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Maiara Gouveia

 

PREÂMBULO

Em Cesário Verde, poeta português da segunda metade do século XIX, a originalidade transborda de uma plasticidade capaz de traduzir uma realidade em processo de transformação. O cotidiano se dilata aos olhos do poeta e ele captura o instante, flagra alguma cena, aparentemente banal, e transmite a inconstância e mutabilidade do mundo em uma poética repleta de cores, movimento, imagens. Na extrema visualidade de sua obra, podemos encontrar associações ao pictórico, sobretudo impressionista, ao fotográfico e ao cinematográfico: o anacronismo permite entrever o aspecto inovador de sua linguagem e compreender a estrutura extremamente eficiente na reconstrução do mundo exterior em seu caráter dinâmico e multifacetado.

Apresentaremos agora, a análise de um dos poemas mais interessantes desse autor lisboeta: escrito em 1877, é considerado um dos mais importantes de sua poética.

 

NUM BAIRRO MODERNO & a epifania

Em "Num Bairro Moderno", logo no primeiro verso temos a demarcação do instante, dez horas da manhã; em seguida, o cenário é apresentado: o bairro com ares de modernidade entrevistos na "larga rua macadamizada". O tempo e o espaço são determinados em uma espécie de enquadramento, como se um pintor acabasse de escolher o lugar e a hora do dia para registrar com sua paleta. Vejamos:

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se os nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.
Rez de chausée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.
Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia

A comparação da composição poética cesarina ao pictórico impressionista assume nesses
versos caráter marcante: cores claras e transparências luminosas surgem na construção do quadro matutino. É curiosa a maneira de conduzir nosso olhar afunilando a imagem e concentrando a sensação, explicando melhor, é partindo do mais externo e abrangente (a larga rua), para o mais específico e restrito, (o lar, e, por fim, o indivíduo) que relata a morosidade, o tédio e apatia. Na terceira estrofe o aparente contraste das "tonturas duma apoplexia" do caminhante com o "conchego saudável" ao redor constituem uma ironia, ele desce "sem muita pressa" para o "emprego" (notem, ele desce para o "emprego", não para um trabalho) seguindo com a mesma lentidão da vida ao redor. Estamos diante de um representante do bairro moderno onde a burguesia reside. E o mal estar do transeunte provém justamente da ausência de vitalidade percebida. O desconforto do narrador é o desconforto do burguês entediado com sua condição, e, ao mesmo tempo, acentua o clima de doentia e fraqueza entrevistos no movimento mórbido, no repouso sossegado das casas, no vagar com que se abrem as persianas.
O segundo momento do poema é o surgimento da personagem feminina; sua aparição marca o princípio do processo de transformação que resultará em uma epifania:

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:
Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esgadelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
"Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais". E muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

A "rapariga" destoa completamente do ambiente onde se encontra: é maltrapilha; não possui o brilho reluzente que "fere a vista com brancuras quentes"; é pequenina no meio de uma rua larga; é azafamada; tem a pressa dos trabalhadores que precisam conseguir seu sustento. É através de uma linguagem descritiva e precisa na qual os adjetivos são, quase sempre, qualidades visuais que o poeta constrói idéias e impressões. Assim, ao mostrar o algodão azul da meia abrir no esforço da regateira em se manter de pé enquanto ajoelha a giga, consegue transmitir a dimensão da pobreza e da fragilidade dessa mulher. A indiferença das classes mais privilegiadas diante dos desfavorecidos aparece na figura do criado atirando um cobre "lívido, oxidado": a escolha de uma personagem inserida no contexto burguês como um serviçal dissipa qualquer possibilidade maniqueísta. Cesário critica a afasia predominante no espaço dos privilegiados, mas que perpassa todos provincianos opulentos, as matronas cansadas que colocam os rostos gordos na janela à espera de acontecimento para comentar, uma turba de católicos com suas expressões langorosas de mártires, enfim, uma legião de lisboetas mais ou muito menos abastados, como o criado "muito descansado": apesar de sua posição social não acumular benefícios, reflete a insensibilidade do universo de que participa. Mas a vendedeira curvada ao peso de sua canastra traz consigo "a horta aglomerada" e suas emanações de saúde e vitalidade.

Subitamente - que visão de artista!-
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma e outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha , por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.

Subitamente - que visão de artista! É o clímax dessa narrativa poética. Uma verdadeira epifania: o vislumbrar de um novo ser - a banalidade é convertida em encantamento modificando o estado de espírito do narrador e o próprio ambiente. Processo semelhante ocorre no poema "A Débil", é a partir de uma visão transfiguradora que a realidade ganha o ânimo, a força, o entusiasmo. Até mesmo a expressão "visão de artista" pode ser comparada à "vista de poeta" capaz de fazer enxergar na figura feminina "uma pombinha tímida e quieta" e na multidão "um bando ameaçador de corvos pretos". Mas deixemos de lado, por ora, a comparação entre os dois poemas (que renderia boas páginas) e continuemos dentro do bairro moderno onde, agora, o ritmo adquiriu um excesso de rapidez: as imagens espocam sucessivas, aparecem "aromas, fumos de cozinha", de repente, há um corte e vemos outra cena: "Com o cabaz às costas e vergando/ Sobem padeiros, claros de farinha", e, por fim, um frenesi em algumas portas em que se tocam campainhas. Se novamente a luz, como em uma tela genuinamente impressionista, auxilia a compor as formas de um ser humano "que se mova e exista/ Cheio de belas proporções carnais", a rapidez das telas seguintes lembram o cinema com sua exposição de diversas fotografias num instante na recriação do movimento. Por outro lado, os tons e as formas capazes de deixar entrevistos "uma cabeça numa melancia/e nuns repolhos seios injectados" irão nos fazer lembrar dos quadros de Giuseppe Arcimboldo, artista quinhentista famoso por seus quadros nos quais vegetais são transformados em figuras humanas:

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas , um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carmes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons corações, pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros nas cenouras.

