Amar o que
não é

Amar o que
é não

Não amar

Não.




Sandra Moreira



Poemas

Mônica de Aquino

 

O peixe que ontem
sugava transparências
amanheceu morto de excesso.
A morte é leve
e pesa a superfície.

Encheu-se o aquário
de vazios
e rastros esparsos sobre o vidro
confundem memória e silêncio.

O peixe que ontem
mastigava a ausência
destilou-me a espera.
A vida breve
dispensa a superfície.

Encheram-se de vazios
os meus restos –
iscas dispersas entre as águas
confetes que não me alimentam.

O peixe que ontem
distraia o absurdo
enfeitou amor e luto.

A vida é febre
e ferve, e agora
é recriar o aquário oculto
limpar vidro, excesso
líquido.

Limpar o peixe: comê-lo;
e transbordar
o vazio.

 


Sempre o mesmo movimento
sobre o lago de espelho

a mesma nota
de cor a volta a esmo
ao redor de si
o mesmo si
lá sol –
giro agudo
corpo extremo.

São os teus dedos
que põem a bailarina
de pé
ao som do mínimo
ruído
do talvez.

A bailarina, não vês.
Os teus sentidos só sabem
o ventre da engrenagem.

Sob a túnica, a caixa
já desliza uma falha
no compasso bate-estaca
o sangue
urgente bate
escapa
e a bailarina
roda roda

O coração,
à corda
caixa de música
contra o espelho

caixa preta
ao avesso.

E a bailarina, esticada
roda e roda
e não anseia
senão
o fundo da caixa
uma noite aveludada.
A tampa fechada.


A um átimo
do amo-te
temo-te.
A um istmo
do íntimo
mente.
De cor, somente
o silêncio
(continente).
E a linguagem,
cortejo
(périplo).
Mas o amor:
arquipélago.


Ser mínima.
Cortar cabelo
unha pele
mas sem o cálculo da cutícula.
Despir-me de tudo
o que não dói.
Ultrapassar toda a carne
e roer osso –
canina –
roer o rabo.
Roer, ainda,
os próprios dentes
agudos
rentes


Porfio
o fácil

cálculo
físsil
da lucidez.

Desfio
a fala
o seu contorno
de sedução.

E estes chiliques
do coração.

Hoje,
nenhum adorno
forjo um não.

Quero o vazio
morno
o fluxo fóssil
da vida
camada de pedra
do corpo –

pré-palavra
erigida
ante o outro –

e um pouco
de nada .

Depois,
um palpite
mesmo que chiste

tudo é talvez.



Monica de Aquino nasceu em Belo Horizonte
em 1979. Possui poemas publicados no
Suplemento Liteário de Minas Gerais.
Participou da antologia O Achamento
de Portugal
, organizada por Wilmar Silva.
Os poemas acima fazem parte de Sístole,
seu primeiro livro, publicado pela Bem-Te-Vi em 2005.
monicadeaquino@gmail.com

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