Freud disse dos sonhos que são "realizações
de desejos inconscientes". O mesmo pode ser dito de um bom livro. Até mesmo a
distinção introduzida pelo austríaco, entre sonho manifesto (o que sonhamos e do que
nos lembramos, de modo mais ou menos impreciso, ao acordar) e os pensamentos latentes do
sonho (pensamentos ocultos e muito mais ricos do que o sonho manifesto, que normalmente
só aparecem velados), pode ser aplicada aos livros.
Todo poema, conto ou romance é também um tipo de
sonho. Um tipo de sonho coordenado, não por nosso inconsciente, mas por outra pessoa
alguém que muitas vezes nem conhecemos; alguém de outra nacionalidade, de outra
cultura, morto há muito tempo. A catarse produzida por uma obra-prima ficcional nos faz
provar, como a experiência onírica, de outra realidade que não a do cotidiano. Em
verdade, ela não nos tira do cotidiano, mas instaura nele novos planos de consciência
(ou de inconsciência, como preferirem). Essa experiência chega a ser quase mística. Mas
não do tipo pregado pelas seitas religiosas. Não estou falando de uma tentativa de salto
para dentro da metafísica, em direção a outra realidade. Rumo ao paraíso, por exemplo.
No caso da obra de ficção, é o paraíso que se instaura na terra. Ao menos durante o
enlevo da leitura.
Mas é importante que se compreenda bem a
suprarrealidade dos livros, estes são sonhos alheios, planejados por outra pessoa. Ao
leitor, no entanto, cabe decidir qual sonho irá trazer para dentro de si ao entrar numa
livraria ou biblioteca. De certa maneira, o leitor também participa da feitura desse tipo
muito particular de sonho, ao optar por este poema e não por aquele, por este conto e
não por aquele. Agindo assim, ele está exercitando o juízo crítico. Aliás, foi Pound
quem traduziu a máxima do Rei do Judeus "Diga-me com quem andas e direi quem
és" para a crítica literária: "Um crítico se conhece pelos autores
que lê".
Este não é um livro um sonho de scholar,
mas de quem fugiu da escola pela porta da arte. Este não é um livro de crítica
literária, é um livro de crônicas literárias. É o trabalho de um ficcionista que
encontrou muito prazer também nas divagações teóricas. No entanto, não é um livro
teórico. Ele é mais prático do que todos os outros que já escrevi. Não é uma tese
acadêmica, mas, como os sonhos (que guardam, nas entrelinhas, mistérios capazes de ser
desvendados por um intérprete consciencioso), defende uma postura firme: não só com
escritores canonizados deve sonhar o leitor. Ler Machado de Assis, Guimarães Rosa e
Clarice Lispector é preciso. Mas não se esquecer de ler Campos de Carvalho, Samuel Rawet
e Uílcon Pereira também é necessário. Não deixar para trás Maura Lopes Cançado,
José Agrippino de Paula e outros que (muitas vezes por culpa, não da falta de talento,
mas de um temperamento arredio) não tiveram a sorte de gozar da merecida popularidade, é
fundamental. E não se esquecer principalmente dos novos escritores, muitos, que o Brasil
tem visto surgir ano após ano, isso é o mais importante. Afinal estão vivos, vocês
podem cruzar com eles na rua a qualquer momento, precisam de atenção. Em síntese, a
leitura tem de ser triocular: um olho no passado canonizado, o segundo no passado
quase-esquecido e o terceiro no presente.
As crônicas aqui apresentadas foram todas
publicadas na imprensa: ora com a rubrica de resenha, ora com a de ensaio.
Não importa, agora serão tão-só crônicas. Duas delas, por serem tentativas de
fugir do lugar-comum, beiram a pura imaginação: a entrevista com o romancista Cunha de
Leiradella e a com o editor Walmor Santos. Outras, sobre o novo conto brasileiro, são
mais um multifacetado manifesto estético, provocativo como todo manifesto, do que
qualquer outra coisa. Outras são um relato autobiográfico (Chuviscava sobre minha
infância sempre que a tevê saía do ar) e um conto (O século oculto). Há
até uma crônica travestida de ensaio acadêmico (A sobreposição de pólos em As
naus, de Lobo Antunes), com nota de rodapé, bibliografia e tudo o mais! Reuni-as
obedecendo à orientação subterrânea que norteia as atividades oníricas e,
principalmente, ao meu gosto pessoal. Ao leitor caberá, mais do que ler, compreender-lhes
o conteúdo manifesto e as idéias latentes. Numa palavra: interpretá-las.
Nelson de
Oliveira nasceu em Guíra, Sâo Paulo, em 1966.
Contista, romancista e ensaísta, Publicou Naquela época tínhamos
um gato (contos, 1988), O filho do crucificado (contos, 2001) e
A maldição do macho (romance, 2002), entre outros. Em 2001
organizou a antologia Geração, reunindo os melhores contistas
brasileiros surgidos no final do século XX. Dos prêmios que recebeu
destacam-se o Casa de las Américas (1995), Fundação Cultural da
Bahia (1996) e o da Asssociação Paulista dos Críticos de Arte (2001).
O presente artigo integra o livro O
século oculto e outros sonhos provocados,
publicado recentemente pela Escritura Editora - SP- escritura@escritura.com.br