Raquel Naveira



PANAPANÁ

Já viram um panapaná?
É uma onda interminável de borboletas
Que pousam sobre o pântano fumegante,
Batendo as asas impacientes,
Sorvendo sais da lama,
Num desassossego
De seres que não cansam. 

Já viram um panapaná?
As borboletas formam nuvens,
Miraculoso caudal
De pétalas alaranjadas,
Perdidas e ligeiras,
Em busca de flamas brilhantes. 

Crisálidas,
Meninas aladas,
Espíritos viajantes,
Esvoaçam como almas saídas
De estranhas moradas.

Atravessei o panapaná:
Era um banhado,
Um brejo
Banhado de flores,
Virei fada
Do lado de lá.


LEMBRANÇA
     DO RIO

Da janela da cozinha
Eu via
O rio
Ou era o rio que me espiava,
Espichando o dorso de lama,
Cobra
De couro liso.

Enquanto lavava louça,
O rio,
Escorregadio,
Levava nas águas sem espuma,
Os meus desejos,
Sentimentos
E desvios.

De vez em quando,
Desprendia-se da árvore
Um bugio,
O rio tremia,
A pele eriçada
Num calafrio.

Eu via
E pensava:
Sou moça,
Não vou morrer
Se me atiro
Nesse rio;

Não há dor,
Queimadura,
Lamento
Que ele não cure,
O seu balbucio
É paz e esquecimento.

Ó substância úmida!
Ó existência precária!
Meu corpo escoa
Como água
Como se fosse
Meu próprio rio.



AS PARCAS

Somos três as Parcas
Na barca do destino,
Somos três as Fiandeiras,
Laçadeiras da existência,
Somos três as Mulheres
Desta terra brasileira.

Sou Cloto,
A que fia,
A jovem índia,
A que lamenta a opressão,
O genocídio,
A vida transformada em morte no fim do dia.

Sou Láquesis,
A que tira a sorte,
A que determina o comprimento do fio;
Munida de um fuso
E de um mapa-múndi
Localizo almas;
Vim da África,
Minha pele é negra,
Cruzo mares
Em navios negreiros,
Escuros e sombrios
Como a escravidão.

Sou Átropos,
Nada abranda meu coração,
Corto o fio dos novelos,
Na hora em que Deus manda;
Sou alva como lírio,
elha como a História,
Minha única glória,
A de agora,
A de sempre,
A de nunca mais,
É cavar a cova dos mortais.

Somos três as Parcas
Que ligam este mundo
Ao outro mundo;
O Inferno ao Céu
E o Céu à Terra;
O homem a si
E ao seu princípio.

Somos três as Parcas
Neste labirinto,
Seguindo passo a passo o fio
Que conduz ao Infinito.

Somos três as Parcas
Nestes bastidores,
Nestes teares,
Criando formas
Que se rompem,
Frutos de nossas entranhas,
De nossa substância,
De nossas teias de aranhas.

Somos três as Parcas,
Duras e impiedosas,
Filhas da Necessidade,
Lei que rege as mudanças,
Que planta e ceifa
As contínuas esperanças.
 
Somos três as Parcas,
Fixando símbolos,
Plantando sementes
Nos campos das mentes
Que lavramos.
 
.../
Somos três as Parcas,
Somos três as Moiras:
Índia,
Negra,
Ibérica,
Marcas deste continente
Que se fez América.

Poeta e professora na Universidade
Santa Úrsula e na Casa da Leitura, RJ.
Autora de Casa e Castelo, Ed. Escrituras, que reúne
Casa de Tecla, indicado ao Prêmio Jabuti de 1999 e
Senhora, Prêmio Henriqueta Lisboa, da Academia
Mineira de Letras.
raquelnaveira@oi.com.br