poemas / Ricardo Silvestrin

 


Restam poucas chances.
Bate-boca,
todos os partidos,
um pouco de cinema,
o dedos dos profissionais,
o trem dos covardes,
uma faxina mental.
Pra quem tá a fim,
em um ano mil casos,
pista de corrida.
Amor:
assunto para amadores.
Prática desmente teoria.

***

Anjos da guarda
não estão preocupados com o caráter moral da questão.
Mas não se iludam,
Einstein estava relativamente certo
explicando tudo
sob medida.
Além disso,
a outra volta do parafuso,
ziguezague,
espaço livre,
caminhos indiretos,
os novos sinais de fumaça,
existem maneiras.
Este ano ligue,
venha conversar,
aproveite este refresco.
Apesar da chuva,
meu nome.

***

Lá no horizonte,
o ar frio.
Mais perto de você,
a saudade.
Fotografias.
Um quadro completo.
Vale a pena ver
só.
A verdade é uma escultura,
se você quiser anunciar.


algo que mora
entre o aqui
e o agora

coisa ciosa
de suas coisas
silenciosa

alguma alma
um quase eu
que não demora

pelo lado de dentro

no labirinto da madeira

um relógio de felpa

marca o tempo do móvel

riscos, reentrâncias

reparos na pintura

o pano pui

senta no móvel a criança

com seu pequeno relógio

oculto no labirinto da pele

e mesmo o relógio na parede

esconde um outro no centro

que ele nem sabe,

senhor iludido, dono do tempo,

um dia se paralisa

num eterno momento


há uma cidade por dentro

que percorre cada corpo

e aonde quer que se vá

ela vai junto

cidade dentro de outra cidade

é por isso que se diz minha

minha cidade

e sendo corpo

também dói e dá prazer

concreto abstrato

dissolvendo em lembrança

a argamassa

às vezes dói tanto

que se quer expelir

arrancar a cidade de dentro

mas é feita de tempo

matéria mais dura

que o cimento


por um momento

o vento me toma

todo, por fora

e por dentro

foi na rua

no centro

desliguei o motor

do meu pensamento

e segui à toa

em primeira pessoa

eu vento


O menos vendido


Custa muito

pra se fazer um poeta.

Palavra por palavra,

fonema por fonema.

Às vezes passa um século

e nenhum fica pronto.

Enquanto isso,

quem paga as contas,

vai ao supermercado,

compra o sapato das crianças?

Ler seu poema não custa nada.

Um poeta se faz com sacrifício.

É uma afronta à relação custo-benefício.

 

Ricardo Silvestrin é poeta e editor autor de  ex, Peri, mental, Editora  AMEOP. silvestrin@uol.com.br

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