julio saenspoemas de
Mário

Alex Rosa

 

Ao lado da tarde 

Quando naquela tarde
depois da chuva, ao lado da janela,
olhava o arco-íris, lembrei
que aqui dentro o escuro prevalecia
longamente perto do amor.
Daqueles dias recordo
as treze estrelas contadas
e a cada uma dizia:
aquela que cai infinitamente
é para lembrar de nossas alegrias.
Mas se indagar pelas outras respondo:
o amor tem ponto.


Mudança 

Deportei de mim
a palavra rosa.
Demoli do rosto
a dor do morto.
Descolei o papel em branco
num escuro crânio.
Desertei o passo,
sombra do pássaro.
Deixei a aurora,
agora só resta uma hora.
Desfiz para permanecer
juntos o eclipse e o amanhecer.


Noturno 

Quem pôs nessa noite
tanta luz, pôs também o infinito,
e com ela nossos mitos imperfeitos,
sempre
a procurar o que é vago
como um céu cheio de estrelas.
Quem deu ordem para distanciar
o que é tão próximo do olhar
mas tão longe de se alcançar
como um amor que fica na sombra?
Quem pôs tudo nessa noite
deixou de avisar que ali ao lado
onde a distância se afasta
da luz que é baixa e é fria, alguém
desconfia do dia que se aproxima.


 

Outra tarde

 Quando a tarde
dispensa beleza
talvez seja a hora
de se recolher, ou
o intervalo seja a rota
de outras grotas que eram
para se esconder. Talvez
o tênue corte de luz
seja a fresta
de um dia que foi
silêncio.


Canto 

Toda manhã
fraturas de luzes
acenam com silêncios
o que se espera
de um amanhecer
entre o que já se foi
e o que está por vir.

Toda tarde
caso se abrisse
como a brisa
não faltaria
na tarde
a luz que finda
o dia.

Toda noite
se pudesse
de súbito
retirar as grotas
da mão
outra canção
escreveria.
 


Silêncio

 como a brisa
que te abrisse
ali ao lado teu
um vento breve
soprasse de leve
o poema para sempre
acordado em silêncio.


Partida

Não se espante se a tarde
se desfizer por um triz de alegria.
É nela que retornará o melhor de ti
ou da aurora que está por vir. Agora
nesse mês
que tudo se fecha, guarde seu
inverno
para o tempo dos girassóis
e contemplará longamente a manhã
que por pura doçura pouco a pouco
partirá.

Mário Alex Rosa nasceu em São João Del rey, Minas Gerais, em janeiro de 1966. É formado em História, mestre e doutorando em Literatura braisleira na USP.
É professor universitário em Belo Horizonte.

rosa.mario@ig.com.br

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