ABC do
Nordeste Flagelado
  

Patativa do Assaré
Foto:Luiz Edmundo Alves

A — Ai, como é duro viver 
nos Estados do Nordeste 
quando o nosso Pai Celeste 
não manda a nuvem chover. 
É bem triste a gente ver 
findar o mês de janeiro 
depois findar fevereiro
e março também passar, 
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.
 

B — Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto, 
desfigurado e arrasto, 
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente, 
um jeito não pode dar, 
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando, 
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.
 

C — Caminhando pelo espaço, 
como os trapos de um lençol, 
pras bandas do pôr do sol, 
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando... sempre vagando, 
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.
 

D — De manhã, bem de manhã, 
vem da montanha um agouro
de gargalhada e de choro
da feia e triste cauã:
um bando de ribançã
pelo espaço a se perder, 
pra de fome não morrer, 
vai atrás de outro lugar, 
e ali só há de voltar, 
um dia, quando chover.
 

E — Em tudo se vê mudança
quem repara vê até
que o camaleão que é 
verde da cor da esperança, 
com o flagelo que avança, 
muda logo de feição.  
O verde camaleão 
perde a sua cor bonita 
fica de forma esquisita 
que causa admiração.
 

F — Foge o prazer da floresta 
o bonito sabiá, 
quando flagelo não há 
cantando se manifesta.
Durante o inverno faz festa 
gorjeando por esporte, 
mas não chovendo é sem sorte, 
fica sem graça e calado 
o cantor mais afamado 
dos passarinhos do norte.
 

G — Geme de dor, se aquebranta 
e dali desaparece, 
o sabiá só parece 
que com a seca se encanta.  
Se outro pássaro canta, 
o coitado não responde; 
ele vai não sei pra onde, 
pois quando o inverno não vem 
com o desgosto que tem 
o pobrezinho se esconde.
 

H — Horroroso, feio e mau 
de lá de dentro das grotas, 
manda suas feias notas 
o tristonho bacurau.
Canta o João corta-pau 
o seu poema funério, 
é muito triste o mistério 
de uma seca no sertão; 
a gente tem impressão
que o mundo é um cemitério.
 

I — Ilusão, prazer, amor, 
a gente sente fugir, 
tudo parece carpir
tristeza, saudade e dor.  
Nas horas de mais calor, 
se escuta pra todo lado 
o toque desafinado 
da gaita da seriema 
acompanhando o cinema 
no Nordeste flagelado.
 

J — Já falei sobre a desgraça 
dos animais do Nordeste; 
com a seca vem a peste 
e a vida fica sem graça.  
Quanto mais dia se passa 
mais a dor se multiplica; 
a mata que já foi rica, 
de tristeza geme e chora.  
Preciso dizer agora 
o povo como é que fica.
 

L — Lamento desconsolado 
o coitado camponês 
porque tanto esforço fez, 
mas não lucrou seu roçado.  
Num banco velho, sentado, 
olhando o filho inocente 
e a mulher bem paciente, 
cozinha lá no fogão 
o derradeiro feijão 
que ele guardou pra semente.
 

M — Minha boa companheira, 
diz ele, vamos embora, 
e depressa, sem demora 
vende a sua cartucheira.  
Vende a faca, a roçadeira, 
machado, foice e facão; 
vende a pobre habitação, 
galinha, cabra e suíno 
e viajam sem destino 
em cima de um caminhão.
 

N — Naquele duro transporte 
sai aquela pobre gente, 
agüentando paciente
o rigor da triste sorte.  
Levando a saudade forte 
de seu povo e seu lugar, 
sem um nem outro falar, 
vão pensando em sua vida, 
deixando a terra querida, 
para nunca mais voltar.
 

O — Outro tem opinião 
de deixar mãe, deixar pai, 
porém para o Sul não vai, 
procura outra direção.  
Vai bater no Maranhão 
onde nunca falta inverno; 
outro com grande consterno 
deixa o casebre e a mobília 
e leva a sua família 
pra construção do governo.
 

P - Porém lá na construção, 
o seu viver é grosseiro 
trabalhando o dia inteiro 
de picareta na mão.
Pra sua manutenção 
chegando dia marcado 
em vez do seu ordenado 
dentro da repartição, 
recebe triste ração, 
farinha e feijão furado.
 

Q — Quem quer ver o sofrimento, 
quando há seca no sertão, 
procura uma construção 
e entra no fornecimento.
Pois, dentro dele o alimento 
que o pobre tem a comer, 
a barriga pode encher, 
porém falta a substância, 
e com esta circunstância, 
começa o povo a morrer.
 

R — Raquítica, pálida e doente
fica a pobre criatura
e a boca da sepultura 
vai engolindo o inocente.  
Meu Jesus!  Meu Pai Clemente, 
que da humanidade é dono, 
desça de seu alto trono, 
da sua corte celeste 
e venha ver seu Nordeste 
como ele está no abandono.
 

S — Sofre o casado e o solteiro 
sofre o velho, sofre o moço, 
não tem janta, nem almoço, 
não tem roupa nem dinheiro.  
Também sofre o fazendeiro 
que de rico perde o nome, 
o desgosto lhe consome, 
vendo o urubu esfomeado, 
puxando a pele do gado 
que morreu de sede e fome.
 

T — Tudo sofre e não resiste 
este fardo tão pesado, 
no Nordeste flagelado 
em tudo a tristeza existe.  
Mas a tristeza mais triste 
que faz tudo entristecer, 
é a mãe chorosa, a gemer, 
lágrimas dos olhos correndo, 
vendo seu filho dizendo: 
mamãe, eu quero morrer!
 

U — Um é ver, outro é contar 
quem for reparar de perto 
aquele mundo deserto, 
dá vontade de chorar.
Ali só fica a teimar 
o juazeiro copado, 
o resto é tudo pelado 
da chapada ao tabuleiro 
onde o famoso vaqueiro 
cantava tangendo o gado.
 

V — Vivendo em grande maltrato, 
a abelha zumbindo voa, 
sem direção, sempre à toa, 
por causa do desacato. 
À procura de um regato, 
de um jardim ou de um pomar 
sem um momento parar, 
vagando constantemente, 
sem encontrar, a inocente, 
uma flor para pousar.
 

X — Xexéu, pássaro que mora 
na grande árvore copada, 
vendo a floresta arrasada, 
bate as asas, vai embora.  
Somente o saguim demora, 
pulando a fazer careta; 
na mata tingida e preta, 
tudo é aflição e pranto; 
só por milagre de um santo, 
se encontra uma borboleta.
 

Z — Zangado contra o sertão 
dardeja o sol inclemente, 
cada dia mais ardente 
tostando a face do chão.  
E, mostrando compaixão 
lá do infinito estrelado, 
pura, limpa, sem pecado 
de noite a lua derrama 
um banho de luz no drama 
do Nordeste flagelado.
 

Posso dizer que cantei 
aquilo que observei; 
tenho certeza que dei 
aprovada relação.
Tudo é tristeza e amargura, 
indigência e desventura. 
— Veja, leitor, quanto é dura 
a seca no meu sertão.

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