Max S. Moreira*
 

    A poesia manifesta-se às vezes nas mais estranhas ocasiões e seus motes podem parecer ainda mais estranhos, como por exemplo, uma flor de cactos sob o sol  causticante  do deserto texano pode ser o motivo como o próprio exemplo de poesia.
Essa flor delicada e rústica bem poderia ser comparada a Walt Whitman, que acalentou durante anos o desejo da poesia e, dedicou-se dentro dos limites que reconhecia, à depuração, tanto do sentimento poético que permitiu-lhe ler nas cenas dos embarques na estação Fulton Ferry, a poesia revolucionária e épica do americano comum, das enfermarias da guerra de secessão, das trilhas e das longas estradas, dos armazéns e dos saloons e das tipografias dos jornais do Brooklin, e da política até então,  não declarada   desse modo na poesia.
É possível falar assim por que Whitman, que buscava formar-se intelectualmente pelas referências vigentes na época, também freqüentava os folhetins e as chautauquas, mesclando em sua formação, de Ralph Waldo Emerson, seu contemporâneo ,  Carlyle, Byron, Epiteto  e a Bíblia, os panfletos políticos e os comícios.
Participante entusiasmado  de sua época ele vai captar nos  ideais americanos do século 19, o progresso e a democracia- ideais positivos sem dúvida- e  no povo americano,  elementos para seu estilo e o sentido de sua poesia.

"Muitos livros foram escritos para descrever viagens entre o Velho e o Novo Mundo, e o que foi visto ou feito por lá, e depois. Mas não conhecemos uma só obra ... que descreva uma viagem na Barca de Fulton."

Yeats deixou  registrado que o poeta deve escolher a perfeição da vida ou da obra, acreditando que a arte, sublimando desejos irrealizados ampliaria horizontes de plenitude. Whitman acreditava que a perfeição da vida era a perfeição da obra. Diferente de seus predecessores e dos laureados poetas europeus, ele acreditava,  e construiu sua obra com a convicção de uma intervenção no dia-a-dia do leitor. Portanto, a princípio não considerava que seus poemas fossem literatura, mas experiências; considerando demasiada a distância entre seus escritos e a chamada literatura de então, sustentada por elaboradas obras,  refinadas construções, nada tendo a ver com seus quebra-cabeças de linguagem.  Outros autores da época, já anunciavam a revolução do estilo na poesia americana baseada na linguagem falada e nos temas comuns, mas escreviam como sacerdotes.
Paul Zweig, professor de literatura e biógrafo de Whitman, anota que como estilista, o gênio de Whitman estava na sua capacidade de escrever como se a literatura nunca tivesse existido.
Em seus primeiros cadernos de poesia, foram encontradas estas considerações:

Não faça citações nem referência a outros escritores.
Não entulhe o texto com coisa alguma, deixe-o fluir levemente como um pássaro voa no ar, como um peixe nada no mar.

Regras de Composição- Um estilo perfeitamente transparente, cristalino, sem artifício, sem ornamentos ou tentativas de ornamento pelo ornamento – estes só caem bem quando parece com a beleza da pessoa ou do caráter  por natureza e intuição, e nunca quando introduzidos por exibicionismo...
Não use quaisquer exemplos tirados dos clássicos. Não faça qualquer menção ou alusão a eles, exceto quando se relacionarem com coisas presentes...
Clareza, simplicidade, nada de frases tortuosas ou obscuras, a mais translúcida clareza, sem variação.
Expressões e frases comuns – americanismos e vulgarismos – baixo calão somente quando muito oportuno.

Ele pretendia assim, inconscientemente, porém bastante atuante, romper a distância que a literatura coloca entre autor e leitor. Lendo-o estaríamos tocando-o, é a sua proposta. Tocar o homem através do poema, estreitá-lo; estreitá-lo se possível nos braços:

Cheguem-se a mim meus amantes e tomem o melhor que tenho...
A tarefa para mim ainda não está concluída... e para vocês ?
Desanimavam-me o tipos frios, o cilindro e o papel úmido de tinta entre nós.
Vivo tão insatisfeito com papel e linotipos...
Preciso do contato com corpos e almas.

