poemas de
Márcio
Almeida





G- anchos

A quantas vão os mantras
a quantas a quântica
quantas antes de Dantes
há quantos sânscritos
quantos íncretos
quantos Sanches?


POUNDederação

De minuto
a minuto
de mim nutro
diminuto.


O corpo é um quintal

 Maçã do rosto
Batata da perna
Manga da camisa
Cabeça de mamão
Olho de jabuticaba
Cara de banana
Cabelo de milho
Rubor de pimentão
Hálito de cebola:
- Moça, você é um chuchu!
Mas não resolve meu pepino
e escorrega como quiabo.


CANCIONATA

Como o pássaro que voa só e perdido,
como o horizonte que não detém mais
que a ilusão,
como estrela que tomba cadente
do infinito,
como a fonte que bebe a sua própria música.

Como o sorriso azulado de uma criança,
como a chuva que rega uma canção,
como a lágrima que balança à revelia
do vento,
como os soluços do âmago no perdão.

Como a doce dor de ser feliz,
como o caminho do sonho na manhã,
como a ternura num gesto dos olhos,
como o espinho duma rosa no perfume
da mão.

Como a procura que sofre as esperas,
como a cor do poente para  a noite,
como o silêncio que fala no encontra,
como a raiz que cresce sem ruído

Como o visgo atado no sangue das paredes,
como a poesia que não se escreve com palavras,
como a solidão procurando seu próprio espelho,
como o labirinto de onde o pensamento voa.

Como o sabor profundo de nascer da vida,
como um momento na eternidade do sempre,
como a remissão de minha presença definida,
eu vos encontrei para me perder no vosso amor.


Os mistérios dos nomes

Vários viajantes registraram esse inconveniente da mudança de nomes.
Waldemar de Almeida Barbosa – O caçados de esmeraldas

Como as pedras, os nomes
têm mistério, história e fremem:
o bandeirante é Fernão Dias Paes,
não Fernão Dias Paes Leme.

Como as pedras, os nomes
também viram um angu:
Sabará de Aleijadinho
não é Sabarabuçu.

Como as pedras, os nomes
trocam de amor e de santo:
o arraial de São Pedro do Paraopeba
não é a Vila de Santana do Paraopeba,
outro canto.

Como as pedras, os nomes
evocam sutilezas estrias:
Ivituri significa
Serro Frio – Serra Fria.

Como as pedras, os nomes
têm o condão de uma fada:
Vupabuçu é mais antes
uma Lagoa Dourada:

em Itacambira, Itamarandiba,
Montes Claros, Teófilo Otoni.

Como as pedras, os nomes
vão aos trancos e barrancos.
para o bandeirante marrões são porcos,
patos, os solavancos.

Como as pedras, os nomes
engodam as suas caldas:
turmalinas do Sumidouro
não são febris esmeraldas.


ERÓTICA

Temos de sobreviver esse corpo todas as noites,
cumprir com as vergonhas úmidas de cio,
com nossas confidências e nossos volts
lúdicos e loucos na carne viva e sem brio.
Cumprir esse amor é sempre uma surpresa,
como é antigo e renovado desde a bíblia,
que multiplicando a espécie em nossa alma tesa
transborda nossos líquidos a vão de bilha.
É o mel da boca a falar de animálias poses,
e o corpo inteiro aberto ao pensamento adulto,
são as reticências do cansaço a limitar os coices
desses animais que juntos vingam a vida a insulto.
Tudo se refaz depois de um cigarro aceso,
e a união das ânsias repete em virgem espasmo
a língua que conversa nosso sangue hostil e vezo,
e o amor que inventamos com a linguagem do orgasmo.

 

*Já publicou diversos livros de poesia, alguns deles
agraciados com importantes prêmios, entre eles
o Emílio Moura e o Cidade de Belo Horizonte.

marcioalmeidas@hotmail.com