Mas o pintor milanês era um maneirista, e, portanto, a intenção de suas obras era criar distorções da realidade, e não registrá-la em seus menores aspectos, como é o caso do nosso autor português. Quando enxerga "colos, ombros, bocas, um semblante/na posição de certos frutos", o poeta apenas associa formas, acentua as sensações de vitalidade, cria texturas, evoca sabores e cheiros, procura fazer com que possamos sentir, de fato, aquilo que nos mostra. Mas, certamente, na extravagância da imagem, na importância predominante da feição exterior das coisas em detrimento do abstrato, podemos encontrar outras semelhanças entre ambos.
Após a epifania na qual o vulgar é transmudado em "visão de artista", em momento mágico produtor da metamorfose do marasmo em movimento e da inércia em vida, o desfecho do poema nos deixa uma impressão de vigor, como se o próprio processo de recriação da humanidade fosse a convalescência da morbidez urbana com suas belezas artificiais diante do frescor das frutas e verduras, do golpe de naturalidade contido na "horta aglomerada" no gigo:

O sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me prazenteira:
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!"...

Eu acerquei-me dela sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

"Muito obrigada! Deus lhe dê saude!"
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

É notável a transformação dos tons esmaecidos de matizes transparentes em cores mais fortes adivinhadas no verde do ramo de hortelã e na alface e explícito no dourado do céu, o "corpo orgânico" manteve seus aromas e sua multiplicidade de coloridos. A jovialidade da vendedeira ao pedir ajuda, a falta de desprezo com que é atendida, o "enorme esforço muscular" realizado para levantar o cesto, tudo reflete "as forças, a alegria, a plenitude" de uma mudança drástica de estado de espírito. Os versos "Que brotam dum excesso de virtude/Ou duma digestão desconhecida" também revelam um humor brincalhão, muito diferente daquele observado no início do poema, na terceira estrofe em que o tom irônico revela o desgaste, o fastio do narrador perante o ambiente.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e como o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário - que infantil chilrada! -
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

Novamente, a exposição das imagens lembra a montagem cinematográfica. Primeiro mostra o transeunte partindo para o "lado oposto", depois aponta as carruagens ao longe e, na seqüência, indica o afastar da moça "descolorida nas maçãs do rosto/e sem quadris na saia de ramagens". Esses versos estão repletos de contrastes, o contraste social nos caminhos opostos das duas personagens, o descolorido da face da moça que carrega o multicolorido da "horta aglomerada", a ausência de formas dentro da saia estampada.
A segunda cena dessas três estrofes é o quadro do garoto espirrando água na planta como quem separa o joio do trigo ou como quem "borrifa estrelas", a claridade da pequena tela nos remete novamente ao impressionismo, à luminosidade cristalina. Depois, o canto infantil do canário, as emanações salutares as ménages entre as gelosias, "os raios de laranja destilada", tudo remete à festividade, ao jovial, ao renovado, o cotidiano renascido, permeado pela vida.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.

Nas duas últimas estrofes, a regateira adquire audácia, ergue o peito orgulhosa. O contraste entre a disposição altiva e o corpo franzino coberto pela chita parecem, aos olhos do observador, uma "desgraça alegre" provocadora: as "couves repolhudas, largas" comparadas às "grossas pernas dum gigante" acentuam o humor da última imagem, o poema finda em um tom cômico, divertido. O tédio e a apatia são de todo dissipados, até mesmo a vendedeira parte vaidosa como se ao ser portardora da "verdura rústica, abundante" fosse ela mesma transformada em um ser robusto, como se tomasse emprestado "o novo corpo orgânico" gerado pela "visão de artista".


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ANTONIO. Jorge Luiz (2002). Cores, Forma, Luz, Movimento: A Poesia de Cesário Verde. São Paulo: Musa Editora/ FAPESP

BATALHA. Maria Cristina (1999). Num Bairro Moderno: O olhar enviesado da periferia européia: Matraga, revista da Pós-Graduação do Instituto de Letras, UERJ

FIGUEIREDO, João Pinto de (1986). A Vida de Cesário Verde. Lisboa: Editorial Presença

MACEDO, Helder (1986). Nós: uma leitura de Cesário Verde. Lisboa: Dom Quixote

MENDES, Margarida Vieira (1987). Poesias de Cesário Verde. Lisboa: Editorial Comunicação.

MOISÉS, Carlos Felipe (org.) (1982) Cesário Verde: Poesia Completa e Cartas Escolhidas. São Paulo: Cultrix

SERRÃO. Joel (1957). Cesário Verde: interpretação, poesias dispersas e cartas. Lisboa: Editorial Minerva

(1986) O essencial sobre Cesário Verde. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda

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Maiara Gouveia tem 23 anos e estudnte de letras da USP.
maiaragouveia@gmail.com.br