O Deus comedor de criancinhas
Marcílio Felício Pereira
A globalização financeira
agrava a insegurança econômica e as desigualdades sociais
limitando a atuação das instituições democráticas
pela imposição de lógicas estritamente especulativas
que exprimem apenas os interesses das empresas transnacionais e dos mercados
financeiros.
Em nome de uma transformação
do mundo apresentada como fatalidade, os cidadãos estão perdendo
o poder de decidir sobre seu destino. A total liberdade de circulação
de capitais, os paraísos fiscais e a explosão do volume de
transações especulativas obrigam os países a uma corrida
desnorteada para agradar os grandes investidores. Em nome da modernidade,
1,5 trilhão de dólares vão e vêm a cada dia
a procura de um lucro instantâneo distante de qualquer relação
com produção, comércio ou serviços, portanto
sem nenhum benefício social.
Mas nada disso é novo ou inusitado.
É apenas mais um ciclo de recrudescimento de um antigo fantasma
da humanidade: a exaltação da carne em detrimento de valores
espirituais.
Profetas judeus que anunciavam em Jeová
um Deus de concepção mais elevada, o faziam em oposição
a cultos antigos que celebravam, ao ponto da exacerbação
e do monstruoso, a sacralidade da vida orgânica, as forças
elementares do sangue, da sexualidade e da fecundidade, exaltando ideais
instintivos de poder, riqueza e supremacia.
Povos semitas de Moab, Canaã, Tiro
e Catargo adoraram um deus chamado Baal ou Moloc, ao qual ofereciam crianças
em sacrifício. Jeová, pela voz de Moisés, proibiu
este culto: (Levítico,18,21) "Não darás nenhum de
teus filhos para ser sacrificado a Moloc; e não profanarás
o nome de teu Deus." (Levítico,20,2-6) "...o povo da região
apedrejará o culpado...Eu eliminarei do seio do povo aqueles que
se prostituirão seguindo Moloc." Mas os judeus, inclusive Salomão
e outros reis, recaíram diversas vezes nessa idolatria. Crianças
vivas eram queimadas sobre o altar do deus ou nos flancos da estátua
de bronze que lhe era consagrada enquanto os sacerdotes encobriam os gritos
das vítimas com o barulho de clamores e tambores.
Sem dúvida Moloc representa a velha
imagem do tirano, ciumento, vingativo, sem pena, que exige de seus súditos
aterrorizados pelas piores ameaças, obediência até
a morte e confisca todos os seus bens, até mesmo filhos, destinados
à morte na guerra ou no sacrifício.
Nos tempos pós-modernos, Moloc
tornou-se o símbolo da Nova Ordem Mundial, tirânica e exclusivista:
decifra-me ou te devoro.
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