Algumas coisas que sinto
por Oswald de Andrade
Márcia Denser
Certa vez, numa matéria que escreveu para o JB, o escritor
Nelsinho de Oliveira definiu Hilda Hilst, a mim e Marcelo Mirisola como a avó, a mãe e o
filho da mãe, uma linhagem literária que primaria pela arrogância, irreverência e
deboche, trinca à qual eu acrescentaria Oswald de Andrade como avô-muso de nós três,
paulistanos, sobretudo porque Oswald é um paulistano de quatro costados (e paulistano é
o única criatura deste planeta que não fica louvando a própria terra, algo unânime em
todas as partes do mundo, de Belo Horizonte a Pago-Pago).
Não que sua literatura nos tenha influenciado. Aposto que, como eu, Hilda deve tê-lo
lido ligeiramente, sorrido e passado adiante. E Mirisola também. Não se trata
exatamente de influência ou incorporação. Claro: se ele ou Mário (de Andrade) não
tivessem existido, nossa história literária seria outra. Contudo, a relação é antes
de identidade, sintonia e, naturalmente, território.
É muito engraçado comparar as versões - ou leituras - que tiveram dele, digamos, o
sociólogo Sérgio Miceli (Intelectuais à Brasileira), Antonio Cândido, Haroldo
de Campos e Sérgio Porto, o velho e bom Stanislaw Ponte Preta. Sem contar o poeta Affonso
Romano de Sant'Anna. Em "O seqüestro de Mário de Andrade por Mallarmé
Campos", na verdade, ele esculhamba Haroldo de Campos via Oswald: "Haroldo não
consegue pensar em Mário desvencilhado de Oswald. O fato de ter posto a foto dos dois
autores em duas páginas frontiças, cara a cara, marca seu dilema. Sua tese é sobre
Mário, mas não consegue pensar sobre ele a não ser em presença de Oswald, tentando
aprisionar Macunaíma entre João Miramar e Serafim Ponte Grande,
procurando a dimensão oswaldiana latente"**. Pois é, latente onde?
Oswald foi uma das obsessões intelectuais de Haroldo, tanto quanto Pound e Mallarmé. O
que, aliás, não significa grande coisa, até porque os demais concretistas do núcleo
duro (Décio Pignatari e Augusto de Campos) são, foram e serão eternamente obcecados por
um certo cânone - fora do qual, segundo eles, não existe vida inteligente. De Antonio
Cândido, um dos "chato boys", Oswald foi contemporâneo, amigo e eventual
desafeto. Mas ambos se respeitavam, sobretudo porque eram muito diferentes, competindo em
raias outras.
Para Sérgio Miceli, intelectual já da minha geração, autor de Oswald Andrade: dândi
e líder estético, ele foi objeto de estudo. E bem distante. Senão, vejamos:
"O casal formado pelo poeta Oswald de Andrade e pela pintora Tarsila do Amaral é a
encarnação mais perfeita do estilo de vida dos círculos modernistas, obcecados ao mesmo
tempo pelo brilho social e pela pretensão da supremacia intelectual. Pertenciam a
famílias abastadas da oligarquia, vivendo às custas das rendas provenientes da
especulação imobiliária e dos lucros da exportação de café. Faziam sucessivas
viagens à Europa, freqüentavam teatros de vanguarda, balés russos, noitadas nos
círculos diplomáticos, conferências na Sorbonne, corridas de cavalos e automóveis,
lutas de boxe, aprendiam a dançar o charleston, adquiriam quadros de Léger, objetos art
déco, sapatos Perugia, camisas Sulka, "pijamas de apartamento", perfumes
Rosine, móveis Martine, vestidos de Poiret, tinham audiências com o papa
etc."*** Sérgio, sociologicamente implacável e realista, dando a linha de
terra, desromantizando Oswald.
E agora? Quem ainda sintoniza com esse "transgressor"?
Eu, naturalmente. O fato de o sujeito ser filhinho de papai ou do "matriarcado de
Pindorama", "um homem sem profissão e sob as ordens de mamãe"(algo que
ele ainda botou em título de livro, cruzes! Vai ser burguês assim no inferno!), não
invalida sua genialidade, não é mesmo?
O Manifesto Antropofágico já o teria justificado por toda eternidade. Assim como sua
absoluta independência de espírito, que tanto contrasta com os tempos atuais, em que a
covardia e o conformismo caracterizam espírito de época.
Mais Oswald
de Andrade
Márcia
Denser é paulistana, geminiana dupla, contista urbana da geração de 80,
descendente de alemães, italianos e bandeirantes (nesta ordem). Tem obras traduzidas na
Alemanha, Suíça, Estados Unidos e Holanda. No Brasil publicou, entre outros, Tango
fantasma (contos, 76), O animal dos motéis (contos, 82), Exercícios
para o pecado (novelas, 84), Diana caçadora (novelas e contos,
86), A ponte das estrelas (aventuras, 90), Muito prazer
(antologia, 84), O prazer é todo meu (antologia, 84). Em 2000 foi
incluída em Os Cem Melhores Contos do Século (Ed. Objetiva), de Italo
Moriconi. Publicou recentemente "Toda Prosa", Ed. Nova
Alexandria, coletânea de contos com apresentação de Ítalo Moricone. Colunista do site
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