Tanto O MISTÉRIO KUBRICK, DE OLHOS BEM FECHADOS
Maria Emília Firmino
A partir da morte de Stanley Kubrick, uma engrenagem foi colocada em funcionamento. A
imprensa se serviu com intensidade do acontecimento reforçado pela espera (ansiosa,
emocional, apaixonada ) do último filme do cineasta, que após uma filmagem difícil e de
uma super longa pós-produção, tinha se tornado o emblema do mistério mantido por
Kubrick.
Este fenômeno de propaganda, pela sua amplitude ultrapassa mesmo o objeto que era a
origem o último opus ( que foi logo classificado de testamento ) de um diretor genial.
Quase todos os jornais e revistas consagraram suas manchetes ao cineasta e as homenagens
se multiplicaram nas revistas e emissões de televisão .
Enfim, saiu EYES WIDE SHUT, para pôr fim a esta espera.
As críticas ficaram divididas diante deste filme que às vezes é bem distante do que
eles esperavam .
O filme decepciona mais por questões de ética ou de anacronismo do que por verdadeiras
preocupações cinematográficas.
Como nos nossos sonhos, EYES WIDE SHUT, o título mais explícito de Kubrick, exprime de
maneira complexa considerações simples sobre a morte, que se revelam aos nossos olhos
muito depois da projeção
Primeiro quadro da apresentação, letras brancas sob fundo negro, Tom Cruise.
Segundo quadro, Nicole Kidman . Terceiro quadro, um filme de S.
Kubrick. Uma grande loura, de costas para a câmera, deixa tranqüilamente cair seu
vestido à seus pés: ela fica nua sem o mínimo complexo. Uma cortina de teatro acaba de
cair com o vestido de Alice (N. Kidman), após os três dados simbólicos . Último quadro
da apresentação, « EYES WIDE SHUT », os olhos bem fechados. O título soa como uma
ordem ou um conselho ao espectador voyeur
Stanley Kubrick o convida à fechar os olhos para acordar num sonho que não é
simplesmente um sonho . Os primeiros segundos do filme invocam estes instantes, que são
vividos como se fossem horas, e que precedem o sono, onde o olho pisca tão forte que
queima a linha de divisão entre realidade e sonho.
EYES WIDE SHUT existe nestas entrelinhas
.Entre dois mundos
O filme funciona numa lógica onírica e se auto-alimenta aleatoriamente no modo da
repetição, na busca de um semelhante e na impressão do já visto. A busca do
plano igual, confirma visual e graficamente que esta adaptação de Arthur
Schnitzler oferece à Kubrick a ocasião de falar de amor, deste espaço que se deve
vencer para ir ao encontro do outro, da alma gêmea .Todos os temas caros ao
cineasta são condensados num assunto mais íntimo .
Um sonho no sonho que apresenta Alice e seu marido Bill, nus diante de um grande espelho,
traduz o sentimento profundo (amante negro) de S. Kubrick sobre o amor.
Alice, com este nome tão carolliano, contempla seu reflexo num espelho apesar
dos beijos e das carícias apaixonadas de Bill. Será que ela nos olha por detrás deste
espelho ? Ela se sente ainda observada mesmo após o imperativo do título?
O outro clímax do filme é um baile de máscaras que se transforma em orgia sexual e onde
o erotismo carnal é parasitado por uma encenação fria da morte .Procurando o amor longe
de Alice, Bill encontra a morte
Fidélio * , a senha que abre as portas de um castelo de todas as proibições, anuncia
claramente que estamos em plena opera . A música pesada, as máscaras barrocas e as capas
de veludo ostentadas pelos participantes com seus gestos afetados, confirma esta primeira
impressão .
O castelo se torna uma grande cena cheio de balcões, de colunas, de cortinas, de lustres
e de bastidores
e Bill é apenas um figurante oprimido na encenação. Sua máscara
veneziana e seu disfarce não o protegem por muito tempo, talvez porque ele seja
excessivamente passivo, excessivamente voyeur.
Uma magnífica desconhecida o aborda e lhe diz que ele não deveria estar ali, que ele
corre um risco que não se pode nomear e que ela mesmo está em perigo, por falar com ele.
Eles andam lado a lado no castelo, seus rostos inanimados de cartolina trocam palavras no
mesmo momento em que os outros casais já passaram ao ato - primeiro. Vozes articuladas e
bem presentes emanam de seus rostos impassíveis atrás das máscaras, como se fosse por
telepatia, a partir de um laço psíquico forte. São de fato como fantasmas errantes no
cemitério das pulsões saciadas
Nesta ópera, a música de Ligeti emite notas de piano regulares como se elas
transformassem o tempo em algo elástico e desacelerado . Pensamos em um piano que esta
sendo afinado, traduzindo a confusão de Bill . Um tempo debordante se materializa, na
aproximação caótica de uma morte certa . Apesar das frases de desespero da
desconhecida, Bill se sente protegido por sua máscara e dá um passo (e nós, com ele) no
espaço ( entre dois mundos ) que a câmera tinha limitado desde o primeiro plano . Ele se
aproxima e passa ao lado dos casais fazendo sexo. Realizando um fantasma de voyeur, ele
realiza (monta) o filme .
Por ter colocado em cena o amor o que não se mostra na obra de Kubrick , Bill é
desmascarado, no sentido próprio e figurado do termo e expulso do castelo
Porque o espectador não se sente desmascarado como Bill após a orgia ? Talvez porque a
novela de Schnitzler prioriza um narrador normalmente muito presente na obra de Kubrick.
EYES WIDE SHUT não aceita um comentário exterior . Aceitando endossar a máscara de
Bill, o espectador se vê responsável por conta própria de uma interpretação moral .
Assim, quando no final Alice pronuncia a última palavra do filme fuck, como
convite à Bill, cabe se retirar e ao cineasta também
.E não foi isto que
ele fez definitivamente, três dias depois de concluída a montagem?...
Fidélio ou O Amor Conjugal é o título da única ópera de Beethoven .
EYES WIDE SHUT - USA , 1999 , 159 min
- DIRECÃO E PRODUCAO : Stanley Kubrick
- ROTEIRO : Stanley Kubrick e Frederic Raphael
- IMAGENS : Larry Smith
- MONTAGEM : Nigel Galt
- MÚSICA : Jocelyn Pook
- PRODUTOR EXECUTIVO : Jan Harlan
- INTERPRETACÃO : Tom Cruise, Nicole Kidman, Sydney Pollack, Marie Richardson, Thomas
Gibson
- DISTRIBUICAO : Warner Bros.
* Psicóloga, residente em Rennes, França.