Tanto
Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim.
1925
22.I
O nome de um passarinho que vive no cisco é joão-
ninguém. Ele parece com Bernardo.
23.2
Lagartixas tem odor verde.
2.3
Formiga é um ser tão pequeno que não
aguenta nem
neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formi-
gas é só pingar um pouquinho de água
no coração delas.
Achei fácil.
23.2
Quem ama exerce Deus - a mãe disse. Uma açucena
me ama. Uma açucena exerce Deus?
2.3
Eu queria crescer pra passarinho...
5.3
A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo
dos olhos. Vô! o livros está de cabeça
pra baixo. Estou
deslendo.
5.6
O frio se encolheu nos passarinhos. Ó noite congelada
de jacintos! Eu estou transida de pétalas.
7.8
O pai trouxe do campo um filhote de urubu.
Ele é branco e já fede.
12.8
As graças descem nos brejos que nem brisas.
Todas as manhãs.
I0.9
Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atrás
de
casa. Ele fazia uma estultícia?
13.9
A mãe bateu no Mano Preto. Falou que eu não
apa-
nhava porque não dei motivo. Subi no pico do telhado
para dar motivo. Aqui de cima do telhado a lua pra-
teava. A mãe disse que aquilo não era motivo.
19.9
Uma égua iniciava meu irmão. O pai ralhou
com ele.
Meu irmão foi entrando pra inseto até desaparecer.
ficou dentro do mato até amanhã.
I.I0
Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com ár-
vore. As plantas querem o corpo dele para crescer por
sobre. Passarinho já faz poleiro na sua
cabeça.
I I.I I
A mãe disse que bernardo é bocó.
Uma pessoa sem
pensa.
5.2
Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o
poder
de voar livres.
29.2
Hoje o Lara morreu picado de cobra. Fizeram seu
caixão de costaneiras. Meu avô encostou
no caixão. Ué,
eu que morri e quem está no caixão é
o Lara! Meu avô
enxergava mal.
2.I.26
Catre velho é um ser confortável pra moscas.
Ele nem
espanta algumas.
12.I
Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve
estar
mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.
1.3
As árvores me começam.
I.4
Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua
tarde.
I0.4
Os patos prologam meu olhar... Quando passam
levando a tarde pra longe eu acompanho...
2I.4
Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha
alegria ficou
sem voz.
22.4
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com
palavras. Minha mãe gostou. É assim:
De noite o silêncio estica os lírios.
Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando a criança garatuja o verbo
para falar o que
não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com
árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores
comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com
naturalidade uma rã
no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei
também
sabedoria mineral.