Porto) e dedicados à comemoração, serão, no entanto, muito diferentes de uma coleção de clichês nacionalistas, Verde prefere retratar a Lisboa verdadeira. Uma cidade imunda em que a Cólera e a Febre podem ressuscitar a qualquer momento entre os corpos enfezados e o lixo exalando seu aroma putrefato, onde os quartéis lembram conventos da Idade Média,onde as burguesinhas católicas, a igreja, a mentalidade, tudo é velho, tudo tem o escuro de uma noite que aprisiona, tudo é lúgubre e antigo. De que modo poderia esse poema suscitar a simpatia daqueles que andavam pelos cortejos cívicos, num espírito patético de glória à pátria? Mas Cesário sentia-se cada vez mais cansado com o modo com que seus poemas eram recebidos.
Em 1881 passa a fazer parte do Grupo do Leão composto de pintores e meia dúzia de literatos que reuniam-se na cervejaria da Rua do Príncipe. Os jovens travavam diálogos sobre acontecimentos da vida nacional e casos do dia e, às vezes,comentavam sobre a produção artística de Portugal, provavelmente desconheciam o fato de serem representantes de uma arte que já fazia parte do passado, enquanto isso nosso poeta ouvia, ouvia em silêncio, ele que era o único a trazer consigo a novidade.
Tanto o fato de ter começado a participar desse grupo, quando a decisão de cursar Letras no início de sua vida como poeta, deviam-se muito à necessidade de travar relações com pessoas diferentes daquelas que encontrava em sua vida como comerciante. Mas em todos os lugares permanecia deslocado,somando-se isso à morte do irmão e à própria doença, sentiu a necessidade de viajar, de sair um pouco daquele meio onde tudo parecia repetitivo. Com o pretexto de ser interessante começar a exportar vinhos à França, convence o pai de ir à Paris, essa seria a única vez que sairia de Portugal, a empresa não seria bem sucedida e ele não angariaria nova oportunidade de voltar aos ares parisienses, onde esteve por um brevíssimo tempo. É em 1884, depois de um longo silêncio, que publica Nós, primeiro poema aludindo inteiramente ao passado, coberto de recordações: fala da epidemia, dos episódios na quinta de Linda-a-Pastora, da doença dos irmãos e da morte, a morte que sente estar próxima. O seu último poema Provincianas permanece inacabado. Revela, no entanto, novas possibilidades de linguagem poética e lampejos de luminosidade e alegria, além da mesma sensualidade presente na maior parte de seus versos, estabelece assim um contraste com o desgaste evidente no poema Nós:

"E agora, de tal modo a minha vida é dura,
Tenho momentos tão maus, tão tristes, tão perversos,
Que sinto só desdém pela literatura,
E até desprezo e esqueço meus amados versos"

Em 1886 a tuberculose agrava-se muito, Cesário morre em seu quarto na casa da Rua das Trinas. Silva Pinto, em abril de 87 cumpre a promessa feita em nota ao jornal "O Século" após a morte do amigo, na qual dizia que ninguém lhe tiraria a honra e a responsabilidade do trabalho de editar os versos do poeta: assim é publicado O Livro de Cesário Verde.

--
Maiara Gouveia, 22 Aanos, estudante de Letras da USP. maiaragouveia@gmail.com.br

voltar