Uma mescla de cautela  e decisão expressas com ajuda, em grande parte dos estudos  sobre frenologia e dos contatos que efetuou em torno dessa matéria, pseudo-ciência,  que na época de Whitman, inundava os Estados Unidos. As feiras, as exposições e festas populares, invariavelmente contavam com uma apresentação de algum entusiasta versado na arte da boa saúde, e em examinar  crânios, a partir do que determinavam a força e a proporção das faculdades mentais, dentre outras principais qualidades e possibilidades de caráter, como também seus defeitos.
Walt Whitman adorava freqüentar o Gabinete Frenológico de Fowler & Wells, que era para ele um lugar curioso que, provavelmente inspirava um  clima de oráculo, tendo ele mesmo chegado a registrar que  “um dos lugares preferidos de Nova York para mim naquela época (1849), era o “Gabinete Frenológico” de Fowler & Wells, na rua Nassal, perto de Beekman. Lá se encontravam todos os bustos, exemplos, curiosidades e livros sobre esses estudos que eram possíveis de se obter. Eu ia lá freqüentemente, e uma vez fiz um exame de mim mesmo muito minucioso e elaborado e um “mapa de protuberâncias” (que ainda conservo).”

A influência dessa experiência foi determinante como um reconhecimento externo de faculdades que suposta mente lhe eram próprias, intimamente ligadas ao seu caráter poético. Por outro lado o diagnóstico de Fowler sobre Whitman, tratava-se mais de um elogio, tendo  sido, talvez, um  incentivo a instauração da  identidade entre a poesia de Walt Whitman e a construção do ideal americano de liberdade.
Na esteira da afirmação de identidade da cultura americana, já em franco exercício em todos os níveis da vida do país, Whitman desempenhará, devido a seu percurso, a função de poeta do self-made man. Sobre isto, escreve o historiador Daniel Brooklin: “ o self made-man constituía o ideal da América durante o século XIX. Assim sendo, Emerson era seu pregador e metafísico, Thoreau seu filósofo pastoral, Whitman seu poeta...”
Whitman vivia a poesia como uma busca incessante de aprimoramento da expressão, valeria dizer, transmissão poética, ao mesmo tempo em que acreditava numa missão para a poesia, a sua pelo menos, trasbordante de amor e compaixão, amante do novo.

A frenologia, teoria que estuda o caráter e as funções intelectuais humanas, através das conformações cranianas; era para o poeta uma fonte de enigma e inspiração pelas estranhas e exuberantes palavras: amatividade, maravilhamento,
filoprogenitura, veneração, secretividade, aprovabilidade, idealidade e suavidade. Termos extraídos do resultado do exame do poeta.
Ele considerava que todas as coisas  são objeto da poesia, inclusive ‘as receitas, os sermões e as piadas’. Por que não essa fonte intrigante de novos termos frenológicos ?   Consta, que a crítica literária americana cita Walt Whitman como um precursor do que se tornou mais tarde uma tendência, trazer à poesia o não-poético. Não porque Whitman estivesse interessado em afirmar uma transcendência, ou filosofia em sua poesia, ou ainda transformá-la em metafísica, mas porque os poemas eram feitos com o mesmo tecido de realidade que ele dividia, como homem comum, com todos os outros homens.
As reflexões whitmanimanas em torno do comum, levou-o a valorizar o amor como bem supremo espiritual, independente de sexo, capaz de amar indistintamente. Ao espírito,  preso à carne restaria, paradoxalmente,  ansiar por ela.
A solução encontrada pelo poeta diante desse dilema,  assumindo a ambos como matéria e energia de sua poesia, é o amor.
Amor sim, ainda o amor, porém indistinto e superior, ainda que lascivo.
Sob a  pena  sublime do amor  nasceria o poeta.
 

"Não importa o tempo ou o lugar - a distância não importa,
Estou com vocês homens e mulheres de uma geração, ou de muitíssimas gerações por vir."



 

UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA
 
Allen Ginsberg, in uivo, L&PM
Tradução: Cláudio Willer
 

Como estivesse pensando em você esta noite Walt Whitman,
enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores,
com dor de cabeça,
auto consciente, olhando a lua cheia.
No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das imagens,
entrei no supermercado das frutas de néon
sonhando com tuas enumerações !
Que pêssegos e que penumbras ! Famílias inteiras fazendo suas compras a noite
Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates ! - e você, Garcia Lorpa,
o que fazia no meio das melancias ?
Eu vi Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário,
remexendo nas carnes do refrigerador e
lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um, deles. Quem matou as costeletas de porco ? Qual o preço das bananas?
Será você meu anjo ?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o
e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário,
provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados
e nunca passando pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman ? As portas fecharão em uma hora.
Para as quais caminhos aponta tua barba esta noite ?
( toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e sinto-me absurdo. )
Caminharemos a  noite toda por solitárias ruas / As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas,
ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas,
voltando para nosso silencioso chalé ?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem,
qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa
e Você na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas regras águas do Letes ?
 



Indicações de leitura:
 
 

 

Max Silva Moreira e poeta, autor de Alarido, Anome livros, BH, 2002
maxsilvamoreira@ibest.com.br

Artigos