Tanto

Paulinho Assunção
Ele vinha todos anos e sempre chegava com as primeiras chuvas
de novembro.
Em outubro, eu já começava a esperá-lo,
já sentia o seu cheiro no vazio da cama, o seu odor de almíscar,
de gengibre e de terras longínquas. Mas os sinais da sua vinda também
invadiam o meu corpo, ora empedrando a ponta dos seios, ora retesando os
músculos das coxas.
Chamei-o Naban desde o primeiro dia, desde a primeira vez, e
assim ficou. De mim, ele conhecia até a alma, e um nome falso: Desdália.
No resto, imitávamos os bichos, os de garras, os de peçonha.
Os sinais da véspera me jogaram frente ao espelho, atrás
de caprichos. Lustrei brincos, preparei ervas, deixei que os meus olhos
ficassem profundos. À noite, tresloucada, testei idiomas de feras,
falei com vultos, pratiquei as unhas.
Naban chegou conforme o esperado. Estava mais velho, mas ainda
era um cavalo. Riu e se banhou. Tinha histórias de amedrontar e
de acariciar. Às vezes vinha, me asfixiava no canto da sala; depois
ia, vigiava com os olhos de lobo a chuva esparramando facas, martelando
telhas.
A casa já cheirava a Naban.
Mais tarde, enquanto me revirava e me esquartejava, Naban deixou
aparecer por entre os dentes a língua verde. Em seguida, seu rosto
se alongou em focinho e a pele enrijeceu, formando placas, cascos, umedeceu
como as plantas dos brejos.
Ainda era Naban, assim eu o sentia. Mas quando chegamos ao silêncio
das águas dominadas, vi Naban se mover lento para o chão,
e lá rastejou. Logo fui encontrá-lo na chuva, barrento, os
olhos aquáticos e amarelos.
Hoje Naban é um animalzinho que ressona preguiçoso
junto às macegas, nos ermos do terreiro. E eu, eu sou uma mulher
que, com os anos, perco saudades e palavras. Sou uma flor que desfolha.