Acordei com um retalho
de fio umbilical na boca.
Ariadne, feito peixe mutante,
tecia em meus lábios
o sabor que só agora traduzia.
Sabor que viera no vento,
da margem do grande útero
- um uivo na memória -
De lá vêm sinais elétricos,
pensamentos líquidos
de seres umedecidos
e pulmões duplamente ativados,
que mostram o caminho das escamas
e as pegadas em terra firme.
E ouvem a gargalhada do macaco.
SOLIDÃO E TEMPESTADE NO MIRANTE
(caderno juvenil de caligrafia com dialeto flutuante nas ondas e nos
sonhos esticados na linha do horizonte sob um céu cinza com mancha de Iberê acima da
massa móvel enfurecida ensandecida de cruel açoite-sal e na encosta há turistas com
medo da escama reluzente do anfíbio ou do carinho à queima-roupa da medusa ou do cardume
ignoto de brilho metálico que abana a cauda em pleno vôo depois do último naco de nuvem
metamorfosear-se em ser mitológico para fundir-se às espumas espermas de Münch e uma
ninfa montada numa égua dágua) DE JACK KEROUAC.
NO LUGAR QUE NÃO SE RESPIRA
um livro feito de água
é perfeito
porque não se pode
guardar
suas páginas líquidas
translúcidas
vêm dos anfíbios-hieróglifos que dizem não
à luz
não hesitam ao eterno eclipse
de um céu aquoso
de lá vem as imagens do livro
que não é um livro de arte
um livro feito de água não se quer eterno
(sequer existe)
mas um ser vivo (um peixe é um livro)
na diversidade que adensa a unidade
no lugar que não se respira
ar
BAKA
palma da mão
baka
alma baka
na mão
palma da mão
baka
bate nágua
rebate nalma
alma baka
na mão
ate nágua
rebate nalma
palma da mão
baka
alma baka
na mão
TAMBOR
ouvido atento, colado
som lusitano, lento
meu cérebro no centro
de Stambul
(de um lado, feras
do outro,
heras)
o giro incerto mastiga
o ruído
metal ruim
de um lado da estampa,
azul
do outro,
coisas grudam na
agulha
na ferrugem
na pane do som letal
e um lado, folhas
caem
pétalas
do mesmo lado
vão vira crisálida
borboletas-bomba
coração tam-
bor
tam
tambor tam
tam
tam-
bor tam
tam
tambor
tam
TUPI TU ÉS
t o d a t r i b o t a v a q u i
o n d é q u e t ã o
a t r i b o t o d a t a v a q u i
o n d é q u e t ã o
c a d ê o f o g o
o n d é q u e t á
c a d ê o f o g o
o n d é q u e t á
t u p i t u é s
t u p i
n a m b á
t o d a t r i b o t a v a q u i
o n d é q u e t ã o
a t r i b o t o d a t a v a q u i
o n d é q u e t ã o
o n d é q u e t á o m e u t a m b o r
o n d é q u e t á
o n d é q u e t á o m e u t a m b o r
o n d é q u e t á
t u p ã t u é s
t u p i
n a m b á
o n d é q u e t ã o
o n d é q u e t á
o n d é q u e t ã o
o n d é q u e t á
WARIS DIRIE
(canto somali)
ao Ricardo Lísias
Waris, Waris
flor do deserto
nômade somali
entre os bichos
e fugiu dos homens
Waris, Waris
atrás de nuvens
atrás de chuva
a pé até Mogadíscio
e abriu alas em Londres
Waris, Waris
Deusa da África
flor de clitóris
eus lábios, Waris
estão nas meninas somali
CÓCEGAS
Ricardo Corona nasceu em 1962, em Pato Branco (PR), cidade
próxima à tríplice fronteira de Brasil, Paraguai e Argentina. Na década de 80 residiu
em São Paulo (SP), onde cursou comunicação na FEBASP (1987) e desde 1989 reside em
Curitiba (PR), com Eliana Borges e o filho, Cauê Corona. É autor dos livros de
poesia "A", com Said Assal (SP, ed. Arte Pau-Brasil, 1988), Cinemaginário
(SP, Ed. Iluminuras, 1999), a história infantil O sumiço do sol (Curitiba, ed.
Arco-íris, 1993) e Tortografia, em parceria com Eliana Borges (1ª edição:
Curitiba, Ed. Medusa e 2ª edição: SP, Ed. Iluminuras, 2003) e do CD de poesia Ladrão
de fogo (Curitiba, Ed. Medusa, coleção "poesia para ouvir", 2001).
Organizou a antologia Outras praias
13 poetas brasileiros emergentes / Other Shores 13 Emerging Brazilian Poets
(edição bilíngüe SP, Ed. Iluminuras, 1998).
Traduziu em parceria com Joca Wolff o livro-poema Momento
de simetria (Curitiba, Ed. Medusa, 2005), de Arturo Carrera.
Integrou as antologias Outras praias / Other
Shores (1998), Pindorama 20 poetas de Brasil (org. pelos editores
da revista tsé-tsé, Buenos Aires, Argentina, 2000), Na virada do século
Poesia de invenção no Brasil (org. Cláudio Daniel e Frederico Barbosa, SP, Ed.
Landy, 2002), Passagens Antologia de poetas contemporâneos do Paraná (org.
Ademir Demarchi, Curitiba, Ed. IOP, 2002) e Cities of Chance: New Poetry from the
United States and Brazil (org. por Flávia Rocha e Edwin Torres, revista Rattapallax,
New York, EUA, 2003), acompanhada de CD de poesia, no qual participa com o poema
"Ventos e uma alucinação", juntamente com a seleção de poetas brasileiros e
americanos e pequena amostragem da música brasileira ("The Now Sound of
Brazil"): Caetano Veloso, Arto Lindsay, Bebel Gilberto, Arnaldo Antunes e Zuco 103.
Participou também da antologia Os cem menores contos brasileiros do século (org.
por Marcelino Freire, SP, Ateliê Editorial / Editora EraOdito, 2004) e da mostra
"Brasil: Poetry Today", publicada na revista Slope (EUA, 2004).
Tem poemas musicados por Vitor Ramil, Neuza
Pinheiro, Ana Lee, Tiago Menegassi, entre outros. Em 2004, o grupo de música instrumental
Ensemble Entre Compositores apresentou o concerto "N" (Festival de Teatro de
Curitiba), composto de várias peças musicais a partir do poema "Narayama".
Em 1998, criou a revista de poesia e arte Medusa,
e em 2004, a revista de poesia e arte Oroboro, a qual edita em parceria com Eliana
Borges.
ricardocorona@terra.com.br