THE INSOLENT

reproduçãoHenry Louis Mencken nasceu em Baltimore, EUA, em 1880. Começou sua carreira jornalística como repórter. Seu estilo inconfundível e incisivo, nada solene, o transformou no mais famoso jornalista americano das décadas de 20 e 30. Edmund Wilson o reconheceu como precursor do modernismo e da modernidade cultural americana. Ele era um jornalista literário e um satírico pôr excelência, além de crítico e filólogo. Seus artigos no Baltimore Sun, jornal que ele próprio editava, causaram polêmica e admiração. Escreveu sobre comportamento, política, arte, livros e autores. Editou também importantes revistas de literatura, como a Smart Set e American Mercury. Preparou a cabeça dos americanos para o surgimento de escritores como Ernest Hemingway e Sinclair Lews. Exerceu grande influência na vida cultural americana durante a primeira metada do séc. XX. Morreu em sua cidade natal em janeiro de 1956. No Brasil tornou-se conhecido com a publicação do LIVRO DOS INSULTOS, (Ed. Companhia das Letras, 1988) seleção, tradução e prefácio de Ruy Castro. Os textos abaixo revelam um pouco o lado insolente de Mencken, um jornalista que "fez a cabeça da juventude de seu tempo" e que continua atualíssimo.

HOMEM PERFEITO

O homem , na melhor das hipóteses, continua uma espécie de animal cambeta, incapaz de tornar-se redondo e perfeito como , digamos, uma barata  é  perfeita. Se ele demonstra uma 
qualidade merecedora de aplausos, ninguém sabe de outra que ele possua. Dê-lhe uma cabeça, e lhe faltará um coração. Dê-lhe um coração com uma capacidade para dez litros, e sua cabeça mal servirá para acomodar uma dose. O artista, em 90% dos casos, é uma mosca morta, dado à corrupção de virgens, 
assim chamadas. O patriota é um fanático e, muito freqüentemente, um farsante e um covarde. O homem de grande bravura física, no máximo, empata intelectualmente com um 
pastor protestante. O gigante intelectual sofre do fígado e não consegue saltar sobre uma agulha. Em todos os meus anos de  pesquisa por este mundo, da Golden Gate, no oeste, até Vís- 
tula, no leste, e das ilhas Orkney, no norte, até o Spanish  Main, no sul, nunca conheci um homem completamente honrado que merecesse a honra de ser chamado deste nome.   
                                                                    -1923 


METAFÍSICO 

      Um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que  dois vezes dois  são quatro, ele quer saber o que você entende  por vezes, o que significa dois, e o que quer dizer são e por que  isto dá quatro. Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes. 


         O CÉTICO 
     Nenhum homem acredita piamente em nenhum outro 
homem. Pode-se acreditar piamente numa idéia, mas não em um homem. No mais alto grau de confiança que ele pode
des
pertar, haverá sempre o aroma da dúvida - uma sensação  meio instintiva e meio lógica de que, no fim das contas, o vigarista deve ter um às escondido na manga. Esta dúvida, como 
parece óbvio, é sempre mais do que justificada, porque ainda  não nasceu o homem merecedor de confiança ilimitada - sua  traição, no máximo, espera apenas por uma tentação suficiente.
O problema do mundo não é o de que os homens sejam
 
muito suspeitos neste sentido, mas o de que tendem a ser confiantes demais - e de que ainda confiam demais em outros 
homens, mesmo depois de amargas experiências. Acredito  que as mulheres sejam sabiamente sentimentais, tanto  nisto como em outras coisas. Nenhuma mulher casada põe a 
mão no fogo por seu marido, nem age como se confiasse nele. 
Sua principal certeza assemelha-se à de um batedor de carteiras: a de que o guarda que o flagrou poderá ser subornado


 

 

 

 

 

 

 

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FRASES 

"Para cada problema na humanidade existe uma solução simples e clara, e esta será sempre a solução errada. "

" A manogamia mata a paixão -  a paixão é o mais perigoso  de todos os inimigos da suposta civilização"

"Todo homem decente se envergonha do governo sob o  qual vive". 
 
"A fé pode ser definida em resumo como uma crença  ilógica na ocorrência do improvável". 
 
" Todo artista de alguma dignidade é contra seu próprio país. Pense em Dante, Tolstoi, Shakespeare, Rabelais, Cervantes, Swift e
Mark Twain."
 
   
                              
"Um idealista é aquele que, ao perceber que as rosas cheiram melhor que as ervilhas, conclui que elas dariam uma sopa melhor".

Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria.

Pode ser um pecado pensar mal dos outros, mas raramente será um engano.


A LITERATURA DOLOROSA
A nova Poesia

O problema da maioria dos novos poetas é que eles são muito cerebrais - ou seja, atacam os problemas de uma arte com os métodos da ciência. Este erro perpassa por todo os debates sobre o assunto em que se metem. Tais debates estão cheios de teorias e frases feitas que não funcionam nem são verdadeiras.
(...) A poesia não pode ser maquinada por processos puramente intelectuais. Ela não tem nada a ver com o intelecto. Seu propósito não é o de estabelecer fatos, mas o de evitá-los ou negá-los. O que ela tenta fazer é tornar a vida mais suportável num mundo intolerável.(1926)


O PARENTE

A normal antipatia do homem por seus parentes
principalmente pelos de segundo grau, é explicada pelos psicólogos de várias maneiras torturantes e improváveis. A real explicação me parece muito mais simples. Reside no simples  fato de que todo homem vê em seus parentes (especialmente em seus primos) uma série de grotescas caricaturas de si próprio. Eles exibem as qualidades dele deformadas para o máximo ou para o mínimo; dão-lhe a impressão de que talvez seja assim que ele próprio se mostre ao mundo, e isto é inquietante - e por isso ferem o seu amour prope e lhe provocam intenso desconforto.

-1919


O Contraparente
      O homem detesta os parentes de sua mulher pela mesma razão de que não gosta de seus próprios, ou seja, porque eles lhe parecem grotescas caricaturas daquela por quem ele tem respeito e afeição, ou seja, sua mulher. De todos eles, a sogra é obviamente a mais repugnante, porque ela não apenas macaqueia sua mulher, mas também porque antecipa o que sua mulher provavelmente se tornará. Aquela visão, naturalmente, lhe provoca náuseas. Às vezes, a coisa é mais sutil. Digamos, por exemplo, que sua própria mulher lhe pareça uma caricatura de uma irmã mais jovem e bonita. Neste caso, estando atado à sua mulher, ele pode vir a detestar a irmã -- como sempre se detesta uma pessoa que simboliza o fracasso e a escravidão de alguém.