Marizasa.gif (16377 bytes)
Corpo sutil

  Ricardo Corona


 

A GARGALHADA
DO MACACO

Para Sheila Tramujas

Acordei com um retalho
de fio umbilical na boca.
Ariadne, feito peixe mutante,
tecia em meus lábios
o sabor que só agora traduzia.
Sabor que viera no vento,
da margem do grande útero
- um uivo na memória -

De lá vêm sinais elétricos,
pensamentos líquidos
de seres umedecidos
e pulmões duplamente ativados,
que mostram o caminho das escamas
e as pegadas em terra firme.
E ouvem a gargalhada do macaco.


 

SOLIDÃO E TEMPESTADE NO MIRANTE

(caderno juvenil de caligrafia com dialeto flutuante nas ondas e nos sonhos esticados na linha do horizonte sob um céu cinza com mancha de Iberê acima da massa móvel enfurecida ensandecida de cruel açoite-sal e na encosta há turistas com medo da escama reluzente do anfíbio ou do carinho à queima-roupa da medusa ou do cardume ignoto de brilho metálico que abana a cauda em pleno vôo depois do último naco de nuvem metamorfosear-se em ser mitológico para fundir-se às espumas espermas de Münch e uma ninfa montada numa égua d’água) DE JACK KEROUAC. 

 


NO LUGAR QUE NÃO SE RESPIRA

 um livro feito de água

é perfeito
porque não se pode
guardar

suas páginas líquidas

translúcidas

vêm dos anfíbios-hieróglifos que dizem não

à luz

não hesitam ao eterno eclipse

de um céu aquoso

de lá vem as imagens do livro

que não é um livro de arte

um livro feito de água não se quer eterno

(sequer existe)

mas um ser vivo (um peixe é um livro)

na diversidade que adensa a unidade

no lugar que não se respira

ar


BAKA

palma da mão
baka
alma baka
na mão

palma da mão
baka
bate n’água
rebate n’alma

alma baka
na mão
ate n’água
rebate n’alma

palma da mão
baka
alma baka
na mão


 

TAMBOR

  

ouvido atento, colado
som lusitano, lento
meu cérebro no centro
de Stambul
(de um lado, feras
do outro,
heras)

o giro incerto mastiga
o ruído
metal ruim
           de um lado da estampa,
azul
           do outro,

coisas grudam na
agulha
na ferrugem
na pane do som letal

e um lado, folhas
                              caem
                                        pétalas
do mesmo lado
vão vira crisálida
borboletas-bomba
          coração tam-
                               bor
          tam
          tambor tam
tam
          tam-
bor tam
tam
tambor
          tam


 

TUPI TU ÉS

t o d a t r i b o t a v a q u i
o n d é q u e t ã o
a t r i b o t o d a t a v a q u i
o n d é q u e t ã o

c a d ê o f o g o
o n d é q u e t á
c a d ê o f o g o

o n d é q u e t á
t u p i t u é s
t u p i
n a m b á

t o d a t r i b o t a v a q u i
o n d é q u e t ã o
a t r i b o t o d a t a v a q u i
o n d é q u e t ã o

o n d é q u e t á o m e u t a m b o r
o n d é q u e t á
o n d é q u e t á o m e u t a m b o r
o n d é q u e t á

t u p ã t u é s
t u p i
n a m b á

o n d é q u e t ã o
o n d é q u e t á
o n d é q u e t ã o
o n d é q u e t á 


WARIS DIRIE

(canto somali)

ao Ricardo Lísias

 

Waris, Waris
flor do deserto
nômade somali
entre os bichos
e fugiu dos homens
Waris, Waris
atrás de nuvens
atrás de chuva
a pé até Mogadíscio
e abriu alas em Londres
Waris, Waris
Deusa da África
flor de clitóris
eus lábios, Waris
estão nas meninas somali


 CÓCEGAS

ao Cauê Corona

 encostamos nossas barrigas
e rimos ouvindo o ruído
das pedras do saber
acumuladas no estômago

umbigo com umbigo
havia o dentro
(e um fora centrípeto)
o rumor no ventre

o vômito ao mestre
o cuspe ao ídolo

sem afastar nossas barrigas
com as pedras do saber
acumuladas no estômago
rimos do gozo desse rumor



Ricardo Corona nasceu em 1962, em Pato Branco (PR), cidade próxima à tríplice fronteira de Brasil, Paraguai e Argentina. Na década de 80 residiu em São Paulo (SP), onde cursou comunicação na FEBASP (1987) e desde 1989 reside em Curitiba (PR), com Eliana Borges e o filho, Cauê Corona.  É autor dos livros de poesia "A", com Said Assal (SP, ed. Arte Pau-Brasil, 1988), Cinemaginário (SP, Ed. Iluminuras, 1999), a história infantil O sumiço do sol (Curitiba, ed. Arco-íris, 1993) e Tortografia, em parceria com Eliana Borges (1ª edição: Curitiba, Ed. Medusa e 2ª edição: SP, Ed. Iluminuras, 2003) e do CD de poesia Ladrão de fogo (Curitiba, Ed. Medusa, coleção "poesia para ouvir", 2001).

Organizou a antologia Outras praias 13 poetas brasileiros emergentes / Other Shores 13 Emerging Brazilian Poets (edição bilíngüe – SP, Ed. Iluminuras, 1998).

Traduziu em parceria com Joca Wolff o livro-poema Momento de simetria (Curitiba, Ed. Medusa, 2005), de Arturo Carrera.

Integrou as antologias Outras praias / Other Shores (1998), Pindorama 20 poetas de Brasil (org. pelos editores da revista tsé-tsé, Buenos Aires, Argentina, 2000), Na virada do século Poesia de invenção no Brasil (org. Cláudio Daniel e Frederico Barbosa, SP, Ed. Landy, 2002), Passagens – Antologia de poetas contemporâneos do Paraná (org. Ademir Demarchi, Curitiba, Ed. IOP, 2002) e Cities of Chance: New Poetry from the United States and Brazil (org. por Flávia Rocha e Edwin Torres, revista Rattapallax, New York, EUA, 2003), acompanhada de CD de poesia, no qual participa com o poema "Ventos e uma alucinação", juntamente com a seleção de poetas brasileiros e americanos e pequena amostragem da música brasileira ("The Now Sound of Brazil"): Caetano Veloso, Arto Lindsay, Bebel Gilberto, Arnaldo Antunes e Zuco 103. Participou também da antologia Os cem menores contos brasileiros do século (org. por Marcelino Freire, SP, Ateliê Editorial / Editora EraOdito, 2004) e da mostra "Brasil: Poetry Today", publicada na revista Slope (EUA, 2004).

Tem poemas musicados por Vitor Ramil, Neuza Pinheiro, Ana Lee, Tiago Menegassi, entre outros. Em 2004, o grupo de música instrumental Ensemble Entre Compositores apresentou o concerto "N" (Festival de Teatro de Curitiba), composto de várias peças musicais a partir do poema "Narayama".

Em 1998, criou a revista de poesia e arte Medusa, e em 2004, a revista de poesia e arte Oroboro, a qual edita em parceria com Eliana Borges.
ricardocorona@terra.com.br

 

voltar